Tudo depende da leitura
Inacreditável que haja pessoas que não leem. A leitura é a mais eficaz libertadora da mente obscura ou tacanha. Triste acreditar que no Brasil decresça o número daqueles que alargam infinitamente seus horizontes mediante mergulho na obra de quem nos abra os olhos.
A palavra é ferramenta capaz de mudar o mundo. E mudou a vida de quem, não fora a paixão pelos livros, poderia ter levado uma existência limitada ou medíocre.
Quando se estuda a biografia de André Rebouças, toma-se contato com a sua incomensurável curiosidade. Lia tudo, de todos os autores disponíveis. Gostava de enfrentar os desafios de ideias insólitas, nunca dantes perfilhadas.
Foi por isso que se alinhou ao pensamento de Jean Baptiste André Godin, (1817-1888), industrial francês e do movimento associacionista. Era um defensor das teorias sociais de Saint-Simon e Owen, além de Fourier. Sua fortuna foi utilizada em melhorar a vida dos operários. É sua criação a ideia do “Familistério”, inspirado em Fourier e implementado em Guise, norte da França.
Antes disso, Godin participara financeiramente, em 1855, do Falanstério de Victor Considerant, no Texas. Perdeu um terço de sua fortuna pessoal na experiência, aprendeu as lições e decidiu acertar, sem transigir com seu ideal. Era muito sensível à redistribuição da riqueza industrial aos trabalhadores. Queria que os trabalhadores tivessem o mesmo conforto dos burgueses. A partir de 1859, implementa a sua ideia em torno à sua fábrica em Guise. Funcionava como aprimorada cooperativa de produção.
Constrói o “Palácio Social”, estratégia de habitação mais do que moderna e dentro dele, foram instalados os “equivalentes de riqueza”, para reduzir o fosso entre as classes sociais. Aquecimento central, abastecimento de água, chuveiros e banheiros, iluminação a gás, era o conforto sem precedentes, conciliado com benefícios sociais como seguro saúde e aposentadoria.
Introduziu serviços compartilhados como berçário, lavanderia, piscina, etc., além de medidas destinadas a educar os residentes :escolas para todos, aulas noturnas para adultos, teatro, etc. Para fruir desses benefícios, independentemente da hierarquia funcional, todos os participantes da empresa tiveram acesso a eles.
O Familistério de Guise estendeu-se de 1859 a 1884 e durante esse período, a atividade da fábrica desenvolveu-se consideravelmente, chegando a empregar mais de mil e quinhentos trabalhadores. Quis implementar experiência similar em sua fábrica belga em Laeken.
Baseado em Godin, André Rebouças procurou conciliar as suas máximas com as de Augusto Comte. Godin propunha: fazer da existência humana o primeiro objeto da atenção social. Amar, venerar, respeitar e servir à existência humana. Protegê-la, acima de todas as coisas, no indivíduo, na família e na sociedade. Já os positivistas enunciam: Viver para outrem, Ordem e Progresso e viver às claras. A fórmula sagrada é “Amor por princípio, Ordem por base e Progresso por fim”. Tudo estaria sintetizado em “Viver para outrem é a definição de altruísmo”.
André Rebouças contribui ao afirmar que, rigorosamente, na religião da humanidade, a máxima fundamental deveria ser: Viver para a humanidade. Devotar a vida inteira ao bem-estar e ao aperfeiçoamento da família humana.
O herói do abolicionismo já convivia com os hipócritas. Sabia que a moral burguesa “consiste exatamente em explorar a humanidade para dar brilhantes à mulher, ricos dotes às filhas e deixar opulentas heranças para a família”. Evidente que esses sepulcros caiados não vivem para outrem e, muito menos, professariam a “Religião da Humanidade” ou a singeleza do ensino de Cristo: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”.
Talvez a única tentativa no Brasil de um certo Familistério foi a Indústria São Caetano, de Roberto Simonsen, preservada por seu filho Victor Geraldo. No mais, prevalece a invalidez do parasitismo e do absenteísmo, aristocracia e plutocracia atrofiam-se na volúpia e no furor da diversão permanente. A invalidez da gula, do alcoolismo, da luxúria, do jogo e da especulação prevalecem. É a miséria fisiológica dos plutocratas superalimentados, em providencial antítese à miséria fisiológica dos proletários. Alguma chance de mudança prenuncia-se nos dias vindouros?
