26 de março de 2026
Politica

Saída de Ratinho é um recado: para ter chance, PSD precisa primeiro acreditar em seu candidato

Leia a transcrição na íntegra do comentário em vídeo:

Sobre a desistência do governador Ratinho Júnior na candidatura presidencial pelo PSD, a pergunta é muito simples. Se o próprio PSD, um partido de centro que representa hoje a terceira via nas eleições, não acredita claramente no seu candidato, por que o Ratinho Júnior acreditaria?

Fiz essa pergunta duas vezes ao presidente do PSD, Gilberto Kassab. Quando a gente vê o PSD com sete ou oito regionais, especialmente no Nordeste, ou basicamente no Nordeste já, inclinadas ou declarando apoio ao Lula… Então, o próprio partido, um terço dos Estados, das regionais do partido apoia o candidato do governo, por que lançar uma candidatura da oposição?

Faz muito mais sentido para o Ratinho Júnior, que tem um problema lá no Paraná, permanecer no governo do Estado e liderar o projeto político, na medida que tem uma oposição muito forte lá, no candidato que até agora é favorito, que é o Sérgio Moro, pela coalizão com o Flávio Bolsonaro. Essa é a questão central.

Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Júnior em evento em São Paulo em janeiro
Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Júnior em evento em São Paulo em janeiro

O PSD tende a lançar o Ronaldo Caiado, que é uma candidatura em grande medida independente, que é um político que está em um momento, em uma fase da sua carreira que faz sentido concorrer contra tudo e contra todos. A explicação de que os partidos políticos são assim mesmo, que os partidos de centro não têm coesão, que a polarização atrai, ela é sociológica, mas ela não funciona na política. Na verdade, se um partido quer realmente ter competitividade, ele precisa mostrar à sociedade que acredita na sua própria candidatura e no seu projeto. Senão a sociedade percebe esses sinais muito claramente.

A ideia de que a campanha vai se dar nas redes sociais e que isso vai resolver o problema é uma meia-verdade no fundo. Por quê? Porque as redes sociais estão mais polarizadas do que o próprio sistema político. Quem são os políticos de maior visibilidade de rede social? Flávio Bolsonaro, Lula, depois vem Eduardo Bolsonaro, depois vem Michelle Bolsonaro, depois vem Carlos Bolsonaro, depois vem Nikolas Ferreira, vem a Janja, enfim. São políticos que estão nos polos, não estão nos centros. Não tem influências digitais de centro ligadas à terceira via, ligados ao PSD, influentes no Brasil, porque as redes sociais são mais polarizadas do que o sistema político tradicional.

Então, o grande desafio de uma candidatura do PSD, que imagino que encaminhe-se agora para o Ronaldo Caiado, é como se posicionar neste campo da direita e da centro-direita. Este é o campo que efetivamente disputa nas eleições deste ano. Ou alguém imagina que um candidato, um eleitor de esquerda ou de centro-esquerda vai abandonar o Lula por uma candidatura do PSD?

Vamos supor que o Eduardo Leite fosse o candidato, que fez muitos acenos mais à esquerda, foi muito crítico ao bolsonarismo nos últimos anos da sua trajetória política. Ele teria muita dificuldade de disputar um candidato com o campo da esquerda. Então, a candidatura natural realmente é a do Ronaldo Caiado, que vai tentar se mostrar mais viável, uma candidatura no campo da direita, conservador.

No debate da Band com os três pré-candidatos (do PSD), ele foi o único que disse claramente que daria anistia geral aos envolvidos lá no 8 de janeiro, ao próprio presidente Bolsonaro. Então, deixou muito claro isso. Ele vai se dirigir diretamente a este campo político, disputar voto a voto, disputar o ingresso no eventual segundo turno.

É uma tarefa muito difícil, porque, de novo, vai enfrentar um partido dividido. O centrão tende a se dividir com a polarização, porque é pragmático. Então, mais o centro-sul tende a ir com o Flávio, mais o Nordeste tende a ir com o Lula. Isso vai acontecer de novo. E o espaço da terceira via vem se reduzindo na política brasileira. Objetivamente. Vamos lembrar, o terceiro colocado em 2014 foi a Marina, com 21,2%. O terceiro colocado em 2018, que foi o Ciro Gomes, 12%. O terceiro colocado em 2022 foi a Simone Tebet, que fez 4%. Estou arredondando aqui. Então, esse espaço da terceira via vem encolhendo no Brasil. Por que o candidato da terceira via nessas eleições faria diferente do Geraldo Alckmin, faria diferente da Simone Tebet? Qual é a mágica que aconteceria?

O recado é muito simples. Se a terceira via quiser ter sucesso, quiser ter alguma chance na política, nas eleições no Brasil, o primeiro passo a ser dado é a própria terceira via acreditar na sua própria candidatura e no seu projeto político, que até agora nós não vimos muito claramente no País.

 

 

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