Lula convoca aliados históricos para campanha e cobra gabinete de ‘pronta- resposta’ a Flávio
BRASÍLIA – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou aliados históricos para integrar o núcleo de sua campanha ao quarto mandato. Em café da manhã no Palácio da Alvorada com amigos da velha-guarda petista, na última segunda-feira, 16, Lula afirmou que a disputa deste ano será “muito dura” e pediu a montagem de um gabinete da “pronta-resposta” para rebater o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal adversário.
A preocupação da cúpula do PT, hoje, é com o fato de o governo não conseguir ultrapassar a marca de 40% de aprovação nas pesquisas de intenção de voto. Nos últimos levantamentos, o apoio à atual gestão ficou na faixa de 32% a 33%. Agora, o dilema consiste em como conseguir superar a avaliação negativa. Não sem motivo: mesmo com indicadores econômicos melhores, com inflação controlada e a menor taxa de desemprego desde 2012, há um clima de pessimismo no País.
Sob a coordenação do presidente do PT, Edinho Silva, a equipe da campanha de Lula será composta por nomes que já o acompanharam em outras eleições. Na lista estão o secretário de Economia Popular e Solidária, Gilberto Carvalho; o ministro Wellington Dias (Desenvolvimento Social); o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, a secretária executiva do Foro de São Paulo, Monica Valente, e o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, além do ex-prefeito de Diadema José de Filippi Júnior na tesouraria.

O time ainda será ampliado e o titular da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), é um dos nomes que devem compor a coordenação.
Mesmo antes do início oficial da campanha, em agosto, a ordem no Palácio do Planalto e no PT é para que, de agora em diante, todos se refiram sempre ao desafiante de Lula como “Flávio Bolsonaro”, e não apenas “Flávio”.
A artilharia petista vinha poupando o senador porque havia o receio de que, se ele fosse totalmente desconstruído agora, o ex-presidente Jair Bolsonaro pudesse chamar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para ser o candidato à sucessão de Lula. E, no diagnóstico do PT, Tarcísio sempre foi considerado mais perigoso do que Flávio.
Tudo mudou, no entanto, com o crescimento repentino do senador, o que fez a luz vermelha acender no Planalto. A nova estratégia delineada pelo comando do PT também prevê palavras de ordem, como dizer ao eleitor que Flávio é “golpista como o pai” – frase já usada pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, hoje candidato a deputado federal.
Além disso, o partido destacará acusações que pesam contra o filho “01″ de Bolsonaro, como a do escândalo da “rachadinha”, e o que pode acontecer com o Brasil se “eles” ganharem.

Entre os itens que serão associados a uma possível vitória do bolsonarismo constam a desvinculação do salário mínimo como parâmetro para o reajuste das aposentadorias e a submissão do Brasil ao governo de Donald Trump nos Estados Unidos.
O publicitário baiano Raul Rabelo vai ser o marqueteiro da campanha de Lula. Braço direito de Sidônio Palmeira, hoje ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Rabelo já havia atuado ao lado do antigo sócio no programa eleitoral do petista, em 2022.
A avaliação no Planalto é que, com o avanço de Flávio nas pesquisas, Sidônio precisa continuar à frente da Secom porque o governo tem perdido a batalha da comunicação.
Esta é a campanha da realidade paralela, agravada pelo uso da Inteligência Artificial.
Gilberto Carvalho, secretário de Economia Popular e Solidária
“Esta é a campanha da realidade paralela, agravada pelo uso da Inteligência Artificial”, disse Gilberto Carvalho ao Estadão. “É tudo muito diferente do que era antes e há muitos problemas a serem enfrentados: a crise no INSS, o caso do Banco Master, a capacidade de narrativa da direita – especialmente em temas como a família e o aborto –, a lavagem cerebral com a força das redes sociais e a presença do neofascismo.”
Ex-chefe de gabinete de Lula em seus dois mandatos anteriores e ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência na gestão de Dilma Rousseff, Gilberto deixará no fim deste mês a pasta que comanda, no Ministério do Trabalho, para se dedicar à campanha.
Conhecido por ler todo dia uma passagem da Bíblia, antes de iniciar o expediente, o ex-ministro e ex-seminarista será responsável pela agenda de Lula e, ainda, por investir em articulações para melhorar o diálogo com as igrejas, onde o conservadorismo vem crescendo.
Em recente reunião com militantes de movimentos sociais, Gilberto fez uma autocrítica e afirmou que o PT precisa entender o novo momento político. “Há também os nossos erros, como a ilusão sobre o nosso êxito, o recuo na presença nas periferias, a concentração na luta institucional, a falta do trabalho de base, e assim por diante”, insistiu.
Gilberto admite que os desafios são grandes e vislumbra dificuldades na campanha. “Por que este governo do presidente Lula não consegue passar de 40% de aprovação? Dificilmente um governo consegue a reeleição sem chegar a, pelo menos, 45% de aprovação. Como fazer para superar isso?”, questionou.
Para ele, porém, “nem tudo está perdido” porque o governo tem o que apresentar. “O clima, hoje, é marcado pelo fenômeno que começou em 2013, com aqueles protestos, e agora conta com o uso abusivo das redes sociais. Mas a aposta é que, na hora em que começarmos a mostrar o que fizemos, comparando com o governo anterior (de Bolsonaro), a percepção das pessoas vai melhorar”, observou o secretário de Economia Popular e Solidária.
Ao discursar para uma plateia formada por militantes do PT, na noite de quinta-feira, 19, o próprio Lula admitiu que o governo vive um período delicado e cobrou a mobilização dos aliados.
Não será uma disputa fácil e cada um vai ter de se transformar em um soldado nessa luta
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República
“Não será uma disputa fácil e cada um vai ter de se transformar em um soldado nessa luta”, avisou o presidente ao participar do ato de lançamento da pré-candidatura de Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda, ao governo de São Paulo.
Lula se mostrou decepcionado com os números registrados nas pesquisas. A sete meses do primeiro turno, a avaliação negativa do governo alcançou 40%, de acordo com levantamento do Datafolha divulgado em 7 de março.
Em um desabafo, o presidente chegou a dizer que a bancada do PT tem vacilado e não está reagindo à altura aos ataques da oposição, muito menos na CPI do INSS.
Como mostrou o Estadão, o dono do Master, Daniel Vorcaro, pretende também puxar o PT para o escândalo do banco, liquidado após uma série de fraudes que causaram um prejuízo de mais de R$ 50 bilhões ao sistema financeiro. Até agora, as ligações de Vorcaro atingiram em cheio políticos do Centrão e ministros do STF.
“Vira e mexe eles estão tentando empurrar nas costas do PT e do governo esse Banco Master. Esse Banco Master é ovo da serpente do Bolsonaro e do Roberto Campos (Neto), ex-presidente do Banco Central”, protestou Lula, na quinta-feira.
A cargo de José Sérgio Gabrielli e de Aloízio Mercadante, o programa de governo do presidente, por sinal, terá um trecho que condena a autonomia do Banco Central, segundo apurou o Estadão.
Mesmo fora do governo, Gabrielli sempre foi um dos conselheiros de Lula. Em 2021, o Tribunal de Contas da União (TCU) o condenou a pagar multa por envolvimento na tentativa de compra da fatia restante da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. No ano passado, porém, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kássio Nunes Marques anulou a condenação do ex-presidente da Petrobras.
Plano é formar ‘Clube de Influência do Time Lula’
Amigo de longa data de Lula, o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, não deixará o cargo para participar da campanha. Ex-governador do Piauí e senador licenciado, com mandato até 2030, Wellington disse que vai tirar férias no período da corrida eleitoral propriamente dita.
“Eu vou me desdobrar para cumprir as regras legais, ficando no ministério”, afirmou. “A ideia é que eu organize a estratégia em cada Estado do Nordeste, com outros líderes de partidos e setores de cada região”.
Guilherme Boulos, por sua vez, deverá cuidar da relação com trabalhadores da economia informal, como os dos aplicativos, que hoje flertam com o bolsonarismo.
Secretária executiva do Foro de São Paulo, Mônica Valente fará a “ponte” com as campanhas estaduais e Paulo Okamotto, um dos poucos amigos de Lula que entra no Planalto sem marcar audiência, tratará das iniciativas nas redes sociais.
Hoje, por exemplo, Okamotto é responsável pelo projeto “Pode Espalhar”, criado para ampliar o alcance de pautas positivas do governo nas redes por meio de influenciadores digitais alinhados com o governo.
O plano é formar o “Clube de Influência do Time Lula” na campanha, com suporte jurídico. “Vamos atuar com muita disciplina e organização para explicar e dar mais centralidade ao que o governo está fazendo para melhorar a vida do povo”, argumentou Okamotto.
