6 de maio de 2026
Politica

Comissão de Ética arquiva consulta tardia sobre conflito de interesses de número 2 do MEC

BRASÍLIA – A Comissão de Ética Pública (CEP) da Presidência da República arquivou o processo em que avaliaria se houve conflito de interesses na nomeação de Leonardo Barchini para secretário-executivo do Ministério da Educação (MEC) após ele exercer o cargo de diretor da Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) no Brasil. O caso nem sequer chegou a ser analisado porque o colegiado entendeu ser situação equivalente a de alguém que vai da iniciativa privada para o governo, o que não configuraria conflito de interesses.

As reuniões da CEP não são públicas e as decisões não são disponibilizadas imediatamente. A reportagem pediu informações sobre o resultado do julgamento, realizado na segunda-feira, 28, diretamente ao presidente do colegiado, Manoel Caetano Ferreira Filho. “O arquivamento se deu porque não pode haver, em tese, conflito de interesses quando o consulente vem da atividade privada para assumir cargo público. Portanto, a CEP nem chegou a analisar a ocorrência de possível conflito de interesses”, disse.

Leonardo Barchini (de gravata azul), em fevereiro, com o atual chefe, o ministro Camilo Santana (gravata dourada), o ex-chefe, o secretário-geral da OEI, Mariano Jabonero (terno cinza), durante reunião em Brasília, em fevereiro
Leonardo Barchini (de gravata azul), em fevereiro, com o atual chefe, o ministro Camilo Santana (gravata dourada), o ex-chefe, o secretário-geral da OEI, Mariano Jabonero (terno cinza), durante reunião em Brasília, em fevereiro

Barchini consultou a CEP em 1º de abril, oito meses após já estar nomeado e trabalhando no MEC. Esta é sua segunda passagem pela pasta na gestão do ministro Camilo Santana. Nesse intervalo, ele deixou o cargo para assumir a direção da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI), uma entidade internacional para a qual o governo faz repasses voluntários e que virou uma espécie de “faz-tudo” da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com contratos firmados para oferta de consultorias, cafezinho e até material didático.

Ao sair do governo para assumir a posição na OEI, Barchini não procurou a Comissão de Ética nem cumpriu qualquer período de quarentena prevista em casos quando o ocupante de cargo público atua no setor fora do governo que é afetado pelas decisões que ele toma.

O Estadão mostrou que ele atuou dos “dois lados do balcão” e é uma peça importante na expansão dos contratos da entidade com ministérios do governo Lula. A OEI recebeu R$ 710 milhões em contratos com a administração pública federal desde 2023.

Barchini não chegou a consultar a CEP sobre o fato de ter deixado o MEC para atuar na OEI. Sua consulta tardia só menciona o fato de ter saído da OEI e sido nomeado para o ministério, quando retornou ao governo.

Após a reportagem pedir ao MEC uma manifestação de Barchini sobre o arquivamento do caso e sobre o porquê de não ter sido realizada uma consulta anterior, o próprio presidente da CEP entrou em contato com jornal para fazer um reparo à informação que havia prestado anteriormente.

“Quando me referi à ausência de conflito de interesses, em tese, quando o consulente vem do privado para o público, o fiz de forma genérica e abstrata”, frisou, antes de prosseguir: “No caso específico, a decisão da CEP não afirma que a OEI tem natureza privada, mas que a OEI possui natureza jurídica de organismo internacional de caráter intergovernamental, dotado de personalidade jurídica própria e autonomia funcional, conforme reconhecido pelos instrumentos de direito internacional que lhe conferem legitimidade.”

O presidente da comissão também disponibilizou a íntegra da decisão. O texto não se refere a “entidade privada”, mas a “organismo internacional de caráter intergovernamental”.

A decisão que arquivou a consulta pontua “ausência de interesse de agir do consulente, uma vez que o caso concreto não se enquadra no preceito legal abstrato que demandaria manifestação da CEP”. Com isso, “a consulta resulta dispensável, não havendo necessidade de submetê-la à análise do colegiado”.

O despacho é da conselheira Marcelise Miranda de Azevedo, nomeada para a função pelo presidente Lula em setembro de 2023. Natural do Maranhão, tem vasta carreira jurídica nas áreas de Direito Administrativo, Constitucional, Previdenciário e Trabalhista. Integra o grupo Prerrogativas, composto por advogados e artistas que se notabilizaram em uma atuação política crítica ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e na defesa de Lula.

Marcelise de Miranda Azevedo, de 49 anos, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Marcelise de Miranda Azevedo, de 49 anos, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Em uma decisão na qual negou a suspensão de contratos do governo com a OEI, em abril, o ministro Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União (TCU), classificou a organização como “entidade privada não integrante da administração pública” e que, nesta condição, “não está sujeita à Lei 14.133/2021 (de licitações)”.

Em resposta ao questionamento sobre não ter feito a consulta à Comissão de Ética ao assumir cargo na OEI, o MEC respondeu que “existem precedentes de servidores da pasta que foram nomeados para a OEI, sem que tenha sido constatado qualquer conflito de interesses pelos órgãos competentes”. Destacou, ainda, que o afastamento de Leonardo Barchini para atuar na OEI foi autorizado da forma adequada, conforme previsto em portaria e lei específica.

“O afastamento permite ao servidor ocupar cargo ou função em organismo internacional do qual o Brasil faça parte ou com o qual coopere. O Brasil é membro fundador da Organização desde 1949, ano de início das atividades”, informou.

O MEC e Barchini sustentam que não há que se falar em conflito de interesses porque não se trata de uma entidade privada, mas de um organismo internacional intergovernamental. A versão minimiza o crescimento dos repasses de verba pública para a OEI. Com os recursos federais, a entidade com sede em Madri faz subcontratações de produtos e serviços sem a obrigação de seguir a Lei de Licitações.

A OEI, por meio de Barchini, fez uma aproximação política com a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja. No começo deste governo, a entidade chegou a oferecer um cargo para elas, mas as tratativas não foram adiante. Além disso, dois decretos do presidente Lula permitiram o aumento da arrecadação e da presença da entidade na Esplanada. Um deles ampliou a taxa de administração cobrada pela entidade em contratos públicos de 5% para até 10%.

Barchini trabalhou com Haddad e Paulo Teixeira

Ligado ao governo desde a transição, em 2022, Barchini é servidor de carreira da Educação e considerado uma referência na área. Além da capacidade técnica, tem histórico de ligação com figuras influentes do Partido dos Trabalhadores. É próximo do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, há mais de 20 anos. Na gestão Haddad na Prefeitura de São Paulo, foi chefe de gabinete e secretário de Relações Internacionais e Federativas, a partir de 2013. No período de Haddad como chefe do MEC, atuou como chefe da Assessoria Internacional, como chefe de gabinete do ministro e como diretor de Programas. Em 2017 e 2018, trabalhou no gabinete do deputado Paulo Teixeira (PT-SP), hoje ministro do Desenvolvimento Agrário.

Um raio-x da presença da OEI mostra relações com 19 órgãos e ministérios e um aumento significativo de pagamentos e contribuições, na comparação com outros governos. Só com taxas de administração, alargadas por decreto presidencial, a organização deve arrecadar cerca de R$ 42 milhões.

O maior valor, de R$ 478 milhões, diz respeito a um contrato firmado com a Secretaria Extraordinária da COP-30, subordinada à Casa Civil, para preparar a conferência climática que ocorrerá em Belém (PA), em novembro. Deste montante, 5% serão recebidos a título de “taxa de administração”, o equivalente a R$ 22,7 milhões.

Membro do grupo de trabalho da Educação no governo de transição em 2022, Barchini foi nomeado adjunto da secretaria-executiva do MEC logo nos primeiros dias da gestão, em janeiro de 2023.

Em setembro de 2023, oito meses depois da nomeação para o MEC, Barchini foi exonerado e imediatamente anunciado como chefe da OEI no Brasil. Em julho do ano passado, ele foi novamente nomeado como secretário-executivo do MEC.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *