24 de janeiro de 2026
Politica

Já tivemos cientistas

É notório que o Brasil precisa se equiparar ao mundo civilizado em relação à ciência pura e à pesquisa. Multiplicamos escolas de humanidade, que às vezes se convertem em meras vendedoras de diplomas mediante pagamento de mensalidades. Enquanto isso, a China tem milhões de estudantes nas áreas técnicas, sobretudo na matemática, física, química, biologia e produz mais de um milhão de engenheiros a cada ano. São os responsáveis pelo estupendo progresso tecnológico daquela gigantesca nação.

Mas já tivemos cientistas que foram importantes motores de renovação da cultura tupiniquim. Um deles foi André Rebouças. Na década de 50 do século XIX, estudou e se adestrou profissionalmente. Era engenheiro e chamava a França de sua Pátria afetiva. Nunca se contentou com o que era ensinado pelos mestres. Era curioso e pesquisava. Levou a sério o autodidatismo.

Foi presidente da Seção de Máquinas e Aparelhos da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, uma espécie de FIESP ou CNI à época. Tomou contato com equipamentos de natureza vária, todos eles importados. Isso o auxiliou a elaborar sua tese de concurso, com a qual obteve a cátedra na Escola Politécnica em 1880. Os dois pontos para “Proposições” foram: Motores empregados na locomoção terrestre e receptores hidráulicos.

Durante o desempenho profissional, Rebouças aproveitava bem o tempo anotando, comentando, escrevendo e publicando, sem se descuidar de detalhes. Por exemplo: no Maranhão, deixa à província os instrumentos topográficos que levara, como contribuição para a comunidade. Felicita um francês que montava um locomóvel num lanchão, para servir de propulsor na navegação do rio Mearim. Durante comissão em Santa Catarina, coligiu com o irmão Antonio Rebouças, os termos técnicos para um Dicionário da Arte de Construir. Cooperava com os colegas das modalidades mais diversas, inclusive para coleções. Cuidou pessoalmente da formação de mostruário de madeiras para a exposição de Viena, o mesmo fazendo para Saldanha da Gama, professor de Botânica na Politécnica, a quem entregou amostras de imberita preta e aroeira que trouxera da Paraíba do Norte.

A questão hidráulica o apaixonava. Mereceu sua especial dedicação quando de sua primeira viagem à Europa, custeada pelo pai, por não lhe ter sido concedida a premiação a que tinha direito, como primeiro aluno, visto ser “mulato escuro”.

Era prolífico na elaboração de perícias, exames e pareceres, como o exame de proposta para construção de um dique em Montserrat, Salvador, com os engenheiros Bulhões, Sobragy e Melo Barreto. Elaborou projeto de melhoramento da barra do rio Paraíba do Sul, cuidou do acidente no reservatório do Morro do Pedregulho, em que se destacou, a ponto de D. Pedro II ter visitado as obras de recuperação.

Participou da Comissão para reforma dos estatutos do Instituto Politécnico, do grupo que examinou o contrato da Companhia do Gás, elaborou parecer sobre a ponte de Sanhauá na Paraíba, fez estudo de ligação do canal Campos a Macaé, com o Rio Paraíba. Fez o projeto de ponte de madeira para Niterói, elaborou parecer sobre prédios nacionais na rua dos Barbonos.

Era influente inspirador do Imperador e procurava convencê-lo a fazer a estrada Paraná-Mato Grosso e a construir abastecimento d’água no Rio de Janeiro, por engenheiros brasileiros. Foi o primeiro a empunhar a bandeira da luta nacionalista pela valorização profissional. Acreditava que essa era a fórmula de fazer com que houvesse permanente evolução em nossa técnica e em nossa tecnologia.

Era incansável e cuidava até de exposição de flores no Passeio Público, projetava navegação nos rios Paraná e Uruguai, conjugado a ferrovia de São Tomé a São Borja. Incentivou a criação de uma companhia de exploração do pinho no Paraná. Fez estudo sobre uma Lei Geral de melhoramento dos portos do Império. Também tratou do arrasamento do morro de São Bento, que foi encarado com ceticismo por D. Pedro II.

Foi profundamente construtiva a rotina profissional de André Rebouças e a diversificação de sua atividade era considerável. E era um visionário. Preocupou-se com assunto estranho à época: uma delas, a ideia de cursos noturnos anexos à Escola Politécnica. Isso era fruto de sua própria experiência. Escolhera o curso de Cadete da Academia Militar, por lhe faltarem recursos para buscar outra Instituição.

O Brasil deve muito a André Rebouças. É um devedor insolvente. Haverá ainda alguma oportunidade para resgatar essa dívida?

 

 

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