23 de janeiro de 2026
Politica

Lula deveria aceitar o convite de Trump para o Conselho de Gaza

Mesmo em questões complexas, há horas em que é preciso se fiar nos ditos populares. Entre eles, há o tão conhecido: “se você não pode com o inimigo, junte-se a ele”. Com isso em mente, faz bastante sentido o presidente Lula aceitar o convite feito pelo presidente americano Donald Trump em integrar um “Conselho de Paz” para reconstruir a faixa de Gaza, destruída após o conflito com Israel.

Ao que consta, muitas das intenções de Trump com a iniciativa não são nada louváveis. Por exemplo, esvaziar o papel das Nações Unidas no processo. Além disso, defendeu, inclusive com um vídeo, algo infame em suas redes, que o território se transforme em um grande resort destinado ao turismo internacional. Lula, entretanto, poderia estar no conselho para se contrapor aos absurdos e aos excessos do presidente americano, um papel de relevância que sempre almejou no tabuleiro mundial. Além de um troféu de política interna em ano eleitoral.

Lula foi convidado pelos EUA para integrar o 'Conselho de Paz' para reconstruir a faixa de Gaza, destruída após o conflito com Israel
Lula foi convidado pelos EUA para integrar o ‘Conselho de Paz’ para reconstruir a faixa de Gaza, destruída após o conflito com Israel

Se analisarmos as atitudes e pronunciamentos – escritos e falados – de Trump, nota-se que há ali algo de uma personalidade infantil, dados os arroubos de afeto e de rancor que nem sempre são compatíveis com as estratégias de seu país. Até agora, por exemplo, não está tão claro por que manifesta simpatia calorosa a Lula, um esquerdista, e ainda deixou aliado bajulador na chuva: no caso, o ex-presidente Jair Bolsonaro, neste momento na penitenciária da Papuda.

Há algo do valentão Trump, em primeiro lugar, de respeitar os mais poderosos do ponto de vista da força bruta, como no caso de Vladimir Putin, da Rússia, e Xi Jinping, da China, seus adoráveis inimigos. Há, em segundo lugar, um desprezo à Europa de líderes “fracos”, como o presidente francês Emmanuel Macron ou o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer. O resto das nações é visto, nesse mundo pueril e perigoso, como quintal dos mais fortes – numa linguagem menos coloquial: zona de influência.

Nesses países-quintal dos mais poderosos, há líderes inimigos, como o ex-presidente e também encarcerado Nicolás Maduro, e amigos, como, surpreendentemente, Luiz Inácio Lula da Silva. Logo, o mandatário brasileiro tem mais a ganhar do que perder nesse papel de conselheiro. De repente, pode até se aproveitar da posição para palpitar em outros terrenos, como a disputa pela Groenlândia, a guerra na Ucrânia, o conflito no Irã, entre outros. Existe até a chance de o brasileiro se comportar como um sensato entre os insensatos (a trajetória não autoriza pensar assim, mas podemos especular neste sentido, não é proibido).

Um problema, entretanto, é o preço para entrar nesse clube chefiado por Trump: US$ 1 bilhão para um mandato de três anos (R$ 5,36 bilhões). Uma quantia vultuosa para um país com problemas crônicos nas contas públicas – hoje o Ministério das Relações Exteriores está sem dinheiro para pagar o aluguel de algumas embaixadas, é preciso ponderar.

Haveria também companhias controversas como o presidente argentino Javier Milei, notório rival. Os outros colegas desse grupo sem mulheres ou palestinos seriam o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, o presidente egípcio, Abdel Fattah El-Sisi, e o primeiro-ministro canadense, Mark Carney. É um convite, de fato, para se pensar, na direção de outro dito: “mantenha os amigos sempre perto de você e os inimigos mais perto ainda”, atribuído ao filósofo Lao-Tzu, do século cinco antes de Cristo.

 

 

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