Aliado de Lula no Rio diz que Paes esconderá presidente e culpa Sidônio por crise com evangélicos
BRASÍLIA – Ex-prefeito de Belford Roxo e um dos principais aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Rio de Janeiro, Waguinho Carneiro (Republicanos) diz que quer disputar o governo do Rio de Janeiro para dar um palanque “genuíno” ao petista, que, em sua avaliação, seria “escondido” na campanha de Eduardo Paes (PSD).

Lula já declarou apoio ao prefeito da capital fluminense na corrida pelo Palácio Guanabara. No entanto, Waguinho manifesta dúvidas sobre a disposição de Paes de fazer campanha ao lado do petista. Ele cita decisões recentes do prefeito que se chocariam com essa intenção, como a escolha como vice de Jane Reis, irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis. A família é próxima da família Bolsonaro.
Também lembra que Paes fez acenos ao pastor Silas Malafaia, aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em evento em setembro, Paes manifestou apoio ao líder evangélico após ação da Polícia Federal e disse: “Mexeu com Silas, mexeu comigo”.
“O prefeito Eduardo Paes já tem demonstrado que não terá tanto interesse na reeleição do presidente Lula. Por que ele vai lá na igreja do pastor Silas Malafaia e diz: ‘Mexeu com Silas, mexeu comigo’? Isso é uma vergonha”, critica Waguinho.
“Ele (Paes) está preocupado com a eleição dele. Então, de 100%, eu acho que 1% ele está contribuindo (com a campanha de Lula). E 99% ele não está interessado que o presidente Lula seja reeleito ou não”, complementa.
Correligionário do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, Waguinho diz ter recebido “autonomia total” do presidente do Republicanos, Marcos Pereira, para levar sua pré-candidatura à frente.
Segundo ele, sua pré-candidatura é uma realidade, mas depende do aval de Lula para seguir adiante. A conversa ainda não tem data para ocorrer. “Mas pode acontecer a qualquer momento. Porque o presidente com certeza vai me chamar para falar”, diz.
Um dos principais fiadores de Lula no Rio de Janeiro na eleição de 2022, Waguinho vê um cenário ainda mais difícil neste ano. Ele cita a aproximação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas de intenção de voto mais recentes e afirma que a polarização está “muito mais forte” neste ano.
“A gente não pode perder esses votos. A gente tem que estancar essa sangria toda. Foi a missão que eu tive em 2022″, diz. Ele argumenta que o petista precisa fortalecer o Rio de Janeiro com pessoas que realmente vão carregar sua bandeira, “com gente que não vai esconder ele, que não tem medo de botar na cédula que o eleitor leva para a urna”.
Para o ex-prefeito de Belford Roxo, Paes não demonstra essa disposição. O prefeito do Rio de Janeiro também teria outras dificuldades, na avaliação de Waguinho.
“O Eduardo Paes fica muito mais focado na parte da zona sul da cidade. E ele não consegue penetrar na região metropolitana, que é a grande Baixada Fluminense. E a outra região que Eduardo Paes também não consegue penetrar é no Norte, no Noroeste, nas regiões interiores e no Sul fluminense também.”
“Então, o presidente ficaria desfalcado nessa região, não de apoio, mas desfalcado de ter um palanque genuíno quando ele precisasse ir nesses lugares”, ressalta.
Waguinho também qualifica Paes de “prefeito festeiro”. “Seria um excelente secretário de Turismo. Mas eu não vi nenhuma obra dele nos quatro mandatos, com esses bilhões todos que a cidade tem.”
O prefeito Eduardo Paes não respondeu aos pedidos de manifestação sobre as declarações de Waguinho.
Tiro no pé
Evangélico, Waguinho também dirige ao ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, as principais críticas pela crise gerada no governo por causa do desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou Lula. A escola de samba foi rebaixada.
A agremiação levou à Sapucaí uma ala com críticas a conservadores, que ampliou o desgaste do presidente com evangélicos.
“Nós temos, em primeiro lugar, uma falha muito grande do ministro da Comunicação, o Sidônio. Porque se o presidente da República vai ser homenageado por uma escola de samba e se eu cuido da comunicação do presidente, eu não posso deixar o presidente em maus lençóis”, argumenta.
Para ele, Sidônio deveria ter monitorado desde a letra até as alas previstas para o desfile da escola de samba. “Se eu vou lá e vejo tudo que eles iam fazer, o presidente não teria passado por esse constrangimento”, diz.
Procurada, a Secom não quis comentar as críticas.
Para o pré-candidato, é possível recuperar a perda de apoio nesse segmento, mas o trabalho tem que começar a ser feito agora. “Não pode deixar para fazer isso na hora da eleição. A gente tem que mostrar e provar que o presidente não tem nada a ver com isso. Não foi ele que mandou fazer isso”, defende.
Gestão Castro
Waguinho também ataca a gestão de Cláudio Castro (PL), que diz ser “o governo mais corrupto de toda história do Rio de Janeiro”, mas sem citar detalhes. Castro deixou o Palácio Guanabara nesta segunda-feira, 23.
As principais queixas são destinadas à segurança pública e às organizações sociais de saúde que administram a área no Estado.
Para o ex-prefeito de Belford Roxo, Castro “entregou a polícia na mão da política, na mão dos deputados”.
“Virou uma bagunça, virou uma coisa que levou muita gente à morte”, diz Waguinho, que nega ser contrário às operações em comunidades pobres, como a Contenção, criticada por deixar 121 mortos e não conseguir prender Edgar Alves de Andrade, o Doca, um dos chefes do Comando Vermelho.
“Eu não sou contra as operações. Mas as operações têm que ser feitas com a polícia de inteligência. Ela não pode ser feita no momento eleitoral”, complementa.
Segundo ele, o então governador usou a ação com finalidade eleitoral. “Cláudio Castro, por estar muito mal eleitoralmente, não pensou no Rio de Janeiro, pensou nele. Por que ele não fez isso antes? Ele ficou lá quase sete anos e na hora de ir embora ele monta a operação?”, questiona. “E os seis anos, quase sete anos para trás? Não tinha problema? Os problemas eram os mesmos.”
Procurado pelo Estadão, Cláudio Castro não se manifestou sobre as declarações de Waguinho.
