E ainda existe quem não acredite
Os fenômenos que sacodem o planeta e derivam das emergências climáticas não são naturais. São provocados pela insensatez humana, que continua a emitir gases venenosos, causadores do efeito-estufa.
É incrível que ainda exista negacionismo. Pessoas presumivelmente eruditas, qualificadas, continuam a dizer que tudo isso é normal. Acomodação do próprio sistema terrestre, a ecologia é uma ciência de nefelibatas, nada com que se preocupar.
Talvez eles possam se convencer de que vale a pena insistir na tecla da preservação, demonstrando que ela faz bem para a economia. É o que resulta do relatório divulgado pelo PNUMA, cuja conclusão é a de que investir na sustentabilidade significa salvar milhões de vidas e injetar trilhões de dólares na economia mundial.
Essa é a avaliação mais abrangente já realizada a respeito do estado de saúde do frágil planeta Terra. Resultou do trabalho de 287 pesquisadores de 82 países, inclusive brasileiros. Comprova que é a atividade humana que impacta a natureza e adverte, com a possível contundência, que isso tem de cessar. Queiram ou não os negacionistas.
Os otimistas dizem que, embora o tempo se esgote rapidamente, ainda há esperança de adotar alternativas que impeçam o desastre total. Já os realistas afirmam que está muito próximo o termo do colapso generalizado de todos os sistemas naturais: terrestres, aquáticos, marinhos e atmosféricos. Já os pessimistas dizem que não há mais o que fazer. A humanidade optou pelo ecocídio. Sacrifício de toda espécie de vida, inclusive e principalmente a humana.
Se os combustíveis fósseis continuam a ser o maior vilão – e a indústria petrolífera reina, com desenvoltura soberana, sobre toda a face da Terra –, eles têm companhia na malversação dos recursos frágeis e finitos de que dependemos. O desmatamento é um desses fatores, que causa perda da biodiversidade, e o Brasil já se especializou na fabricação de desertos. O uso errático do solo, a não regeneração das áreas degradadas, o excesso de produção de resíduos sólidos – o globo é uma esfera coberta de plástico e demais espécies de lixo –, tudo isso forma um quadro cataclísmico.
Por isso mesmo, falávamos em “mudanças climáticas”, passamos a chamar de “emergências climáticas” e hoje a palavra mais adequada é “cataclismo climático”. Só não enxerga quem não quer ou é alimentado por ignorância ou por má-fé.
Quem melhor avalia a tragédia é a população de refugiados que tem de abandonar seu berço natal, principalmente frágeis ilhas na Polinésia, porque o mar já não deixa superfície propícia à sobrevivência. Os vitimados pela seca também sofrem aquilo que a enorme maioria dos negacionistas não experimentou. A escassez hídrica está cada vez mais próxima. E não é apenas para Teerã e outras regiões saarianas. Está pertinho de nós! É só prestar atenção.
A preocupação dos amigos da natureza não é meramente ecológica. Eles conseguem vislumbrar gravíssimos riscos para a segurança alimentar, hídrica, energética e climática para bilhões de seres humanos. Não se tem prestado atenção ao número de vítimas da poluição atmosférica: 8 milhões de pessoas morrem a cada ano, por causa de ar empesteado.
As vítimas das altas temperaturas crescem, assim como as que são levadas por deslizamentos, desmoronamentos, enchentes e inundações. Pois o descontrole do regime de chuvas faz com que as precipitações sejam rápidas e violentas.
Ninguém se preocupa com o degelo, porque vive num país tropical, “abençoado por Deus”, mas negligenciado pela criatura que se diz racional. Ninguém chora pelas milhões de espécies ameaçadas de extinção. Quase metade da superfície terrestre já foi degradada. O consumismo insano, a cultura do desperdício e a falta de descarte adequado combinados fazem com que a cada ano se produzam mais de dois bilhões de toneladas de resíduos sólidos. E isso apenas aumenta, na proporção de nossa ignorância.
Haverá condições de reversão nesse rumo fatídico e em movimentação uniformemente acelerada?
Seria preciso que uma grave catástrofe acordasse as mentalidades adormecidas e apegadas a questões insignificantes. Como a imensa maioria dos humanos só pensa em dinheiro (embora saiba que tem algumas décadas, não mais, de permanência neste planeta, do qual partirá sem levar um tostão…), o único recado a merecer alguma atenção seria aquele traduzido em cifrão. A transição para modelo mais sustentável de desenvolvimento geraria retorno de até 20 trilhões para a economia mundial a cada ano, a partir de 2050.
Ainda assim, poderia remotamente comover os que têm certeza de estar vivos naquela data. Os demais, continuariam na marcha da insensatez. Pobre humanidade que não sabe defender sua própria subsistência. O dia do acerto de contas está mais próximo do que se possa imaginar.
