24 de janeiro de 2026
Politica

Órgãos que apuram fraude no Banco Master viram alvo de pressão e inquéritos do Judiciário

BRASÍLIA — Passados dois meses desde a liquidação do Banco Master, os órgãos de controle responsáveis por apurar e produzir provas sobre possível fraude têm sido alvo de reações do mundo político. Até agora, o Banco Central, a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) foram formalmente acionados para responder por sua atuação no âmbito das investigações.

Decisão do Banco Central no caso Master foi contestada pelo TCU
Decisão do Banco Central no caso Master foi contestada pelo TCU

A Polícia Federal também começou a ter seu trabalho questionado pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao autorizar a prisão preventiva de Fabiano Zettel, cunhado do dono do Master, Daniel Vorcaro, e busca e apreensão contra o empresário Nelson Tanure, o ministro atribuiu “falta de empenho” e “inércia” aos investigadores.

Ele chegou a determinar que as provas coletadas fossem custodiadas pelo STF em vez de serem encaminhadas aos investigadores. Após críticas de juristas, que apontaram interferência em competência da PF, o ministro recuou e pediu a extração do material apreendido pela Procuradoria-Geral da República.

A primeira ofensiva contra as investigações do caso Master partiu do Tribunal de Contas da União (TCU), em uma tentativa do ministro Jhonatan de Jesus de revisar a decisão do Banco Central de liquidar a instituição financeira.

Em despacho, ele chegou a determinar uma inspeção na autarquia sob alegação de que a liquidação poderia ter sido “precipitada” e disse querer verificar se havia alguma alternativa menos rigorosa. Essa medida extrapolou os limites legais da atuação do TCU, que têm atribuição para fiscalizar a legalidade e economicidade dos atos da administração pública, mas não para rever atos regulatórios.

Os presidentes do tribunal, Vital do Rêgo, e do BC, Gabriel Galípolo, se reuniram junto com Jhonatan de Jesus e fizeram um acordo pelo qual a inspeção será feita sem acesso a documentos protegidos por sigilo bancário e sem adentrar em competências exclusivas do BC.

Segundo a PF, o Master emitiu R$ 12 bilhões em títulos falsos. Por isso, seus executivos chegaram a ser presos preventivamente e sofreram medidas cautelares, como busca e apreensão. Foi em uma dessas ações contra Vorcaro que os agentes encontraram, no celular dele, o contrato de R$ 129 milhões de seu banco com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes.

A imprensa também tornou público que fundo ligado ao Master investiu no resort Tayayá, que já pertenceu a José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos de Toffoli.

Agora, Moraes abriu investigação sigilosa para apurar se a Receita Federal e o Coaf quebraram de forma irregular o sigilo fiscal de integrantes da Corte e familiares. A decisão ocorre após a revelação de vínculos entre fundos ligados ao Master e negócios de familiares de Toffoli.

Banco Central

O Banco Central tem como função gerenciar a emissão da moeda, manter a inflação dentro da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e regular e fiscalizar o sistema financeiro para torná-lo o mais seguro possível. Foi no exercício desta última atribuição que a entidade determinou a liquidação do Banco Master.

Desde fevereiro de 2021, o BC se tornou independente. Ficou estabelecido que seu objetivo é garantir a estabilidade dos preços e que seus diretores e presidente terão mandatos não coincidentes com o do presidente da República. A lei também dificultou mudanças no comando da autoridade monetária por motivos políticos.

Receita Federal

A Receita Federal administra os tributos internos e do comércio exterior, cobra impostos, controla a movimentação aduaneira e fiscaliza ilícitos como sonegação e contrabando. Para isso, tem acesso a informações sigilosas, que compreendem declarações de pessoas físicas e jurídicas.

O acesso a esses dados é restrito a parte dos servidores do órgão e sempre deixa o registro de quem os acessou. Contratos de prestação de serviços e transações entre contas, contudo, não ficam sob custódia da autarquia.

Por isso, a Receita questiona o inquérito aberto por Moraes, uma vez que, de acordo com interlocutores, o órgão não tem dados de contratos particulares e, além disso, o acesso a informações sigilosas sem procedimento fiscal aberto é uma prática sujeita a pena de demissão.

Coaf

O Coaf é um órgão vinculado ao Banco Central e que tem atribuição de monitorar transações financeiras atípicas ou consideradas suspeitas. Sua criação teve como objetivo coibir a lavagem de dinheiro. Também produz relatórios a pedido de órgãos de investigação, como a Polícia Federal e o Ministério Público Federal.

Contudo, o órgão não se envolve em atos de investigação, como bloqueio de valores, detenção de pessoas e interrogatórios. O Coaf também não tem acesso a contratos, apenas a movimentações financeiras.

 

 

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