14 de fevereiro de 2026
Politica

Por que a anexação da Groenlândia pelos EUA representaria o fim da Otan

Minha avó paterna, Else Marie Schelp (cujo sobrenome de solteira era Pagh), dinamarquesa naturalizada brasileira, certa vez me contou ter visto Winston Churchill (1874-1965) bem de perto. Foi em outubro de 1950, quando o premiê britânico foi recebido como herói em Copenhague, por seu papel na derrota da Alemanha na II Guerra Mundial.

Procurei, no YouTube, o vídeo que mostrava Churchill desfilando em carro aberto para 100.000 dinamarqueses. Era a primeira vez que a Else via aquelas imagens. Um dos trechos permitia identificar o local onde ela estava posicionada: “Eu fiquei aqui, nas primeiras fileiras, com minhas colegas de escola. A multidão estava em êxtase.”

O presidente americano Donald Trump anunciou tarifas para os países que se opuseram ao seus planos de comprar a Groenlândia
O presidente americano Donald Trump anunciou tarifas para os países que se opuseram ao seus planos de comprar a Groenlândia

O país escandinavo havia sido libertado do domínio nazista no início de maio de 1945. Oito décadas depois, a Dinamarca conta mais uma vez com a ajuda dos aliados europeus para fazer frente aos planos expansionistas de uma nação infinitamente mais poderosa. Só que, agora, a ameaça vem dos Estados Unidos, que ajudaram a derrotar Hitler ao lado de Churchill e que estão, junto com a própria Dinamarca, entre os doze fundadores da Otan, a aliança militar cuja função é assegurar a soberania e a segurança de seus países-membros.

Essa contradição está no cerne da dificuldade dos líderes europeus em encontrar uma estratégia contra o desejo de Donald Trump de anexar a Groenlândia.

O interesse do presidente americano no território autônomo da Dinamarca — estrategicamente localizado no acesso à nova rota marítima pelo Ártico, cobiçada pela Rússia e pela China — vai além da segurança global. Afinal, os tratados existentes já permitem aos Estados Unidos aumentar a presença militar na ilha o quanto quiser. Trump, na verdade, está de olho também em recursos naturais, como petróleo, gás e terras raras.

Os países da União Europeia convocaram uma reunião de emergência neste domingo, 18, para tratar da tarifa de importação adicional anunciada por Trump contra oito países, entre os quais o Reino Unido, a Alemanha e a França, que se opõem à “venda” da Groenlândia para os Estados Unidos.

Ao contrário do que aconteceu no ano passado, quando os europeus conseguiram reduzir o impacto do tarifaço americano, desta vez não é possível contornar o problema com negociações meramente comerciais. A concessão que Trump quer é territorial. Para os europeus, que já enfrentam o expansionismo russo nas suas fronteiras ao Leste, ceder a ela significa abrir um precedente perigoso — e o enterro definitivo da Otan.

 

 

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