26 de março de 2026
Politica

Lições do affair Erika e Ratinho

“ImbeCIS”, escreveu a deputada Erika Hilton, em suas redes, dizendo que não se preocupava com a opinião do “esgoto” da sociedade, se referindo aos críticos de sua eleição à presidência da Comissão da Mulher, da Câmara.

Muita gente identificou uma certa contradição, na atitude da deputada. Ao mesmo tempo em que move processos contra quem ofende sua “identidade”, não se constrange em fazer o mesmo com a dos vizinhos. De minha parte, vejo nisso uma espécie de feijão com arroz de nossa época. Discurso de ódio é sempre o do outro. Isto sempre será assim na barafunda digital.

O affair entre a deputada Erika e o apresentador Ratinho sintetiza bem nosso conflito cultural: de um lado, um conservadorismo popularesco; de outro, a cultura woke.

O início de tudo foi a crítica de Ratinho à eleição de Erika para a Comissão. Uma bobagem, cá entre nós. Haveria alguma lei ou razão metafísica proibindo uma mulher trans de ocupar aquela posição?

Dito isso, Ratinho tem direito a sua crítica. O mesmo valendo para sua posição sobre gênero. Ele e alguns milhões de brasileiros acham que existem homens e mulheres. E ponto. Até aí, tudo bastante trivial. Sociedades abertas são assim. As pessoas divergem entre si em temas éticos, e isto irrita muita gente. Há quem imagine que o mundo é simples, que sua régua moral deva funcionar como regra geral. E que os “errados” deveriam ser calados, banidos, multados, presos. Ou coisa pior. Muitas vezes se tentou fazer isso, na história. E os resultados, sinto dizer, não foram lá muito promissores.

Se levássemos a ideia de diversidade a sério, aceitaríamos como um tipo de “bem” que um tradicionalista como Ratinho tenha uma visão convencional sobre temas de gênero, e que a deputada sustente uma visão oposta.

O problema começa quando a deputada aciona o Estado para punir Ratinho. Pede que ele tome uma multa de R$ 10 milhões e que seu programa saia do ar. É nesse exato momento que um apreço genérico pela “diversidade” encontra sua mais perfeita contradição. Algo na linha: eu posso me identificar como homem ou como mulher. E posso criar conceitos para sustentar minhas escolhas. Mas você, seu imbecil, seu esgoto da sociedade, está proibido de ter qualquer opinião diversa a respeito.

No limite, qualquer crítica à visão da deputada sobre transgenia seria um crime. Palavras gentis e bem-fundamentadas podem representar um risco muito maior do que o xingamento de Ratinho na televisão.

Fotos de: Marcos Corrêa/PR e  Mário Agra/Câmara dos Deputados
Fotos de: Marcos Corrêa/PR e Mário Agra/Câmara dos Deputados

Foi exatamente contra esta visão de mundo que a Justiça brasileira se posicionou esta semana. O caso diz respeito a uma jovem estudante que arriscou escrever que existem homens e mulheres e foi devidamente processada pela deputada Erika. Ainda por estes dias, sofreu uma derrota, na Justiça, a partir de uma decisão do desembargador Rogério Fialho Moreira.

Em sua decisão, o Desembargador foi claro: “A distinção entre sexo biológico e identidade de gênero é tema controverso”, disse ele. E que “admitir que opiniões filosóficas ou científicas sobre esse tema, ainda que incômodas, possam ser criminalizadas significaria suprimir, pela via penal, o próprio debate intelectual sobre a questão”.

Lendo isso, me surpreendo como algo tão perfeitamente óbvio precise ser escrito por um desembargador. Algo que pertence (ou ao menos deveria) ao common sense de uma sociedade liberal e democrática. Coisa que definitivamente não somos, infelizmente.

O ponto é que há uma lição a aprender, com todo este episódio. Muitas vezes escuto por aí alguém se definindo como “liberal na economia e progressista nos costumes”. Parece uma ótima fórmula, mas é preciso algum cuidado. Há uma grande diferença entre ser um progressista e ingressar no terreno escorregadio da cultura woke. E isto se dá no exato ponto em que uma visão favorável à diversidade e à não-discriminação se converte, ele mesma, em uma forma de intolerância.

Uma cultura progressista dirá que cada tem o direito de viver como bem entender, respeitando a maneira as escolhas dos demais; no registro woke, temos o inverso: se você não pensar como eu acho que você deve pensar, vou denunciar você para o Ministério Público. E a máquina do Estado vai tirar você do ar, vai lhe impor uma multa gigante, comprometer sua reputação, fazer você gastar uma fortuna com advogados, perder o emprego, quando não colocar você na cadeia, pura e simplesmente.

De novo, há quem simpatize com um mundo desenhado dessa maneira. Não é o meu caso. Prefiro viver em um mundo em que a deputada Erika e o Ratinho tenham liberdade para defender suas posições, inclusive chamando a outra parte de “esgoto”. Alguém me disse que sou minoria, nisso. Mas desconfio que não.

 

 

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