29 de agosto de 2025
Politica

Eleição se aproxima sem novo aumento do Bolsa Família no horizonte

Não há indicação, até o momento, de que o valor do Bolsa Família será elevado em 2026, nem mesmo para compensar a inflação. O governo precisa enviar o orçamento do próximo ano ao Congresso até o fim desta semana, e o piso de R$ 600, fixado no governo Bolsonaro e mantido pelo presidente Lula, segue como referência.

O programa passou por profundas mudanças desde a pandemia. O valor mínimo triplicou, chegando aos atuais R$ 600 como parte da estratégia de Bolsonaro para ganhar o apoio de eleitores mais pobres. Ao mesmo tempo, os critérios de distribuição foram flexibilizados, o que levou o programa a mais de 50 milhões de pessoas, ou quase um quarto da população. De 2023 para cá, o programa incorporou complementos para famílias com crianças e gestantes, elevando o benefício médio para cerca de R$ 670.

Com indicadores sociais em recuperação e popularidade relativamente estável, a pressão sobre o governo Lula para concessão de novos aumentos no Bolsa Família perdeu intensidade
Com indicadores sociais em recuperação e popularidade relativamente estável, a pressão sobre o governo Lula para concessão de novos aumentos no Bolsa Família perdeu intensidade

Por que o PT, prestes a entrar em um ano eleitoral, não aumenta o valor do Bolsa Família novamente? Essa era uma aposta forte em grande parte do mercado, e de fato a ideia chegou a ser citada em algumas alas do partido. Isso, porém, é improvável – e se o valor subir, ele terá, no máximo, algum reajuste simbólico. Isso reflete um equilíbrio delicado entre limitações fiscais, condições macroeconômicas mais favoráveis e o cálculo político sobre retornos eleitorais.

O Novo Arcabouço Fiscal, em vigor desde 2023, restringe a expansão de despesas e impõe metas de resultado primário que, embora não sejam suficientes para estabilizar a dívida pública, têm se mostrado desafiadoras para a equipe econômica. Num orçamento pressionado por programas como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que cresce por causa de ações judiciais, abrir espaço para reajustar o Bolsa Família significaria cortar outras rubricas ou arriscar descumprir o regime fiscal.

Há também o argumento de que o contexto social melhorou. A inflação de alimentos vem recuando, com duas leituras negativas consecutivas em junho e julho. Embora a alta acumulada em 2025 ainda seja relevante, a tendência é de contenção. Esse movimento alivia parte da pressão sobre o orçamento das famílias de baixa renda. Em paralelo, o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome da ONU, com menos de 2,5% da população em risco de subnutrição, e o governo tem capitalizado politicamente esse resultado. Com indicadores sociais em recuperação e popularidade relativamente estável, a urgência por novos aumentos perdeu intensidade.

Outro fator é a relação custo-benefício político. Depois de ter consolidado o patamar de R$ 600 como um piso duradouro, qualquer acréscimo marginal tende a produzir pouco retorno eleitoral. Ao contrário, mexer nos valores pode gerar reações adversas: para os beneficiários, um aumento tímido poderia soar insuficiente; para quem não recebe, aumentar o Bolsa Família reforçaria a percepção de gasto excessivo, ou até mesmo injusto.

Esse cenário sugere que, em 2026, o debate eleitoral pode se deslocar do Bolsa Família para outras frentes mais voltadas à classe média, onde o próprio governo já tem investido. Isenção do Imposto de Renda, qualidade do emprego e políticas de crédito devem ganhar destaque no discurso dos candidatos, em contraste com a ênfase na transferência de renda observada em eleições passadas.

Independentemente de quem vencer, abre-se espaço para uma discussão mais estrutural sobre a política social. O desafio não é ampliar valores, mas tornar os programas mais eficazes no combate à pobreza e no desenvolvimento da base da economia de forma sustentável. O objetivo deveria ser, no mínimo, ter mais impacto com o mesmo orçamento.

 

 

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