18 de janeiro de 2026
Politica

‘Dei bobeira’, diz delegada do PCC

A delegada de Polícia Civil Layla Lima Ayub, de 36 anos, a ‘delegada do PCC’, disse que cometeu ‘uma bobeira’ ao participar, como advogada de um faccionado do Comando Vermelho, de uma audiência de custódia na Justiça de Marabá, no Pará, dia 28 de dezembro – apenas dez dias depois de ter sido empossada na Polícia Civil de São Paulo em grande evento no Palácio dos Bandeirantes na presença do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

‘Dei bobeira’, disse Layla a delegados da Corregedoria da Polícia que a interrogaram durante cinco horas.

Layla Ayub, recém-empossada no Palácio dos Bandeirantes, foi presa na manhã desta sexta-feira, 16, em São Paulo
Layla Ayub, recém-empossada no Palácio dos Bandeirantes, foi presa na manhã desta sexta-feira, 16, em São Paulo

Ela foi presa na manhã desta sexta, 16, em um sobrado da zona Oeste da cidade, com o namorado, Jardel Neto Pereira da Cruz, o ‘Dedel’, líder do PCC no Pará que a acompanhou na posse festiva na sede do governo paulista. Com Layla os agentes apreenderam dois celulares e um terceiro chip.

Em seu interrogatório na Corregedoria, a ‘delegada do PCC’ não escondeu sua irritação com o ex-marido, que é delegado de Polícia no Pará. Segundo investigadores, Layla está ‘raivosa’ com o ex.

A primeira informação sobre as ligações perigosas de Layla com o crime chegou de forma anônima aos promotores do Gaeco – braço do Ministério Público de São Paulo que combate crime organizado – e à Corregedoria da Polícia. Mas ela suspeita que seu ex ‘ímpulsionou’ as denúncias que a colocaram na prisão. Ele teria transmitido dados importantes sobre os movimentos de Layla na defesa de faccionados.

Layla informou que tem uma filha de 18 anos, de relacionamento com um criminoso no Espírito Santo que, alguns anos depois, foi assassinado. Ela contou que fez concurso para a PM capixaba, onde chegou à patente de cabo. Conheceu, então, um policial militar, com quem se casou.

Tempos depois, o marido dela passou no concurso para delegado no Pará e ela pediu desligamento da PM e o acompanhou. Formou-se em Direito e abriu um escritório em sociedade com uma colega. Hoje tem uma carteira com vários clientes, diz.

Ex-policial militar no Espírito Santo, Layla Ayub teria um relacionamento amoroso com um integrante do PCC no Pará
Ex-policial militar no Espírito Santo, Layla Ayub teria um relacionamento amoroso com um integrante do PCC no Pará

Como advogada passou a defender Jardel ‘Dedel’, preso por tráfico e acusado de exercer a liderança do PCC em Marabá. Ela disse que se ‘encantou’ pelo cliente faccionado. Na Justiça, Layla conseguiu liberdade provisória para ‘Dedel’. Separou-se do delegado e foi viver com o faccionado.

No ano passado decidiu fazer concurso para delegada em São Paulo. O ex também fez o mesmo concurso, mas não passou.

Sobre a audiência de custódia no dia 28, na qual defendeu um faccionado do CV, ela alegou que já havia entrado com pedido de cancelamento de sua matrícula na OAB. Mas, mesmo sem obter formalmente a quebra do vínculo com a entidade, ela foi à audiência. “Dei bobeira.”

No interrogatório de cinco horas, ela esclareceu alguns detalhes da aquisição da padaria ‘Bom Jesus’, em Itaquera, zona Leste de São Paulo. O valor total ajustado era de R$ 100 mil. Deu sinal de R$ 40 mil. A Corregedoria suspeita que o estabelecimento seria usado para lavar dinheiro do tráfico. Ela não admite, mas disse que sabe que um faccionado do PCC seria o ‘laranja’ escalado para administrar a ‘Bom Jesus’.

Estabelecimento serviria para lavagem de dinheiro e ocultação de valores provenientes do tráfico de drogas
Estabelecimento serviria para lavagem de dinheiro e ocultação de valores provenientes do tráfico de drogas

Layla não se julga inocente, mas fez uma ressalva. “Não errei sozinha.”

A Corregedoria indiciou a delegada do PCC por exercício irregular da profissão, integrar organização criminosa, falsidade ideológica e associação para o tráfico.

O Estadão apurou que investigadores ficaram surpresos com a ‘frieza, inteligência e preparo’ de Layla. Para eles, a delegada demonstrou que é capaz de ‘suportar qualquer pressão, por maior que seja’.

Layla Lima Ayub foi transferida para a carceragem do 6.º Distrito Policial, no Cambuci, região central de São Paulo. A Justiça decretou sua prisão temporária por 30 dias, prorrogáveis por mais 30. Neste sábado, 17, ela passará por audiência de custódia.

 

 

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