26 de março de 2026
Politica

‘Se atacar Itaipu, acaba o Brasil’, afirma ex-comandante da Marinha, que propõe plano para a Defesa

O almirante de esquadra Ilques Barbosa Junior comandou a Marinha do Brasil de 1º de janeiro de 2019 até a crise que levou à derrubada da cúpula militar no governo de Jair Bolsonaro, em 30 de março de 2021. Desde que deixou o comando, dedicou-se a estudos na área de Defesa, participando de seminários e palestras. Há dez dias, concluiu um pequeno texto sobre as mudanças da geopolítica global e como o Brasil deve enfrentá-las.

Ex-comandante da Marinha do Brasil, o almirante Ilques Barbosa Junior escreveu documento sobre o novo cenário geopolítico e mudanças na Defesa no Brasil
Ex-comandante da Marinha do Brasil, o almirante Ilques Barbosa Junior escreveu documento sobre o novo cenário geopolítico e mudanças na Defesa no Brasil

Intitulado As Pax, o Fim, a Volta e a Nova, o documento trata de tópicos que deveriam ser abordados pelas lideranças políticas para a adequação do novo cenário surgido diante de todos. Ilques defende a incorporação de autoridades civis que definam planos de defesa em áreas como transporte, energia, biossegurança a fim de que o Brasil não fique à mercê de ataques hostis, além de desenvolvimento autônomo de produtos de Defesa.

Na semana passada, o tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior defendeu, em entrevista ao Estadão, a adoção no Ministério da Defesa de um modelo de Estado-Maior Conjunto ao qual se subordinariam os chefes das três Forças Armadas. O almirante Iques é contra a ideia. A seguir, a entrevista.

No seu artigo, o senhor não trata de uma das polêmicas atuais sobre o uso das Forças Armadas para o combate ao narcotráfico. Como o senhor analisa essa pressão dos EUA para que os países da América Latina usem suas Forças nessa atividade?

Esse é um tipo de operação que envolve a correção de fluxo de recursos financeiros, a movimentação no exterior, a Interpol, a Polícia Federal. Essa área é uma área que, predominantemente, tem de haver descrição e velocidade. Isso não é uma característica das Forças Armadas, por exemplo, com um movimento de blindados. A GLO é de uma simplicidade franciscana. Tem casos pontuais, né? Vamos fazer uma atuação cirúrgica de alguns meses e, se o Estado não entrar, volta tudo ao que era antes no quartel de Abranches. Então, não trato desse assunto porque ele é, vamos dizer assim, um remédio que não serve. O que podemos fazer é um apoio logístico, como na Amazônia e no Pantanal. Se você põe o Ibama para combater o garimpo ilegal, e você precisa de apoio de um pelotão, dois pelotões, uma companhia. Mas meu enfoque aí é um pouco diferente.

O que o senhor acha que precisa ser revisto na Defesa do País?

Meu enfoque envolve infraestruturas críticas, envolve lateralmente o fornecimento de energia, a segurança sanitária que é a questão de bioterrorismo, envolve a questão alimentar, pois se você corta o fluxo de fertilizante, acaba a comida. Então, essas estruturas, em razão de seu impacto tão potente, têm uma dimensão hoje muito grande. É o caso da cibernética. Quando eu começo a falar em defesa e segurança, eu mesclo dois assuntos que têm como base central a sobrevivência e a prosperidade do Estado dentro de uma situação de conflito.

Essa visão do senhor é compreendida no País?

Poucos entendem o meu raciocínio, mas o Exército, principalmente, entende isso porque tem um pouco mais de afastamento da sua tecnologia. O que está acontecendo hoje no Irã? O que o Irã fez? Vou cortar um fluxo logístico vital para o mundo, o estreito de Ormuz. Isso é um assunto que não envolve só a defesa – envolve, indiretamente, se você for limpar a mina, o campo minado –, mas também outras áreas. A área de informações, que trata da segurança marítima, dos próprios marinheiros que estão no mar, essas coisas todas precisam de uma mescla de atuação civil e militar. São áreas distintas. Em termos de catástrofes da natureza, isso fica ainda mais evidenciado. Se você tem um furacão só haverá comando e controle para uma situação dessa com o uso da Força Armada de qualquer país, tamanha a destruição. Meu raciocínio é que hoje a defesa exige uma interação entre as pessoas. Eu estudei muito cibernética por um trabalho que nós fizemos para FGV. A maioria das pessoas que eu conversei sobre isso, falando de computação quântica, quebra de senha, era civil. Tudo civil. E eles serão certamente alvos de qualquer atuação de Defesa. É o que acontece no Irã também: matam os cientistas nucleares.

A fragata Tamandaré com seu canhão Oto Melara de 76 mm Super Rapid; ela deve ser equipada com o Sea Ceptor (míssil CAMM), para defesa aérea, e com os mísseis Mansup_ER, contra navios
A fragata Tamandaré com seu canhão Oto Melara de 76 mm Super Rapid; ela deve ser equipada com o Sea Ceptor (míssil CAMM), para defesa aérea, e com os mísseis Mansup_ER, contra navios

O senhor propõe um debate sobre a defesa no País a partir de ideia mais ampla, ou seja, de dentro do ministério para fora do ministério da Defesa. Mas e para dentro? POdderíamos pensar em uma reforma, com um Estado-Maior Conjunto acima das Forças, como acontece nos Estados Unidos, por exemplo?

Eu fico preocupado no Brasil quando se fala em mexer com o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. É que, na verdade, fala-se em diminuir a importância dos militares. O plano de fundo é esse. A Chefia Conjunta que eu estou falando não é mexer na Chefia Conjunta de hoje. É colocar na mesa junto com o Joint Chief atual, talvez, até no mesmo nível de autoridade, quem é o cara que trata da segurança energética no País. Da segurança energética no País, entendeu? Quem é o cara que trata disso? Ele está no Comando Conjunto? Quem trata da Defesa Cibernética? É o Comando de Defesa Cibernética e esse está na área do Estado-Maior Conjunto. Mas quem é o cara que trata da segurança sanitária? Eu estou falando disso. Quando eu fiz um seminário de Defesa e Segurança, o que me chamou a atenção, sinceramente, foi que quem mais estava preocupado com assuntos e ameaças ao Brasil eram os civis. Os militares tinham uma visão militarizada demais, se eu posso dizer dessa maneira.

Não se discute as possibilidades de emprego das Forças? É isso?

Qual é o potencial inimigo do Brasil? O Brasil não tem mais inimigos na América do Sul. O Brasil é 50% do PIB (da região). Não tem como você brigar com o Brasil. O nosso centro de gravidade no País está muito longe do alcance dos países a oeste. À Leste não, o negócio é mais complicado. Então, quem é o cara que está junto com o chefe de Estado-Maior Conjunto, que trata da mobilidade das estradas do Brasil? Como é que eu faço para transportar a 1ª Divisão de Exército do Sudeste para o Norte se for necessário? Quais são os canais que eu vou usar? É isso que é o importante. Perdemos muitas oportunidades por causa dessa perda de prestígio.

A defesa e a segurança do País exigem que a defesa não seja considerada um tema só de militares, é isso?

Pelo contrário, por isso que eu falo em liderança política. A liderança política desse Joint Chief robusto, de atuação robusta, inclui, como eu disse, a segurança energética. Se atacar Itaipu, acaba com o Brasil. Fechar o porto de Santos e fazer alguma coisa em Itaipu: acabou. Então, quem é o cara que está na segurança energética, o cara que está na segurança cibernética? Se acontecer um ataque à segurança sanitária, qual é o setor hoje que realmente trata disso? Na cyber, tivemos alguns ataques recentes. As pessoas não acreditam. Alguns pagam até resgate de dados. A dimensão de Joint Chief que eu estou falando é como é nos Estados Unidos, o da Homeland Security, que fala com Joint Chief, o comando central de lá. O comando central dos EUA não foi alterado para poder mexer em circunstâncias menores, como o desejo de colocar os militares ‘no seu devido lugar’. Os militares são reflexos do que a sociedade quer. Não adianta você não querer militar. Você não quer escola? Não tem professor. Então pronto, não tem professor, não temos escola. A preocupação que eu tenho com esse tema de Joint Chief é menosprezar o tema maior que é realmente a incorporação de várias áreas em defesa e segurança que existem hoje.

Nova bateria litorânea de mísseis Mansup. Unidade foi ativada no dia 14 de outubro, com a adaptação dos sistema Astros para o lançamento do míssil antinavio da Marinha
Nova bateria litorânea de mísseis Mansup. Unidade foi ativada no dia 14 de outubro, com a adaptação dos sistema Astros para o lançamento do míssil antinavio da Marinha

Mas no caso dos EUA, essa organização não se mostrou acertada?

Eu tenho uma preocupação adicional. O Brasil é um País que depende muito do espaço e do mar. Não há mais ameaça a Oeste. Não existe uma guerra com o Paraguai. Minha preocupação primeira é a parte política civil: vamos colocar, então, finalmente, um bridão nas Forças, nesse caso? Segundo, é dentre as forças você deflagrar um processo autofágico para ser esse John Chief, uma disputa pelo cargo. Isso vai simplesmente retroagir o País para uma situação mais ainda inerte que já está. É um problema cultural que nós temos que dar tempo ao tempo.

Mas isso não poderia ajudar, por exemplo, a dar mais racionalidade às compras e investimentos da Defesa, ainda mais agora que as Forças apresentaram um plano de investimento até 2040 de R$ 800 bilhões ao governo?

Eu me preocuparia com o Exército hoje, como é que eu faço para dar mobilidade para o Exército? Porque é um País desse tamanho, é uma Europa, é uma Europa e meia. Vai ter de fazer movimento do Exército e isso é um tema vital. E o Exército não tem com quem falar. Ele fala com o Ministério de Transporte, que não se interessa. Fala com o Ministério de Energia, também não interessa. Só nos Estados Unidos, na Europa, todas as conexões hidroviárias, ferroviárias, rodoviárias contemplam essa possibilidade de movimentação de tropa. Demorou um mês e meio para uma tropa ir de caminhão do Sul, embarcar no navio, no Rio, até Roraima. Isso é defesa e segurança. Não tem como você separar. Outro ponto, além da mobilidade: como é que eu faço para saber entre as prioridades, quais são as áreas realmente vitais? Eu citaria as usinas de energia. A Angra 1 e a 2, por óbvio, Itaipu, Belo Monte, Jirau, Tucuruí, tudo isso aí são áreas críticas. Quais são os acessos que eu tenho a esses locais? Quais são as tropas que eu tenho perto delas? Para que eu mantenho mesmo tropa no Rio de Janeiro? Me explica? Por que a esquadra fica no Rio? Existia no passado aquela história de que tinha de estar perto da capital, coisa de Roma, sabe? Eu estou falando como é que eu faço para, perto desses locais, ter realmente uma força robusta para defende-los? Nós não temos essa capacidade. Nem de mobilidade ou de estar pré-posicionado. Veja o caso de Roraima. E só o Exército foi lá. Eu até cumprimentei o Tomás (Ribeiro de Paiva, comandante do Exército). Você não imagina os perrengues que ele teve. Meu Deus do céu. A Marinha não tem como ficar lá, nem mesmo a Força Aérea. É simplesmente o arco norte nosso de entrada e saída de produtos no Caribe, Atlântico e, depois, para o Pacífico, pelo canal do Panamá. É uma área vital, mas nós não temos tropa lá. Por quê? Falta de dinheiro. É exatamente isso. Essa estruturação política, que eu defendo, um conselho de defesa, que vai pensar na Defesa, não para tomar conta do cara que vai dar golpe – não vai dar golpe. Nós temos que ultrapassar isso. Nós somos presos, de certa maneira, mentalmente, a 1964. Nós estamos discutindo Guevara e aquele maluco lá, o maluco lá da tortura. são mais de 60 anos disso…

O coronel Ustra, o senhor quer dizer?

O que preocupa quando começamos a investir dinheiro é se vai gastar uma fortuna sem nenhum acompanhamento de conteúdo local, da base industrial de defesa. Você já visitou a LAAD (a maior feira de segurança e defesa da América Latina)? Eu acho que aquilo é o maio fator de colocar para baixo a autoestima nas forças armadas. Você chega lá e tem fragatas de 9 mil toneladas, maravilhosas. Tem avião que dá cambalhota, tem blindados de tudo quanto é jeito que você possa imaginar, um troço espetacular que nós não temos, hoje em dia, nem capacitação de recursos humanos para entender aquilo. Muito menos apoio logístico para financiar a quantidade de combate. Eu preferia fazer como nós estamos fazendo: o Gripen aqui no Brasil com uma determinada quantidade de componentes estrangeiros. Vamos fazer aqui as fragatas, quatro, depois faz mais quatro. Vamos fazer o Guarani, mas é meu. É preciso você trazer para perto de si as cadeias logísticas e cortá-las ou, melhor ainda, ter em casa. Quando nós interrompemos a fábrica de fertilizantes do Brasil, a argumentação era que tinha roubalheira. Perfeito. Não prendemos o ladrão e fechamos a fábrica. Hoje não temos fertilizantes. Essa é a tristeza. O fertilizante é vital? Então, meu amigo, o País vai pagar para fazer o fertilizante.

O submarino skorpène Tonelero (S42), da classe Riachuelo, da Marinha; Prosub foi uma das prioridades apresentadas pela Marinha a Lula
O submarino skorpène Tonelero (S42), da classe Riachuelo, da Marinha; Prosub foi uma das prioridades apresentadas pela Marinha a Lula

Mas isso está mudando desde a pandemia de covid-19, não?

Essa ideia de que você podia procurar melhor, uma cadeia produtiva que fosse simplesmente e tão somente por eficiência e preço, não importando aonde ela estivesse ou qual o tamanho dela, foi para o espaço ali, né? A economia não está dissociada da política. A análise de defesa e segurança pauta hoje por uma interação muito grande, pragmática, sobre o tema de segurança entre militares e civis, sobre a liderança muito importante de civis. São os civis que lideram, quem ganha a guerra é a política, não é o militar. O militar é um segmento da estrutura, tem o segmento de Força Armada, tem o segmento de segurança interna. sem a questão da segurança sanitária, da ambiental… isso não existe. Nada. Essa é a interação que eu realmente considero mais importante do que o Joint Chief. É por isso que eu coloco: a liderança política tem de entender o que está fazendo.

 

 

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