14 de janeiro de 2026
Politica

Território poluído

Desde a República, multiplicam-se os casos em que parlamentares dão péssimo exemplo à sociedade. E pensar que Montesquieu, a elaborar a teoria da separação das funções, entendia que o Legislativo teria primazia? Sim, pois é a função que dispõe sobre as regras do jogo. No Estado de Direito, ao Executivo incumbe administrar, que é cumprir a lei. Ao Judiciário fazer incidir a vontade concreta da lei às controvérsias. Mas o eixo é a lei e a lei é a matéria-prima com que trabalha o Parlamento.

Dentre os relatos que se acumulam na História republicana, encontra-se aquele que envolve Gilberto Amado, um Senador sergipano que ficou na História. Gilberto de Lima Azevedo Sousa Ferreira Amado de Faria, este seu nome completo, nasceu em 1887, em Estância, no Sergipe. Faleceu em 1969, no Rio de Janeiro. Advogado, diplomata, jurisconsulto, escritor, jornalista e político. Mas, além de tudo, homicida.

Sim. No dia 19 de junho de 1915, no Rio de Janeiro, no final da cerimônia de inauguração da Sociedade Brasileira dos Homens de Letras (criada por Olavo Bilac) os conferencistas Gilberto Amado e o poeta Anibal Teófilo (1873-1915), autor do livro Rimas (1911), se desentenderam por causa das críticas jornalísticas de Gilberto a amigos escritores de Aníbal. Gilberto sacou um revólver e matou o poeta em plena cerimônia.O julgamento do júri foi presidido pelo juiz Manuel da Costa Ribeiro, que também presidiu o júri que julgou Dilermando de Assis, que matara Euclides da Cunha. Gilberto foi absolvido na justiça, mas jamais o foi pela opinião pública, enquanto durou a memória do acontecido.

Numa sessão da Câmara em 15.9.1930, Álvaro de Carvalho, deputado paulista, ataca o abastardamento da política republicana, o aproveitamento de indivíduos sem caráter e sem moral para altas funções públicas, unicamente por serem bajuladores e audaciosos. E personaliza:

– “Não é esse o caso de Gilberto Amado, que chegou a Senador e só não chegou a Ministro porque Deus vela por este país?”.

E acrescenta:

– “Gilberto é a criatura mais privada de senso moral que eu conheço. Vocês sabem o que Vilaboim fez por ele, quando ele matou Aníbal Teófilo?”

E conta que Vilaboim o defendeu sem receber um tostão. Diante da eloquência e bem-sucedida estratégia advocatícia, ele logrou ser absolvido. Pois o réu fala horrores do seu advogado e não faz questão de esconder o que pensa dele, o que é incompatível com o enorme favor recebido.

Nisso o deputado Simões Filho conta dois casos que lhe foram referidos pelo colega Leandro Maciel. Este era candidato ao governo de Sergipe e fora convidado por Gilberto para uma conferência em que pretendia obter dele, Leandro, a renúncia a essa candidatura. Foram juntos de carro até o Restaurante do Chuá, na Gávea. Durante o caminho, Gilberto foi se exaltando e, ao chegar ao destino, Gilberto chama o gerente do estabelecimento e lhe entrega um revólver, dizendo:

– “Por favor, guarde-me isto, senão eu cometo hoje outro crime!”

Terminado o jantar, apanhou a arma e, na viagem de volta, ameaçava Leandro Maciel seguidas vezes:

– “Não me faça assassino de novo, “seu” Leandro!”

Ao argumento de se desculpar, Gilberto convida Leandro Maciel para jantar em sua casa. Tranca-se com ele numa sala, puxa o revólver. Mas Leandro também estava armado. Tudo acabou numa gritaria, mas sem tiros.

Já o deputado Gracho Cardoso acrescenta detalhes sobre essa sucessão presidencial no Sergipe.

– “O Gilberto havia rompido comigo havia quatro anos. Para minha surpresa, me telefonou e perguntou se eu conversaria com ele para tratarmos da política do Estado. Respondi-lhe que, para servir ao Estado, estaria sempre pronto”.

A conversa era para que Gracho apoiasse a candidatura do irmão de Gilberto, “um meninote bestinha”, à governadoria sergipana. Gracho Cardoso recusou-se e Gilberto entrou em desespero:

– “Seu” Gracho, eu preciso por uma pessoa minha no governo do Estado. Ou eu, ou meu irmão. Não pense que é para servir a Sergipe. É para me garantir a mim, “seu” Gracho. Não pense que é patriotismo, não; nem que eu me importe com Sergipe. Eu estou é cuidando de mim, “seu” Gracho”.

Esse homem foi Senador da República e se tornou “imortal” da Academia Brasileira de Letras em 1963.

 

 

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