24 de janeiro de 2026
Politica

O que levou Tarcísio a adiar visita a Bolsonaro na prisão; leia bastidor

SÃO PAULO E BRASÍLIA — O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), cancelou a visita que faria a Jair Bolsonaro (PL) após avaliar que a conversa serviria para pressioná-lo a apoiar de forma mais explícita a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), segundo aliados do governador ouvidos pelo Estadão.

Pessoas próximas a Tarcísio dizem que a visita teria inicialmente outro propósito: prestar solidariedade a Bolsonaro e discutir os próximos passos para viabilizar sua transferência para a prisão domiciliar.

Em prisão domciliar, Jair Bolsonaro recebe a visita do governador paulista Tarcísio de Freitas, ao lado de Flávio Bolsonaro
Em prisão domciliar, Jair Bolsonaro recebe a visita do governador paulista Tarcísio de Freitas, ao lado de Flávio Bolsonaro

A ideia do governador era relatar ao ex-presidente o andamento de suas articulações junto a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que culminaram na transferência de Bolsonaro para a Papudinha.

O cancelamento ocorreu após declarações de Flávio indicarem que a pauta real da conversa seria enquadrar Tarcísio. Embora se coloque como candidato à reeleição ao governo de São Paulo, ele é visto como um possível nome da direita para a disputa ao Planalto.

Em entrevista à CNN Brasil na terça-feira, 20, o senador afirmou que Tarcísio ouviria de Bolsonaro que sua reeleição ao governo de São Paulo é fundamental para a estratégia nacional da direita — uma forma de endossar o projeto presidencial do senador.

A aliados, Tarcísio vem manifestando incômodo com as cobranças recorrentes de setores do bolsonarismo para que adotasse um apoio mais enfático a Flávio. Em tom de desabafo, o governador confidenciou a algumas pessoas que nada do que faz parece suficiente ao grupo.

O governador declarou ao ex-secretário de Desenvolvimento Social de São Paulo Filipe Sabará, durante um jantar no Palácio dos Bandeirantes no começo do mês, que “daria total suporte e palanque necessários a Flávio na hora certa” — sugerindo não ser o momento para o apoio público.

Correligionários no Palácio dos Bandeirantes avaliam que, ao cancelar o encontro sob a justificativa de ter compromisso em São Paulo, o governador buscou impor limites e enviar um recado de que não vai se submeter a esse tipo de cobrança. Um integrante da gestão disse que a realção tem sido “um estica e puxa”.

Outro aliado diz que Tarcísio agiu corretamente, pois “não pode se diminuir” e passar a imagem de “pau mandado” de Bolsonaro, o que prejudicaria a sua própria reeleição em São Paulo. Na sua avaliação, “os pesos estão invertidos”: Tarcísio governa o Estado de São Paulo, enquanto Flávio é “apenas um senador”. Por isso, caberia à família Bolsonaro “pedir, e não exigir”, o apoio de Tarcísio.

Lideranças do bolsonarismo leram o recuo de Tarcísio como falta de comprometimento com a candidatura de Flávio. A crítica surge até em aliados de São Paulo, próximos ao governador.

Um deles diz que adiar o encontro por receio de ser pressionado a apoiar Flávio passa a impressão de que não há compromisso com a candidatura do senador.

Uma pessoa com trânsito entre os dois presidenciáveis defendeu que o governador deveria ter relevado a insinuação do senador e valorizado a amizade que tem com o ex-presidente.

Uma pessoa próxima a Eduardo, envolvida nas articulações da campanha do senador, diz esperar que Tarcísio “se una ao nosso propósito de forma mais entusiasmada”.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também é citada nas conversas do círculo próximo a Flávio como alguém envolvida na visita de Tarcísio ao ex-presidente.

A ideia de que exista uma “frente anti-Flávio” sendo articulada pelas costas do senador está por trás da pressa desses aliados em fazer Tarcísio entregar logo seu apoio explícito à candidatura do filho do ex-presidente.

Água e óleo

O episódio engorda a pilha de atritos entre os grupos de Eduardo e de Tarcísio, que vêm nutrindo uma desconfiança um com o outro desde o fim do governo Bolsonaro (2019-2022).

A transferência de Bolsonaro para uma cela no presídio da Papudinha após uma articulação encabeçada por Michelle e por Tarcísio ocorreu numa semana em que os dois estiveram sob artilharia de críticas da militância e de aliados.

A determinação de transferência foi dada por Moraes em 15 de janeiro. A Papudinha é o nome popular do 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, que faz parte do complexo penitenciário da Papuda e onde ficam presos policiais e pessoas politicamente expostas.

Pessoas próximas à família Bolsonaro relataram ao Estadão que Michelle e Tarcísio conversaram com ministros do STF nos últimos dias, num apelo para que o ex-presidente fosse enviado à prisão domiciliar.

Uma pessoa próxima à família Bolsonaro diz que a articulação de Michelle e Tarcísio contrasta com a dos aliados que costumam criticá-los por razões diversas. O episódio mostra que “enquanto tem gente fazendo barulho, tem gente séria trabalhando nos bastidores visando o melhor para o presidente Bolsonaro”, segundo esse aliado.

A movimentação de Michelle e Tarcísio passou incólume ao conhecimento dos filhos de Bolsonaro como Eduardo e Flávio, diz essa pessoa, o que mostra o distanciamento entre dois grupos que têm estratégias diferentes para lidar com a prisão do ex-presidente.

 

 

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