Entre águas e orixás, Dique do Tororó ajuda a contar história de Salvador nos 477 anos da cidade
No aniversário de 477 anos da cidade de São Salvador, celebrado neste domingo (29), o BN Hall pediu a bênção dos orixás, esculpidos em 12 monumentos instalados no centro do Dique do Tororó, para contar um pouco sobre a história desse local símbolo para a capital baiana. Situado aos arredores da Casa de Apostas Arena Fonte Nova, o lugar sempre teve uma forte ligação com as águas que escorriam do cume até as baixadas da cidade, tornando-se ideal para práticas relacionadas às religiões de matriz africana, ou seja, um local para se oferecer presentes às águas.
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Para conduzir a conversa, o historiador e professor Rafael Dantas foi convidado para explicar um pouco sobre a história de origem da região, que, nos anos 90, foi agraciada com as figuras das divindades, esculpidas pelo artista soteropolitano Tatti Moreno. “A região recebeu essa linda homenagem do artista Tatti Moreno, onde foram colocados os orixás. Estátuas de 3 metros de altura, em fibra de vidro, retratando os orixás que são tão cultuados aqui em Salvador e no estado da Bahia. Tanto na parte flutuante, no leito da água, como no arredor do Dique, temos as representações dos orixás mais conhecidos no contexto de Salvador e da Bahia. Cultos que atravessam o tempo, que atravessam séculos e que ainda hoje estão presentes nesse lugar tão especial”, explicou Rafael.
Porém, antes das estátuas, o Dique do Tororó foi uma peça fundamental para a construção de Salvador durante o século XVIII, colaborando para o projeto defensivo da capital da Bahia, inicialmente idealizada para ser a capital da América Portuguesa, revelou Rafael durante a entrevista, ao citar a abrangência topográfica do local.
“O Dique do século XVII ou mesmo do contexto do século XVIII permeava toda essa região do Vale dos Barris, essa região do próprio entorno da Fonte Nova, entrava um pouco para Vasco da Gama, ou seja, abraçava a cidade de Salvador, a cidade antiga, o núcleo antigo que está aqui atrás, formando quase que uma barreira natural no projeto também defensivo da então capital da América Portuguesa, a cidade-fortaleza de Salvador, assim estabelecida em 1549. Dique de um lado, os baluartes com os muros na primeira cumeada e a Baía de Todos-os-Santos com o mar na outra extremidade formavam também um núcleo defensivo da cidade de Salvador. O Dique, com o passar do tempo, passou por vários melhoramentos, reformas; os holandeses intervieram nesse processo durante a invasão lá da primeira metade do século XVII e só no decorrer do século XX é que os contornos dessa região começam a mudar”, salientou.
Nos anos 50, a cidade começou a ser valorizada, ganhando um projeto urbanístico, utilizando os vales como espaço de escoamento e ganhando avenidas para via de transporte, que serviram para ligar a população às demais áreas de Salvador. O progresso prosseguiu e, nos anos 60, o Dique finalmente sofreu uma redução de área decorrente dos aterros realizados através do tempo. Até os derradeiros anos 90, quando a paisagem adquiriu o toque paisagístico e urbanístico com a presença dos orixás, que nos presenteiam com o axé da Bahia nas águas de Oxum, na região do Tororó.
Segundo o historiador, a etimologia do nome Tororó também tem ligação direta com as águas, sendo inspirada pela forte ligação natural característica do lugar. “Como foi dito anteriormente, por essa região [existiram] vários cursos d’água, rios ou fontes, por isso [daí vem o nome da] Fonte Nova; estavam presentes ajudando no abastecimento da então cidade. Essas águas sempre foram para essas áreas mais baixas, eram um importante elemento referencial da cidade de Salvador, cidade essa que já foi conhecida também como a cidade das fontes, das águas, etc. As árvores são também um testemunho importante de como a cidade era muito mais verde, a presença das sumaúmas, dos pés de pau-d’arco, os pés de outras tantas madeiras que aqui existiram e que ajudaram também no processo de construção e transformação urbana da cidade de Salvador”, finalizou.
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