24 de janeiro de 2026
Politica

Enciclopédias inúteis

A expressão é de Ronaldo Lemos, especialista em tecnologia da era digital. Ele visitou a Estônia e voltou impressionado com a educação ali propiciada a seus educandos. Eu já admirava a Estônia porque ela conseguiu elaborar uma Constituição mediante participação de cada cidadão que quis fazê-lo, pela internet. Também ali se vivencia o conceito de “cidadania digital”: quem quer pode se tornar estoniano mediante adesão digital aos seus objetivos nacionais permanentes.

Era óbvio que um país tão adiantado tivesse um sistema próprio e exemplar de educação. Como diz Ronaldo Lemos, a pequenez da Estônia – 1,3 milhão de habitantes – não equivale à sua dimensão tecnológica. Em 1993 o país estava em ruínas, recém-obtida sua independência. Era mais pobre do que o Brasil: seu PIB era de US$ 1.100 e o do Brasil era de US$ 3.700.

Foram apenas trinta anos. O PIB da Estônia cresceu trinta vezes e o do Brasil, menos de três vezes. O que acontece com o Brasil e não acontece com a Estônia, com a Coréia do Sul e com a China? São países que em três décadas eliminaram máculas que aqui proliferam e para as quais não há perspectiva de melhora.

Tudo passa pela educação de qualidade. A Estônia já criou dez empresas consideradas unicórnios, aquelas que valem mais de um milhão de dólares. Seu governo é totalmente digital. Todos os serviços públicos podem ser acessados pelo celular. E, principalmente, dá um show na educação. Está em primeiro lugar no ranking Pisa da Europa, melhor do que a Suíça e o quarto no planeta. O Pisa é um teste elaborado pela OCDE e no qual o Brasil só dá vexame.

A Estônia levou a sério a digitalização e o advento de tecnologia eletrônica. A internet mudaria a vida das pessoas e, desde 1997, há computadores e internet em todas as escolas.

Eles têm outra concepção de educação. Aqui entra a expressão utilizada por Ronaldo Lemos: “a missão da escola na Estônia é preparar os estudantes para a vida (não para se tornarem enciclopédias inúteis). Tanto é que faz parte do currículo escolar aprender a cozinhar, trabalhar madeira, usar ferramentas, fazer tarefas domésticas, etc.”.

Isso também vi na China. As crianças limpam, com prazer e cantando, as salas de aula. Lavam os seus pratos, talheres e copos. Sabem separar os resíduos sólidos, pois tudo tem valor. Só país de ignorante é que mistura tudo o que desperdiça, inviabilizando o reaproveitamento dos orgânicos para a produção de biometano e dos resíduos sólidos para cumprir o que determina a economia circular e a logística reversa.

Aqui, se as crianças forem solicitadas a varrer sua sala de aula, os pais se revoltarão e dirão que a obrigação é do governo. “Meu filho não é empregado de ninguém! A escola que contrate faxineiras!”.

Isso explica por que existe analfabetismo em estrito senso e analfabetismo funcional como fenômeno com o qual se convive, sem qualquer indignação. Isso também explica a razão pela qual o Brasil perde leitores. Perde espaço na pesquisa. Perde talentos porque insiste em deixar de lado as ciências, a matemática, a física e a química. E faz com que os alunos decorem. Guardem informações desnecessárias. Produz-se uma legião de despreparados. Têm diploma de nível superior, quase sempre em humanidades. Enquanto isso, a China forma milhões de engenheiros, de físicos, químicos, biólogos e técnicos.

Foi lá na Estônia que se criou o Skype, programa adquirido pela Microsoft em 2011, por quase nove bilhões e já deixado de lado, porque a tecnologia da inteligência é um setor em que a obsolescência reclama inovação contínua.

Ronaldo Lemos termina seu artigo dizendo que a Estônia incorporou a IA em todas as escolas. Professores e alunos têm acesso irrestrito ao ChatGPT. Isso porque eles sabem o que fazem: se a IA veio para ficar, quem não souber lidar com ela ficará para trás. Assim como nós nos acostumamos a ficar nas últimas décadas. Continuemos a entregar diplomas para os concluintes do curso de enciclopédia inútil.

Ou alguém se propõe a sacudir o anacronismo e a fazer com que a educação acorde para as novas demandas e produza os profissionais que o mundo requer?

 

 

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