26 de fevereiro de 2026
Politica

Ruínas & emoções

As Academias de Letras são instituições habitadas, prioritariamente, por idosos. Compreende-se. A condição de “imortal” é reservada a quem já possui um currículo definido. É o coroamento de uma carreira cultural, não um degrau apenas em uma jornada. E como são Casas em que os mais experientes conseguem ser ouvidos, manifestar suas opiniões para confrades atentos, isso contribui para a sua saúde física e mental. É um espaço em que a longevidade costuma reinar.

Nada obstante, os sinais do cansaço e da aproximação do termo final da caminhada são visíveis. Quem observou com acuidade esse processo foi Humberto de Campos, em seu implacável “Diário Secreto”.

Ele rememora, por exemplo, uma sessão realizada na quinta-feira, 28 de janeiro de 1932. “Felix Pacheco inicia, de cor, um longo discurso sobre José do Patrocínio. Ao fim de quinze minutos, porém, é traído pela memória, serviçal até esse momento. E arranca de sob alguns livros meia centena de páginas escritas a mão, transformando, daí em diante, a oração em leitura”. Ele não faz observação alguma. Porém, quem conhece a sua ironia, o seu sarcasmo, traduz a mensagem: foi cansativa, para quem teve de ouvir, aquela leitura prolongada.

Em seguida, fala Coelho Neto: “O grande orador da Academia apresenta, porém, já, as consequências lamentáveis da idade. Começa a falar pausadamente, como quem já está fatigado desde o início. Tenta levantar a voz, e imprimir-lhe a escala dos antigos tempos, mas a garganta protesta, e uma tosse impertinente lhe estrangula e afoga a palavra. Os olhos, faiscantes ainda, enchem-se-lhe d’água. E Coelho Neto procura reagir contra a mais poderosa lei da vida, que é a da destruição, na velhice, do que fora o instrumento de vitória na mocidade”.

O que vem a seguir é a recordação do fim da vida de José do Patrocínio, o apóstolo negro, enfermo e a caminho da morte na sua mansarda suburbana.

Na noite de 13 de maio de 1888, dia da Abolição pela qual tanto lutara, José Patrocínio discursara o dia inteiro e chegara à redação da “Cidade do Rio” extenuado. Atira-se, afônico e semimorto de cansaço, em um sofá muito gasto, do seu pobre gabinete de trabalho. Amigos e companheiros cercavam-no e recomendavam imediato e imprescindível repouso. Impuseram uma ordem: o gigante negro não receberia mais ninguém, não atenderia a mais ninguém. Todas as precauções foram tomadas para que essa determinação fosse observada.

Nisso, um dos redatores entrou na sala da direção do jornal e comunicou:

– “Está aí em baixo o Dr. Benjamim Constant, em companhia dos cegos do Instituto…”

Todos se entreolharam e a homenagem era tão comovente, que ninguém teve coragem de propor uma recusa à audiência.

– “Pede-lhes que subam…” – sussurrou Patrocínio, fazendo-se entender mais pelo gesto do que pela palavra.

Um momento depois, alinhavam-se no gabinete dez ou doze cegos, que se puseram em fila, quase que pisando-se, aflitivamente, uns aos outros. Tomando a dianteira, Benjamim Constant disse, com evidente emoção:

– “Patrocínio, os meus alunos, os cegos do Instituto, pediram-me que os trouxesse aqui para “ver-te”… Emprego de propósito esse verbo, Patrocínio, e repito-o: meus cegos vieram te “ver”!…

O grande abolicionista abriu a boca para falar. Era um orador eloquente, hábil no manejo das palavras. Quem o ouvia ficava seduzido pela argúcia, pela riqueza de imagens, pela beleza das metáforas e pela elegante construção da fala. Mas desta vez foi diferente. A barba tremeu-lhe, hirsuta, mas nenhum som lhe saiu dos lábios. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. E desatando em soluços, mas sem proferir uma palavra, atirou-se, com o rosto mudo lavado de pranto, nos braços de Benjamim Constant.

Cena assombrosa. Todos, em torno, tinham os olhos úmidos. Os cegos, em fila, quietos, pareciam interrogar o silêncio circundante. Depois de alguns minutos, o futuro proclamador da República volta-se para eles e diz, enxugando os olhos:

– “Meus filhos: acabais de ouvir o mais belo discurso que se pronunciou no mundo. Fostes testemunhas de uma cena que só o coração pode compreender… Vamos!”

E desceu as escadas, à frente de seu rebanho sem olhos.

 

 

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