Brasil não consegue ser mediador na crise da Venezuela, diz pesquisadora da USP
A professora Marsílea Gombata, que leciona Relações Internacionais na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), afirmou neste sábado, 3, que o governo brasileiro não consegue ser um mediador na crise da Venezuela, que foi atacada e teve o ditador Nicolás Maduro capturado pelos Estados Unidos. Gombata disse que o Brasil deve se limitar a condenar os ataques sem fechar o canal de diálogo com os EUA, o que o presidente Lula (PT) fez mais cedo.
“Acredito que a etapa de o governo brasileiro ser mediador já passou. Os EUA retiraram à força o presidente da Venezuela. O que o governo brasileiro pode fazer é condenar de maneira estratégica os ataques sem fechar os canais de diálogo com o governo americano. Em outros tempos poderia liderar uma posição conjunta na região, mas esse cenário parece distante hoje”, afirmou a professora, que também é pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (NUPRI) da Universidade de São Paulo (USP).
Gombata disse que ainda não há clareza sobre quem assumirá o poder na Venezuela após a captura de Maduro. Formalmente, o papel cabe à vice-presidente, Delcy Rodríguez, o que não deve satisfazer a Casa Branca, segundo a professora.
“Não vai ser um processo tranquilo”, disse, acrescentando que Maduro “claramente” não deveria estar mais no poder, mas essa decisão cabe aos venezuelanos.
“Quem assume é a vice, Delcy Rodríguez, mas acho muito difícil que essa seja a solução definitiva que vai satisfazer o governo americano. Imagino que pode haver algum esforço para tentar trazer de volta para o país e levar ao governo o Edmundo González (opositor de Maduro que foi reconhecido presidente pelos EUA), que está na Espanha, e a María Corina Machado, que há poucos dias deixou o país para receber o Nobel da Paz na Noruega. Mas não vai ser um processo tranquilo. As próximas semanas serão bem tensas na Venezuela”.
Leia os principais trechos da entrevista
Quem assumirá no lugar de Maduro?
Quem assume é a vice, Delcy Rodríguez, mas acho muito difícil que essa seja a solução definitiva que vai satisfazer o governo americano. Imagino que pode haver algum esforço para tentar trazer de volta para o país e levar ao governo o Edmundo González (opositor de Maduro, que foi reconhecido presidente pelos EUA), que está na Espanha, e a María Corina Machado, que há poucos dias deixou o país para receber o Nobel da Paz na Noruega. Mas não vai ser um processo tranquilo. As próximas semanas serão bem tensas na Venezuela
O que é motivo de preocupação para o Brasil?
Com certeza o ataque como um todo é motivo de preocupação para o Brasil. Um ataque a um país vizinho não interessa ao Brasil, que pode vir a sofrer consequências de uma piora da situação econômica e política no País. A questão é como o governo brasileiro vai se posicionar.
O governo brasileiro pode se colocar como intermediador de alguma forma na crise?
Acredito que essa etapa de o governo brasileiro ser mediador já passou. Os EUA retiraram à força o presidente do país. O que o governo brasileiro pode fazer é condenar de maneira estratégica os ataques sem fechar os canais de diálogo com o governo americano. Em outros tempos poderia liderar uma posição conjunta na região, mas esse cenário parece distante hoje.
Há motivo para temer a situação nas fronteiras?
Não diria temer, mas com certeza as fronteiras ficarão muito mais movimentadas, com venezuelanos tentando deixar o país pelo Brasil e pela Colômbia. Teremos mais venezuelanos desesperados tentando deixar o país.
Há sustentação legal para Maduro ser julgado nos EUA?
Maduro é acusado de crimes nos EUA. Mas acho que uma questão maior permeia esse ponto: até que ponto os EUA têm o direito de decidir quem será o presidente de um país? Maduro claramente não deveria estar mais no poder. Mas quem tem de decidir isso e como mudar isso são os venezuelanos.
