12 de janeiro de 2026
Politica

Venezuela, imperialismo e o risco das leituras curtas

Os povos originários da América Latina, assim como os povos africanos escravizados, têm sido vítimas de um longo processo histórico de exploração, negação de existência e extermínio desde o final do século XV, ao se consolidar o imperialismo europeu. A ocupação violenta de territórios, a apropriação de riquezas naturais e a destruição de culturas inteiras foram elementos estruturantes da formação do sistema capitalista moderno.

Nesse processo, povos e recursos foram convertidos em instrumentos de uma lógica que subordina a vida humana ao acúmulo de capitais. O ser humano passa a ocupar um lugar secundário em uma engrenagem econômica que prioriza a expansão e a concentração de riqueza, frequentemente à custa da soberania dos povos e da dignidade social.

Essa cultura imperial europeia serviu de referência para os Estados Unidos, que, já no final do século XIX, passaram a afirmar sua própria vertente imperialista. A expansão territorial além de suas fronteiras, no extremo norte do continente americano, no Pacífico e no mar do Caribe, bem como a anexação de vastas áreas originalmente mexicanas por meio de guerras, expressa essa lógica. Soma-se a isso o extermínio sistemático dos povos originários durante a chamada “conquista do Oeste”, frequentemente tratada de forma romantizada na historiografia tradicional.

Após a Segunda Guerra Mundial, em um contexto de reorganização geopolítica global e busca por matrizes energéticas, em especial combustíveis fósseis, os Estados Unidos assumiram o papel de “xerifes” do mundo. A partir daí, intervenções militares diretas e indiretas passaram a ser justificadas por argumentos que, muitas vezes, jamais se sustentaram nos fatos. O caso do Iraque é emblemático: a invasão foi baseada na alegação da existência de armas químicas que nunca foram encontradas.

É nesse mesmo registro que se insere a atual ofensiva contra a Venezuela. Sob o pretexto do combate ao narcotráfico, o presidente do país é sequestrado e levado a um tribunal cuja isenção é, no mínimo, questionável. Não se trata de coincidência que a Venezuela figure entre os cinco países com maiores reservas de petróleo do mundo, assim como ocorria com o Iraque no início dos anos 2000.

É sabido que Nicolás Maduro jamais conseguiu comprovar de forma inequívoca a lisura de sua eleição. Ainda assim, não cabe a potências estrangeiras definir o destino político de um país soberano. A retirada ou a manutenção de qualquer dirigente pertence exclusivamente ao povo venezuelano, e não a tribunais internacionais seletivos ou a interesses econômicos travestidos de moralidade política.

A Federação dos Professores do Estado de São Paulo (Fepesp) se posiciona claramente contra qualquer prática de caráter imperialista, venha ela sob a forma de intervenção direta, sanções econômicas ou imposição indireta de agendas políticas. A história demonstra que essas ações raramente produzem estabilidade, democracia ou melhoria das condições de vida. Ao contrário, costumam aprofundar desigualdades, comprometer direitos sociais e penalizar os trabalhadores, que acabam pagando o custo mais alto de disputas que não controlam.

Para o Brasil e para a América Latina, insistir em leituras simplificadas representa um risco adicional. Abandonar princípios como soberania, autodeterminação dos povos e solução pacífica de conflitos enfraquece a capacidade da região de construir respostas próprias aos seus desafios. Mais do que aderir a narrativas prontas, é fundamental compreender os interesses em jogo e preservar espaços de diálogo e cooperação regional.

O debate sobre a Venezuela exige maturidade histórica e responsabilidade política. Reduzi-lo a slogans, alinhamentos automáticos ou julgamentos morais empobrece a análise e dificulta a construção de saídas que respeitem os direitos sociais e a dignidade dos povos envolvidos.

Como educadores e representantes de trabalhadores da educação, entendemos que pensar criticamente o mundo é parte essencial do nosso papel social. Defender a soberania, rejeitar o imperialismo e valorizar o diálogo não é uma posição ideológica circunstancial, mas uma lição histórica reiterada ao longo do tempo.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *