30 de agosto de 2025
Politica

Certidão de óbito de Zuzu Angel, vítima da ditadura, é retificada pelo governo federal

RIO – A certidão de óbito da estilista Zuzu Angel, morta em um suposto acidente de carro em 1976 durante a ditadura militar, no Rio de Janeiro, foi retificada pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania e entregue aos familiares nesta quinta-feira, 28.

A estilista Zuzu Angel, ao centro, com os filhos Hidegalrd (dir.), Ana Cristina e Stuart
A estilista Zuzu Angel, ao centro, com os filhos Hidegalrd (dir.), Ana Cristina e Stuart

A entrega das certidões foi realizada pelo ministério, por meio da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, e segue nova resolução aprovada em dezembro de 2024 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre mortes de dissidentes políticos durante a ditadura.

Na certidão de óbito de Zuzu, onde se lia apenas “causa mortis: fratura de crâneo (sic) com hemorragia subdural e laceração cortical”, passou a constar “causa mortis: em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”. Essa mesma explicação consta como causa mortis de Stuart, filho dela, no documento que oficializa sua morte.

A entrega foi feita aos familiares de Zuzu, durante cerimônia na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), nesta quinta-feira. A ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Macaé Evaristo, que participou remotamente do evento, afirmou que a medida representa um marco na reparação histórica e no reconhecimento oficial dos crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura.

“A anotação da causa de morte, o assento de óbito de pessoas mortas em decorrência de graves violações de direitos humanos de forma violenta, não natural e causada pelo Estado brasileiro é uma resposta do próprio Estado brasileiro democrático ao Estado brasileiro opressor. É uma resposta que diz que a dignidade humana está acima da barbárie e nós não nos afastaremos da luta por memória. Pois um amanhã mais justo depende do presente, depende da memória, depende das lutas coletivas”, afirmou a ministra.

Quem é Zuzu Angel?

Zuleika Angel Jones foi uma das mais importantes personalidades do mundo da moda brasileira. Nasceu em Minas Gerais, na pequena cidade de Curvelo, no dia 5 de junho de 1921. O trabalho dela como estilista foi reconhecido internacionalmente. Mas ganhou notoriedade por ser mãe do militante político Stuart Angel Jones, assassinado durante o período da repressão militar.

Começou a costurar, criando modelos e fazendo roupas para as primas. Em 1947, decidiu morar no Rio de Janeiro, onde na década de 1950 começou a trabalhar como costureira. Nos anos 1970, após muitos anos de trabalho, abriu uma loja de roupas em Ipanema.

Zuleika Angel Jones foi uma das mais importantes personalidades do mundo da moda brasileira
Zuleika Angel Jones foi uma das mais importantes personalidades do mundo da moda brasileira

Em pouco tempo, teve a oportunidade de expandir seus negócios e logo passou a realizar desfiles de moda nos EUA. Nessa época, conheceu o americano Norman Jones, com quem iniciou um relacionamento. Após alguns anos juntos, voltaram para o Rio de Janeiro e se casaram. No Brasil, Zuzu engravidou de seu primogênito. Em Salvador, Bahia, nasceu Stuart Edgar.

No final dos anos 1960, Stuart Angel Jones passou a integrar o MR8, organização clandestina que combatia a ditadura militar instalada no País desde 1964. Preso no dia 14 de abril de 1971, ele foi torturado e morto pelo serviço de inteligência da Aeronáutica e depois dado como desaparecido pelas autoridades.

A partir daí, Zuzu passou a enfrentar o regime, lutando pelo direito de recuperar o corpo do filho, nunca encontrado. A busca por explicações e pelos culpados só terminou com sua morte, na madrugada do dia 14 de abril de 1976, num acidente de carro, na Estrada da Gávea, à saída do túnel “Dois Irmãos”. Hoje, como homenagem e reconhecimento pela sua luta, o túnel foi batizado com seu nome.

Dias antes do acidente, Zuzu deixara na casa de Chico Buarque de Holanda um documento que deveria ser publicado caso algo lhe acontecesse. Escreveu: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”. Em 1993, sua filha caçula, a jornalista Hildegard Angel, criou o Instituto Zuzu Angel de Moda do Rio de Janeiro, em memória da mãe.

 

 

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