12 de janeiro de 2026
Politica

Relator do caso Master no TCU fica quase 3 anos filiado a partido do Centrão mesmo atuando na Corte

BRASÍLIA – O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus ficou quase três anos filiado ao Republicanos, partido do Centrão, mesmo atuando na Corte, o que é vedado pela Constituição e pelo regimento interno do TCU, e não seguiu todo o rito exigido pela legislação ao se desligar da legenda. Ele é relator do processo que questiona a atuação do Banco Central na liquidação do Banco Master.

Ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da Uniao.
Ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da Uniao.

O TCU e o diretório do Republicanos em Roraima afirmaram à reportagem que o ministro não está filiado ao partido, encaminhando um documento que registra o pedido de desfiliação em março de 2023, antes de ele tomar posse na Corte de Contas. A legenda alegou ainda que Jesus não exerce nenhuma atividade político-partidária na sigla. Jhonatan de Jesus não comentou.

Documentos mostram que o ministro pediu desfiliação do partido antes de tomar posse no TCU, em março de 2023, mas não comunicou a saída para a Justiça Eleitoral, não completando todo o rito exigido pela legislação. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exige que as duas coisas ocorram para oficializar a desfiliação. A desfiliação só foi comunicada à Justiça Eleitoral nesta quinta-feira, 8, após o Estadão procurar o ministro e solicitar esclarecimentos.

A Certidão de Filiação Partidária emitida pela Justiça Eleitoral na quarta-feira, 7, atestava que Jhonatan de Jesus estava filiado ao Republicanos desde 2009. O documento informava ainda que a desfiliação estava pendente de comunicação à Justiça Eleitoral.

Certidão de Filiação Partidária emitida no dia 7 de janeiro de 2026, atestando que Jhonatan de Jesus estava filiado ao Republicanos e com desfiliação pendente de comunicação à Justiça Eleitoral.
Certidão de Filiação Partidária emitida no dia 7 de janeiro de 2026, atestando que Jhonatan de Jesus estava filiado ao Republicanos e com desfiliação pendente de comunicação à Justiça Eleitoral.

O TCU afirmou que o ministro não está filiado ao Republicanos e enviou um registro do Sistema de Filiação Partidária (Filia) atestando que a desfiliação ocorreu no dia 7 de março de 2023. A legenda encaminhou o mesmo registro, mas, na Certidão de Filiação Partidária da Justiça Eleitoral, o ministro continuava filiado ao Republicanos.

A reportagem procurou então o TSE. A Corte afirmou que o procedimento de desfiliação deve obedecer o seguinte rito, de acordo com a legislação: o filiado faz comunicação escrita ao órgão de direção municipal e ao juiz eleitoral da zona em que for inscrito.

O Sistema de Filiação Partidária (Filia), enviado pelo TCU e pelo Republicanos, registra o pedido feito ao partido e a Certidão de Filiação Partidária é emitida após a comunicação feita ao juiz eleitoral do domicílio do eleitor. O TSE não informou objetivamente a situação de Jhonatan por causa da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).

Sistema de Filiação Partidária, registrando que pedido de desfiliação de Jhonatan de Jesus foi feito ao partido político em março de 2023.
Sistema de Filiação Partidária, registrando que pedido de desfiliação de Jhonatan de Jesus foi feito ao partido político em março de 2023.

O partido argumentou que Jhonatan foi aprovado no Senado para o TCU no dia 8 de fevereiro, foi desfiliado do partido no dia 7 de março e tomou posse no TCU no dia 15 de março de 2023. “O ministro não exerce nenhuma atividade político-partidária na legenda, não participa de instâncias partidárias e não ocupa função partidária”, afirmou o Republicanos à reportagem.

No fim da tarde desta quinta, o Republicanos encaminhou uma nova Certidão de Filiação Partidária da Justiça Eleitoral, emitida nesta quinta-feira, 8, atestando que o ministro não estava na legenda. O Estadão constatou que a desfiliação foi oficializada somente nesta quinta, quase três anos depois da posse de Jhonatan de Jesus no TCU.

Certidão de Filiação Partidária da Justiça Eleitoral mostra que Jhonatan de Jesus foi desfiliado do Republicanos no dia 8 de janeiro de 2026, quase três anos após tomar posse no TCU.
Certidão de Filiação Partidária da Justiça Eleitoral mostra que Jhonatan de Jesus foi desfiliado do Republicanos no dia 8 de janeiro de 2026, quase três anos após tomar posse no TCU.

O partido negou que o procedimento tenha sido adotado apenas agora. O Republicanos insistiu que a desfiliação ocorreu “a pedido do eleitor” no dia 7 de março de 2023 com base no registro oficial no Sistema de Filiação Partidária (Filia/TSE) e que essa é a data do ato. “O que ocorreu agora foi apenas a solicitação jornalística e o envio de comprovantes/extrações. E, de todo modo, o ministro Jhonatan de Jesus não tomaria posse no TCU se não estivesse regularmente ‘não filiado’ à época”, disse a legenda.

Ministros do TCU não podem ser filiados a partidos políticos

A Constituição equipara os ministros do TCU aos juízes quando estipula os deveres e direitos. Nesse caso, eles são proibidos de exercer qualquer atividade político-partidária. O regimento interno do TCU repete a mesma proibição. Conforme o Estadão mostrou, Jhonatan de Jesus dedicou metade de sua agenda a políticos do Centrão e lideranças de Roraima, seu reduto eleitoral.

O ministro entrou no TCU em 2023 pelas mãos do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) após quatro eleições para deputado federal. Jhonatan de Jesus virou relator do processo que questiona a liquidação do Banco Master feita pelo Banco Central. Ele chegou a determinar uma inspeção no BC para avaliar a liquidação com a “máxima urgência”, e recuou depois sob forte pressão.

A atuação do ministro levantou questionamentos sobre os limites do TCU no caso. O Master e o dono do banco liquidado, Daniel Vorcaro, são investigados por fraudes no sistema financeiro. O banqueiro possui relações políticas em Brasília e chegou a ser preso.

Em agosto do ano passado, o Estadão revelou que o deputado federal Gabriel Mota (Republicanos-RR) empregou a mulher do ministro, Thallys de Jesus, como funcionara fantasma no gabinete da Câmara. Ela foi exonerada após a reportagem procurar o ministro para falar sobre a nomeação.

 

 

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