Memórias de um desencontro: o bispo, o médico e o preso
“É ele!!! É ele!!!”. Foi assim que meu pai me despertou de um cochilo que tirava ao seu lado, em sua cama, quando o visitava em Minas Gerais, em 2023. Ele acabava de recuperar, dos seus mais recônditos arquivos da memória, o nome de Edival Nunes da Silva Cajá, a partir de uma entrevista que acabara de assistir em um de seus canais de notícias de predileção, com um sociólogo que atuou na coordenação do comitê pernambucano Verdade, Memória e Justiça.
Explico!
Meu pai, Iano Salomão de Campos, foi militante estudantil e membro do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora, durante sua passagem pelo ensino superior, na década de 1970. Envolvido com a luta contra a ditadura militar, sugeriu aos seus colegas da turma de Medicina, formandos de 1978, o nome de Dom Hélder Câmara como paraninfo, a partir de sua condição de orador eleito para a formatura.
Sugestão aceita, meu pai partiu para Recife poucos meses antes da Colação de Grau, para apresentar o convite ao arcebispo emérito de Olinda e Recife e co-fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e tratar dos detalhes, caso o mesmo fosse aceito. O fato de ter sido um dos grandes defensores dos Direitos Humanos fez com que a idealização de Dom Hélder à condição de paraninfo tirasse Iano de sua zona de conforto, já que avesso a longas viagens, em busca daquele que seria o brasileiro por mais vezes apontado ao Prêmio Nobel da Paz, com quatro indicações.
Previamente notificado por telegrama, Dom Hélder solicitou a um dos estudantes vinculados à Comissão de Justiça e Paz da diocese, Edival Nunes da Silva Cajá, que buscasse o estudante de Juiz de Fora no aeroporto da cidade, em maio de 1978. Contudo, Iano não encontrou ninguém para recebê-lo e, a partir do sumiço do mediador, entre desconfiado e receoso, tomou um táxi em busca de Dom Hélder.
Cajá fora preso e encarcerado em uma das celas do DOI-Codi, aos 28 anos de idade, naquela ocasião, sendo torturado até sua soltura, em 1979. Foi o último preso político libertado após a Lei de Anistia. Sua prisão gerou uma grande mobilização entre os estudantes da Universidade Federal de Pernambuco, que organizaram uma greve com mais de 8 mil discentes. A colega Alzira Josefa de Siqueira Medeiros chegou a pichar em um muro “Cajá está sendo torturado e você vai à aula?”, como mote para adesão ao movimento.
“É ele!!! É ele!!!”. Ao ler o nome de Edival Nunes da Silva Cajá na legenda da matéria, meu pai desobstruiu décadas de sombreamento sobre uma memória sensível e traumática, tanto no âmbito individual quanto coletivo: a das dores geradas pela ditadura militar.
Vale dizer que Dom Hélder aceitou o convite para ser paraninfo da turma da qual Iano foi orador. Em seus discursos da colação de 14 de julho de 1978 (portanto antes da Lei de Anistia e ainda sob a vigência do AI-5), não se omitiram de tecer críticas à gestão do Estado autoritário.
O arcebispo afirmou que:
Para o indispensável cotidiano, como algodão, gazes, mertiolate, o interesse é tanto menor quanto menos comissão pode proporcionar. Nos hospitais de emergência, que fazer em face de pacientes que necessitam com urgência de socorro, mas que chegam sem a pasta de entrada, que parece mínima, mas quase sempre está acima da miséria de nossa gente?
Já o acadêmico:
Para a universidade, que concede ao estudante o único direito de estudar, não se tem cumprido a contento a obrigação de ensinar. Acreditamos, nesse breve balanço de seis anos de vida universitária, que o saldo nos favoreça. O que levamos de conhecimento, devemos unicamente aos que compreendem o crime que cometem aqueles que, embalados por confortável mordomia, divagam na própria incapacidade, se limitando a copiar planos educacionais na tranquila realidade que sequer se aproxima da nossa. Devemos aos que, por amor à ciência, por amor ao magistério, conseguiram nos levar sem rodeios, sem academicismos, ao conhecimento da arte de curar. Devemos aos que, representados por nosso homenageado, agradeceremos não com palavras, mas com o legítimo cumprimento de nossas atividades profissionais. […] Nos órgãos previdenciários, enfrentaremos, além dos baixos salários, a frustração da impossibilidade de relação médico-paciente, a exiguidade de exames complementares, o racionamento de medicamentos, a vergonha das filas, a incapacidade de entraves burocráticos, a anti-Medicina.
Essas são as primeiras tintas de um material sobre o qual, junto a Cajá, trabalho, cotejando memórias possíveis à documentação disponível, para propiciar um breve ensaio sobre a luta democrática no Brasil, ainda tão necessária e premente. Junto a uma parte descritiva, que partirá desse esboço, outra parte será elaborada a partir de entrevistas com Cajá. A pretensão dessa investigação é a de desfiar o que esse não-encontro tem a dizer sobre a recente história brasileira, perpassada por violência de Estado, torturas, mortes, mas também por resistência e luta, a partir das memórias de Cajá, e das memórias que guardo dos relatos e documentos de meu pai, falecido em janeiro de 2024.
