25 de janeiro de 2026
Politica

Eleições de 2026 colocam TSE à prova diante do uso massivo de inteligência artificial nas campanhas

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As eleições de 2026 serão as primeiras no Brasil marcadas pelo uso intensivo de inteligência artificial (IA) entre as campanhas políticas, colocando à prova a capacidade do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de fiscalizar e conter a desinformação em tempo real.

A avaliação é de especialistas ouvidos pelo Estadão, segundo os quais o avanço e a popularização da inteligência artificial impõem um novo patamar de desafios ao tribunal, exigindo atualização constante das regras eleitorais, mecanismos mais ágeis de fiscalização e sanções mais duras para coibir abusos. Diferentemente de 2024, quando a tecnologia teve impacto limitado na disputa eleitoral, eles avaliam que o pleito de 2026 será marcado pelo uso central dessas ferramentas nas campanhas. Marqueteiros políticos já se organizam para explorar essas tecnologias.

Fachada do predio do TSE, durante realizacao do segundo turno das eleicoes 2020,  em Brasilia.  FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADAO
Fachada do predio do TSE, durante realizacao do segundo turno das eleicoes 2020, em Brasilia. FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADAO

A Justiça Eleitoral é o ramo do Judiciário responsável pela organização e fiscalização das eleições no País, tendo o TSE como sua instância máxima e principal formulador das regras do processo eleitoral.

Em 2024, a Justiça Eleitoral aprovou resoluções para as eleições daquele ano que impuseram obrigações de rotulagem a conteúdos produzidos por IA nas campanhas, estabeleceram deveres às plataformas digitais, e proibiram o uso de deep fakes, vídeos ou áudios manipulados para simular pessoas reais.

Agora, o TSE realizará, ao longo do mês de fevereiro, audiências públicas com especialistas, representantes de plataformas e entidades da sociedade civil para aprimorar as regras eleitorais do próximo ciclo, conforme o rito de atualização das resoluções a cada dois anos.

A iniciativa ocorre em meio a avaliações divergentes sobre o grau de preparo do tribunal para o próximo pleito. Para o advogado especialista em direito eleitoral Alberto Rollo, as resoluções aprovadas refletem um esforço de atualização diante do avanço tecnológico, mas o cenário ainda é marcado por incertezas, já que não é possível antecipar quais inovações podem surgir até o período eleitoral.

“Em 2026, a inteligência artificial deve se consolidar como o maior desafio para o TSE. Sem dúvida, será a eleição da IA. Ao contrário de 2024, as tecnologias agora estão mais acessíveis e mais fáceis de usar”, afirma.

Já para o professor de Direito Eleitoral da FGV-SP, Fernando Neisser, esse novo cenário exige um passo além das regras atuais. Ele defende que a Justiça Eleitoral abra um canal permanente de interlocução, cooperação e fiscalização com as plataformas responsáveis pela geração de conteúdos por inteligência artificial, a exemplo do que ocorreu com as redes sociais.

“O TSE teve sucesso ao firmar memorandos de entendimento com grandes empresas de tecnologia, garantindo o cumprimento mais rápido de decisões judiciais e o acesso a dados. Agora, é preciso trazer para a mesa as plataformas que produzem conteúdos de inteligência artificial”, afirma Neisser, ressaltando que, dentro de seus limites institucionais, o tribunal tem respondido bem às demandas relacionadas ao tema.

O advogado eleitoral e pesquisador da PUC-SP, Erick Beyruth, chama atenção para o fator tempo e para a dificuldade técnica de detecção. Ele avalia que conteúdos falsos produzidos com auxílio de IA podem alcançar milhões de eleitores antes de qualquer reação institucional, o que reduz a eficácia de decisões posteriores.

“O desafio é que, quando a Justiça Eleitoral age, o impacto muitas vezes já aconteceu”, afirma.

Para Beyruth, a distinção entre conteúdos reais e sintéticos tende a se tornar cada vez mais difícil, sobretudo no caso de vídeos, que têm alto potencial de viralização. “Assim como as eleições de 2018 significaram um marco no processo eleitoral com a digitalização das campanhas por meio das redes sociais, as eleições de 2026 ficarão marcadas pelo uso intensivo da inteligência artificial”, diz.

A avaliação é compartilhada pelo marqueteiro Duda Lima, que coordenou campanhas de Jair Bolsonaro e do prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP). Para ele, o pleito de 2026 tende a ser definido pela incorporação da inteligência artificial às estratégias eleitorais. “Será o ano da IA”, resume.

O marqueteiro afirma que sua equipe já estrutura um núcleo dedicado ao uso dessas ferramentas, hoje entre os maiores setores da agência, impulsionado pela demanda crescente das campanhas. “Agora é possível fazer mensagens personalizadas para diferentes perfis de eleitores, e ferramentas que antes eram restritas tornaram-se amplamente acessíveis”, completa.

Esse movimento já se reflete nas redes sociais, onde vídeos e imagens gerados por inteligência artificial passaram a circular com frequência envolvendo diferentes nomes do espectro político, tanto à esquerda quanto à direita.

Em novembro de 2025, após Bolsonaro admitir que tentou romper a tornozeleira eletrônica durante a prisão domiciliar, conteúdos produzidos com IA passaram a circular em perfis de esquerda, explorando o episódio em tom satírico.

Mais recentemente, políticos do mesmo campo ideológico divulgaram imagens manipuladas por IA nas quais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece com aparência “musculosa” durante viagem à Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro.

Do outro lado, perfis alinhados à direita compartilharam vídeos gerados por inteligência artificial que apresentavam dados falsos de pesquisas sobre a popularidade do presidente Lula, além de conteúdos que simulavam falas do petista sobre temas sensíveis da política externa, como a prisão do ditador venezuelano Nicolás Maduro.

Para o marqueteiro Pedro Simões, que esteve à frente das campanhas da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) e do prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PSD-RJ), os episódios recentes evidenciam também os aspectos mais nocivos do uso da inteligência artificial na disputa política.

Ele cita o caso ocorrido durante a campanha de Tabata Amaral à Prefeitura de São Paulo, quando a candidata foi alvo de deepfakes que sexualizavam sua imagem. “Isso marca o uso da IA como instrumento de ataque político direto”, diz.

Tabata Amaral foi alvo de deepfakes durante a corrida pela Prefeitura de São Paulo em 2024
Tabata Amaral foi alvo de deepfakes durante a corrida pela Prefeitura de São Paulo em 2024

Simões pondera, no entanto, que a inteligência artificial também tem efeitos positivos, especialmente na automação de tarefas burocráticas das campanhas, como organização de dados, segmentação de eleitores, produção de conteúdo em escala e monitoramento de redes sociais.

Punições deveriam ser mais duras

Especialistas ouvidos pelo Estadão são unânimes ao afirmar que as sanções atualmente aplicadas a candidatos durante as campanhas, como multas, têm valores baixos e pouco efeito dissuasório, especialmente diante da propagação de desinformação. “As multas para a utilização de inteligência artificial também são muito baixas. Não deveria ser assim”, afirma Rollo.

Advogados apontam que sanções mais severas, como a cassação de registro, diploma ou mandato, têm produzido efeitos concretos de responsabilização.

Um exemplo citado é o do então candidato à Prefeitura de São Paulo Pablo Marçal (PRTB), condenado a oito anos de inelegibilidade por abuso de poder econômico e político, uso indevido dos meios de comunicação social e captação ilícita de recursos.

“Essa eleição vai colocar à prova a capacidade do TSE de reagir antes que o dano eleitoral esteja consumado”, completa Rollo.

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