Justiça mantém prisão de ‘delegada do PCC’ após audiência de custódia
A Justiça de São Paulo manteve neste sábado, 17, após audiência de custódia, o decreto de prisão temporária da delegada Layla Lima Ayub, de 36 anos, suspeita de manter ligações perigosas com o crime organizado, incluindo um relacionamento amoroso com Jardel Neto Pereira da Cruz, o ‘Dedel’, apontado como uma das lideranças do Primeiro Comando da Capital no Pará.
Layla foi conduzida algemada por uma escolta da Polícia Militar até o Fórum da Barra Funda, onde uma juíza realizou a audiência de custódia.
O Estadão busca contato com as defesas de Layla e Jardel. O espaço está aberto.
A prisão de Layla, expedida pela 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens, tem prazo de 30 dias, com possibilidade de prorrogação por igual período. Durante esse intervalo, o Ministério Público de São Paulo deve ouvir novas testemunhas. A investigação teve início a partir de uma denúncia anônima encaminhada à Corregedoria da Polícia Civil e resultou na operação Serpens, deflagrada na sexta-feira, 16, que levou à prisão de Layla e Jardel.

A audiência de custódia é um procedimento padrão da Justiça e tem como objetivo avaliar a legalidade do cumprimento do mandado de prisão. São analisadas questões como eventuais irregularidades ou o tratamento dispensado aos presos. Os fundamentos que motivaram a decretação da prisão não são reavaliados nesse momento.
A Corregedoria indiciou a ‘delegada do PCC’ por exercício irregular da profissão, integrar organização criminosa, falsidade ideológica e associação para o tráfico.
Na noite de ontem, Layla foi interrogada por cerca de cinco horas. Durante o depoimento, ela prestou esclarecimentos sobre detalhes da aquisição da padaria ‘Bom Jesus’, localizada em Itaquera, na zona leste de São Paulo. A Corregedoria suspeita que o estabelecimento seria utilizado para lavar dinheiro do tráfico. A delegada nega a acusação, mas afirmou ter conhecimento de que um integrante do PCC teria sido utilizado como laranja para administrar o negócio.
O Estadão apurou que investigadores ficaram surpresos com a ‘frieza, inteligência e preparo’ de Layla. Para eles, a delegada demonstrou que é capaz de ‘suportar qualquer pressão, por maior que seja’.
Layla Lima Ayub foi transferida para a carceragem do 6.º Distrito Policial, no Cambuci, região central de São Paulo.
A operação
Recém-empossada como delegada, Layla foi presa na manhã de sexta em um sobrado da zona Oeste da cidade, com o namorado, Jardel Neto Pereira da Cruz, o ‘Dedel’, líder do PCC no Pará. Com Layla os agentes apreenderam dois celulares e um terceiro chip.
A ‘delegada do PCC’ disse que cometeu ‘uma bobeira’ ao participar, como advogada de um faccionado do Comando Vermelho, de uma audiência de custódia na Justiça de Marabá, no Pará, dia 28 de dezembro – apenas dez dias depois de ter sido empossada na Polícia Civil de São Paulo em grande evento no Palácio dos Bandeirantes na presença do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Em seu interrogatório na Corregedoria, a ‘delegada do PCC’ não escondeu sua irritação com o ex-marido, que é delegado de Polícia no Pará. Segundo investigadores, Layla está ‘raivosa’ com o ex.
A primeira informação sobre as ligações perigosas de Layla com o crime chegou de forma anônima aos promotores do Gaeco – braço do Ministério Público de São Paulo que combate crime organizado – e à Corregedoria da Polícia. Mas ela suspeita que seu ex ‘ímpulsionou’ as denúncias que a colocaram na prisão. Ele teria transmitido dados importantes sobre os movimentos de Layla na defesa de faccionados.
Layla informou que tem uma filha de 18 anos, de relacionamento com um criminoso no Espírito Santo que, alguns anos depois, foi assassinado. Ela contou que fez concurso para a PM capixaba, onde chegou à patente de cabo. Conheceu, então, um policial militar, com quem se casou.
Tempos depois, o marido dela passou no concurso para delegado no Pará e ela pediu desligamento da PM e o acompanhou. Formou-se em Direito e abriu um escritório em sociedade com uma colega. Hoje tem uma carteira com vários clientes, diz.
Como advogada passou a defender Jardel ‘Dedel’, preso por tráfico e acusado de exercer a liderança do PCC em Marabá. Ela disse que se ‘encantou’ pelo cliente faccionado. Na Justiça, Layla conseguiu liberdade provisória para ‘Dedel’. Separou-se do delegado e foi viver com o faccionado.
No ano passado decidiu fazer concurso para delegada em São Paulo. O ex também fez o mesmo concurso, mas não passou.
Sobre a audiência de custódia no dia 28, na qual defendeu um faccionado do CV, ela alegou que já havia entrado com pedido de cancelamento de sua matrícula na OAB. Mas, mesmo sem obter formalmente a quebra do vínculo com a entidade, ela foi à audiência. “Dei bobeira.”
Layla não se julga inocente, mas fez uma ressalva. “Não errei sozinha.”
Ao ser presa, a delegada não negou que mantém ligação com a facção e admitiu que seu namorado Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como ‘Dedel’, é ‘batizado’ do PCC.
A prisão da delegada investigada foi decretada pelo juiz Paulo Fernando Deroma De Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da capital. A decisão atendeu a uma representação do delegado Kleber de Oliveira Granja, da Divisão de Crimes Funcionais da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo.
