Como você sabe que está vivendo?
Quando foi a última vez que uma sensação atravessou você sem pressa, sem mediação, sem a necessidade imediata de responder ou resolver algo? Não reagir, não se distrair, não cumprir tarefas, mas sentir com clareza a própria existência.
Habitamos uma sociedade orientada para o funcionamento, com uma coletividade voltada a produzir, decidir e organizar rotinas para que haja o movimento contínuo. Esse arranjo sustenta sistemas e resultados, mas cobra um preço pouco sugestivo. Aos poucos, o vínculo com a experiência interna se enfraquece e passa a ser interpretado como obstáculo, como algo que interrompe o ritmo, expõe fragilidades ou compromete a ordem. Nesse cenário, emoções e percepções corporais são empurradas para o silêncio.
O efeito não se expressa apenas como sofrimento psíquico. Há um processo mais discreto e, por isso mesmo, mais difícil de reconhecer, que é conhecida como anestesia emocional. Pessoas seguem funcionando, mas sem acesso ao que se passa dentro delas e respondem mais do que escolhem. Permanecem ativas, porém afastadas da própria vivência.
Essa dinâmica é reforçada por uma cultura que fragmenta a atenção com a exposição constante a estímulos. Telas, informações e demandas competem pelo foco e reduzem o espaço de percepção interna. Nesse estado, aquilo que ocorre no campo emocional deixa de ser sentido e as emoções não desaparecem. Elas continuam operando, mas fora da consciência, orientando escolhas e condutas de modo automático.
Bloquear o processo de sentir não produz maior racionalidade, sua intenção é reduzir o desconforto da realidade. Assim, decisões tendem a seguir padrões antigos e respostas condicionadas. O ato de funcionar ocupa o lugar do ato de viver.
A consequência de tentar evitar estados internos desconfortáveis é abrir mão também de experiências ligadas à alegria, ao interesse e ao encantamento. A anestesia não separa emoções, ela apenas reduz o conjunto e o cotidiano perde contraste e significado.
Sob a perspectiva biológica, sentir não é um excesso, nem um privilégio, é parte do funcionamento natural da vida. Emoções e sensações participam dos sistemas que regulam o organismo, orientam decisões e favorecem a adaptação ao ambiente. Quando esse circuito é ignorado, se enfraquece a capacidade de sustentar estados como tristeza, medo ou raiva. Em lugar de integração, surgem reações impulsivas, esquivas e buscas por distração.
Os efeitos desse afastamento se expressam na esfera individual, assim como em toda uma coletividade desconectada de sua própria experiência, que tende à polarização, à dificuldade de empatia e à redução do diálogo. Vínculos se tornam rasos e as escolhas coletivas se afastam das consequências humanas que produzem. A desconexão interna se projeta na maneira como nos relacionamos entre nós e com o mundo ao redor.
Recuperar a capacidade de sentir restaura também a presença. Esse estado psíquico devolve a possibilidade de escolha, que sustenta decisões mais conscientes, relações mais consistentes e uma existência menos automática.
Talvez uma das perguntas centrais do nosso tempo não seja apenas como ampliar produtividade ou controlar estados emocionais, mas como sair da anestesia que passou a ser aceita como normal. A vida não se resume ao funcionamento, ela se realiza quando pode ser sentida. Então termino com o convite a reflexão: deixando a racionalidade e as palavras de lado por um momento, como você sabe que está vivendo?
