12 de janeiro de 2026
Politica

Um veto histórico

As mulheres conquistaram o que é de direito. Plena igualdade com os homens. Mas foi uma árdua luta. Um território inexpugnado, que lhes trancava as portas, era o das Academias de Letras.

O caso mais célebre é o de Amélia de Freitas Bevilacqua, esposa do grande jurisconsulto Clóvis Bevilacqua.

Na descrição de Humberto de Campos, “baixa e grossa, vestida sempre de preto, o seu corpo recorda um saco de 1,40 m, cheio de cocos da Bahia – tantos são os nós, caroços e saliências que surgem de todos os lados. Cabelos pintados de azeviche, estes lhe escorregam, em fios soltos, pelo pescoço, pela cara, pelas costas, escapando-se de um chapéu de palha preta que mais parece um paneiro velho pousado em cima do saco”.

Cruel, não é? Mas não é tudo: “Entre o chapéu e os ombros tortos, uma cara morena, olhos negros e estúpidos de gente surda, espantam com um sorriso alarmante a pessoa que se aproxima. Acompanha o fantasma outro menos velho, com tufos enormes de cabelos saindo de outro chapéu velho. É uma das filhas do casal, que se esganiça ao ouvido materno quando alguém se dirige à sua pessoa”.

Quando vê Humberto de Campos, Amélia Bevilacqua começa a falar. E não para. Embora o interlocutor queira dizer algo, ela não deixa. Ela não ouve nada, e se lhe é dita uma palavra, ela ignora. Passa adiante.

Humberto deixa que ela fale. Tolice pretender dialogar.

E Amélia continua:

-“Eu vou publicar um livro – grita, como se o surdo fosse Humberto. E vou mandar-lhe um exemplar. Com certeza não leu a tradução que lhe mandei de Jean de Robert…É um escritor francês muito interessante. O senhor há de ficar espantado como é que eu escrevo. O Mestre Clóvis acorda muito cedo. Escreve desde as seis até às nove e meia. Eu só me sento à mesa às oito, depois do café. Escrevo uma hora, se tanto. E isso mesmo com a filhinha menor, que está com cinco anos, a me puxar pela roupa, chamando por mim. Às nove e meia saímos. Almoçamos na Brahma e vamos nos sentar num jardim público. Jantamos e voltamos para casa. Isso é todo o dia. Quando chove vamos ao cinema…”

Humberto continua escutando e sem condições de falar qualquer coisa. Ela disparou e não fecha a boca. Uma torrente de fala, sem interrupção até para pensar o que vai dizer.

– “Assim mesmo, eu traduzi Jean de Robert. Achei que era uma alma muito parecida com a minha. Mandei a tradução a ele e ele mandou cobrar os direitos autorais. O Mestre Clóvis mandou o dinheiro e ele me escreveu, perguntando porque eu não vou à Europa. Ele mandou me dizer que, quando eu for, avise com antecedência que ele vai me receber a bordo para me mostrar os encantos de Paris. Ele mora na província, mas vai para Paris me esperar…”

Pois Amélia de Bevilacqua se inscreveu para ingressar na Academia e sua inscrição não foi aceita. Por esse motivo, Clóvis Bevilacqua nunca mais compareceu a uma reunião da ABL. Mas continuou acadêmico, pois é isso o que ocorre nas Academias que podem usar esse nome: a titularidade é vitalícia. Não faz sentido a sucessão de pessoas vivas.

Sobre o casal, Humberto de Campos não economiza espaço no seu “Diário Secreto”. Diz que ao passar pela rua Uruguai, 572, sua mulher comentou: – “Olha que pena! Uma casa tão bonita e abandonada!”. O aspecto de abandono e de desmazelo era impressionante. Capim da altura de uma pessoa, no lugar de canteiros.

Era assim que viviam o casal e seus filhos. Freitas Bastos, parente de Clóvis Bevilacqua, acrescenta: – “A casa do Clóvis possui um vasto quintal e tem uma infinidade de galinhas, que se vão multiplicando, porque na casa dele não se mata bicho nenhum. Apenas consomem os ovos. Galinha na casa dele morre de velha. E só não tomam já o quintal todo, porque, quando tem muitas, os ladrões vão lá e levam uma porção. E ele não se aflige com o furto: aflige-se apenas com a ideia de que eles as furtaram para matar. São muito generosos. Uma faxineira furtou todas as joias de Amelia e eles sequer deram queixa à polícia. Acharam que, se ela roubou, é porque precisava”. Por isso, de Clóvis se dizia, como se disse de Ernest Renan: – “É um santo que não crê em Deus…”.

 

 

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