12 de janeiro de 2026
Politica

Se Bolsonaro fosse bem-sucedido no golpe, aceitaríamos intervenção externa?

Na filosofia, existe uma expressão denominada “experimento de pensamento”. Trata-se da criação de cenários, em geral hipotéticos, com a função, entre outras, de testar teorias ou confrontar convicções. Num momento em que há protestos em todo o mundo e no Brasil contra a ação hostil dos americanos na Venezuela, que sequestrou o ditador Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores, podemos propor, num tal experimento: se o ex-presidente Jair Bolsonaro fosse bem-sucedido na tentativa de golpe de Estado que o levou a ser preso, seria justificável algum tipo de ação externa para “libertar o país”, ou deveria prevalecer a “soberania” da nação?

O “experimento de pensamento” tem como objetivo examinar se nossas posições sobre o que ocorre na Venezuela se dão por questões conjunturais – seja antiamericanismo, ou simpatia pelo chavismo – ou por questões de princípios.
O “experimento de pensamento” tem como objetivo examinar se nossas posições sobre o que ocorre na Venezuela se dão por questões conjunturais – seja antiamericanismo, ou simpatia pelo chavismo – ou por questões de princípios.

Podemos colocar mais camadas no cenário. Com o golpe, o Brasil entraria na mal afamada lista mundial de ditaduras. Haveria perseguição política de opositores e muitos dos que hoje estão nas ruas e nas redes a condenar a ação do presidente Donald Trump na América do Sul poderiam estar presos. A imprensa estaria explicitamente censurada. A intervenção no Supremo Tribunal Federal seria um dos primeiros atos do novo governo, com a substituição de ministros, a começar por Alexandre de Moraes.

Não é difícil imaginar como seriam os ministérios no governo de Jair Bolsonaro. A chancelaria ficaria a cargo de seu filho 03, Eduardo Bolsonaro. O general Heleno de Freitas assumiria a pasta da Defesa e os militares da vanguarda do golpe, os comandos da Marinha, Exército e Aeronáutica. Como bom saudosista do regime instaurado no Brasil em 1964, Jair Bolsonaro poderia manter o Congresso funcionando, mas extirpando os parlamentares mais à esquerda, do PT e PSOL, por exemplo. O chamado centrão poderia até ter ministérios nesse novo regime, o que poderia garantir uma longevidade de mais de uma década do governo autoritário.

O que poderiam fazer países da Europa, Rússia, China e mesmo os EUA nesse cenário? A indignação se limitaria a notas de repúdio? Mesmo se esse Bolsonaro vencedor passasse a reprimir com violência protestos de rua – com mortes violentas e expurgos – nada seria feito em nome do “direito internacional”. Afinal, os EUA, como integrante do Conselho de Segurança da ONU e aliado de Bolsonaro, vetariam qualquer proposta de ação efetiva na América do Sul. Cogitariam bloqueios comerciais, mas as commodities do Brasil – produtos do agro e minério de ferro – não podem ser dispensadas pelo resto do mundo e a ideia seria arquivada.

O presidente legitimamente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, teria de se exilar na Europa, já que praticamente todos os países da América do Sul estariam sob o jugo da direita, seja de maneira democrática, como na Argentina, ou indiretamente, como na Venezuela. Lula iria até os fóruns internacionais clamar por alguma interferência de órgãos internacionais no seu país natal e receberia negativas constrangidas devido à “autodeterminação dos povos” ou por “abrir precedentes perigosos”. Influenciadores de direita fariam coro a esses riscos.

Todo esse “experimento de pensamento” tem como objetivo examinar se as nossas posições sobre o que ocorre na Venezuela se dão por questões conjunturais – seja antiamericanismo, ou simpatia pelo chavismo – ou por questões de princípios. Se for por princípios, é preciso levar em conta que o que vale por lá teria de valer para aqui também. Mas talvez o experimento mostre que as questões internacionais são muito mais intrincadas do que os slogans gritados nas ruas e nas redes – não há soluções simples. Lembremos, entretanto, que a tentativa de golpe de Jair Bolsonaro não foi bem-sucedida, talvez por pouco.

 

 

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