Faça chuva ou faça sol
Resolvi escrever sobre polarização. No mundo cada vez mais dividido em que vivemos, parece que não há mais espaço para ficar em cima do muro. Todos somos instados a definir de que lado estamos. Outro dia, num debate entre amigos, o grupo estava claramente rachado. A minha posição foi direta e sem rodeios: comigo não tem meio-termo. Entre o calor e o frio, definitivamente prefiro o frio.
É claro que gosto de praia, de banho de mar e de aproveitar o sol. Mas, isso quando estou de férias. No dia a dia, prefiro mil vezes o frio. Do frio a gente se protege colocando uma roupa mais pesada; do calor, não há escapatória. Conheço pessoas absolutamente aficionadas por sol que certamente discordariam frontalmente de mim. Conheço duas, em especial, que, se houver sol na praia ou na piscina, ali permanecerão o dia inteiro — e praticamente nem precisarão se alimentar. Parecem mesmo movidas a energia solar. Ficam horas e horas sob o sol escaldante e não se preocupam com os riscos de tamanha exposição ao sol. Enfim, gosto não se discute.
Cabe esclarecer que gostar do inverno não significa desgostar do sol. Dias frios e ensolarados são especiais. Em razão do ar mais seco do inverno — com menos umidade e menos partículas em suspensão — ocorre um fenômeno que intensifica o espalhamento da luz azul. O resultado é um céu de azul mais profundo e vibrante.
Não posso negar, porém, que a chuva também tem seus encantos — refiro-me, claro, às chuvas “normais”, e não as tormentas e chuvaradas que, infelizmente, têm se transformado em catástrofes cada vez mais frequentes. Descobri, recentemente, que existe até um nome para quem gosta da chuva: são os pluviofílicos. Pessoas que encontram bem-estar, conforto e inspiração em dias chuvosos, frios ou quentes. Para elas, a chuva não simboliza tristeza, mas tranquilidade e introspecção, estimuladas pelo som da água, pelo vento e pelo cheiro da terra molhada. Aliás, adoro o cheiro da terra molhada.
Assim, para os pluviofílicos, não existe o que popularmente chamamos de “tempo ruim”. Existem dias de tempo bom — com sol — e dias de tempo melhor ainda — com chuva. Seja como for, concordemos ou não, é fundamental respeitar os gostos, as vontades e as crenças de cada um, sejam elas climáticas, religiosas ou políticas. Em tempos de tanta polarização – especialmente entre direita e esquerda – talvez o maior sinal de maturidade não seja convencer o outro, mas aceitar que ele pense diferente. Que 2026 nos traga menos certezas absolutas e mais respeito, tolerância e paz. Um ano de tempo bom para todos — faça chuva ou faça sol.
