29 de março de 2026
Politica

Célio Salomão Debes

Célio Salomão Debes
Célio Salomão Debes

Nascido em São Paulo aos 22 de março de 1926, justamente hoje Célio Salomão Debes completaria cem anos. Tive o privilégio de conhecê-lo na década de sessenta, quando ele era Advogado-Chefe da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, onde eu exercia a modesta função de Praticante de Escriturário referência XIII.

Por trabalhar no Departamento de Pessoal, várias vezes vinha ao prédio Saldanha Marinho, hoje ocupado pela Secretaria da Segurança Pública, despachar com a cúpula da ferrovia. Era homem polido, atencioso e minucioso. Conversava com o então jovem acadêmico de Direito e incentivava instigantes leituras jurídicas.

Mais tarde, já em 2003, foi ele quem assinou os convites para a minha posse na Academia Paulista de Letras e, desde então, nosso convívio se tornou mais próximo. Era um intelectual e pesquisador paciente e perseverante. Devotou-se a esmiuçar a vida de Washington Luís e produziu alentada obra em vários volumes.

Formado em Direito pela São Francisco, turma de 1950, foi Procurador do Estado e, além da Companhia Paulista, atuou como Procurador do Tribunal de Contas do Estado, chegando a integrar o quadro de Substitutos de Conselheiro, de 1984 a 1991, ano em que exerceu a função de Conselheiro Substituto. Prosseguiu nos estudos acadêmicos e obteve o título de Mestre em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em 1975.

Como Procurador do Estado, integrou o 1º Conselho da PGE, entre 1967 e 1968, presidiu a Banca de Direito Constitucional do Concurso de Ingresso à carreira no mesmo biênio e, de 1983 a 1989, foi membro do Conselho de Orientação do Boletim e da Revista da Procuradoria.

Muito erudito, era chamado a proferir conferências em inúmeros auditórios, como na Universidade de São Paulo e no Instituto Histórico e Geográfico, do qual foi sócio efetivo e chegou à condição de Emérito, além de exercer a Vice-Presidência.

Na Academia Paulista de Letras ocupou a Cadeira 4, tomando posse em 24 de novembro de 1994. Foi 1º Secretário entre 1999 e 2002 e Secretário-Geral em 2003 e 2004. Nessa condição, exerceu interinamente a Presidência, no mesmo período.

Foi fundador e titular também da Cadeira 4 da Academia Paulista de História, da qual foi Vice-Presidente de 1995 a 2000 e Secretário-Geral de 2001 a 2003. Era uma autoridade em História, pertencendo à Associação Nacional dos Professores Universitários de História, a ANPUH e o Instituto de Geografia e História Militar do Brasil.

Foi um prolífico escritor. Publicou “Evocações da Turma Acadêmica de 1950”, “A caminho do Oeste”, subsídios para a História da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, em edição comemorativa ao Centenário da Ferrovia que foi um modelo, lamentavelmente abandonado, após sua desastrosa estatização.

Elaborou alentado estudo sobre “Constituição, estrutura e atuação do Partido Republicano de São Paulo”, relativo ao período 1872-1889 e essa monografia, apresentada ao Departamento de História da FFLCH da USP em 1975, foi aprovada com distinção por categorizada equipe avaliadora. “O Partido Republicano de São Paulo na Propaganda” foi sua Dissertação de Mestrado, aprovada com louvor.

Estudioso da vida de Campos Salles, publicou “Perfil de um Estadista”, obra laureada em 1º lugar no concurso sobre a vida e a obra do grande paulista, promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico, em dois volumes, obra que teve uma segunda edição, publicada pelo INL.

Quando do centenário de nascimento de Júlio Prestes, Célio Debes publicou “Júlio Prestes e a Primeira República”, em 1982, assim como escreveu sobre o Tribunal de Contas na celebração do centenário de criação dessas Cortes no Brasil.

Inúmeros artigos seus constam de jornais como o “Estado de São Paulo”, assim como ficaram memoráveis suas conferências “Washington Luís, sucessor de Mário de Andrade”, “Influência Política e Literária da Academia de São Paulo no século XIX”, “Momentos marcantes da História da Academia Paulista de Letras”, “1930 Revisitado: a Revolução”, “A Justiça Revolucionária criada em 1930” e “1932. E depois…”, todas proferidas em sua amada Academia Paulista de Letras.

Nos anos finais de sua profícua existência, falávamos quase toda noite ao telefone. Era um acadêmico paradigmático. Formou imensa biblioteca e sofreu grande frustração quando a entidade destinatária não cumpriu o compromisso de mantê-la íntegra e acessível a pesquisadores. Sinal dos tempos tristes que nos foram reservados vivenciar. Faleceu em 28.9.2021.

Homens como Célio Salomão Debes são insubstituíveis. Mereceriam homenagens condignas, tivéssemos avançado no cultivo da verdadeira História e soubéssemos reverenciar padrões que não mereceram continuidade qualitativa em todos os setores nos quais se destacou.

 

 

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