Irritação do lobby pró-armas deixa Donald Trump nu para apoiadores
O rei, ops, o presidente está nu. Os apoiadores de Donald Trump já tiveram outras oportunidades de enxergar que a roupagem de valores conservadores de seu líder era uma ilusão, mas permaneciam em negação. O modo de agir do ICE, a agência de imigração dos Estados Unidos que cada vez mais se parece com um grupo paramilitar trumpista, vem expondo a realidade aos poucos.

O primeiro pano a cair foi o respeito à autonomia dos estados. A desconfiança de que o governo central do país tende a querer avançar sobre a liberdade das administrações locais está enraizada no imaginário dos americanos — especialmente daqueles que se identificam com o Partido Republicano. Muitos aprovam sem ressalvas o plano de prender e deportar imigrantes, mas até neles começa a gerar incômodo a maneira como o ICE tem atropelado as determinações de autoridades locais, como ocorreu na Califórnia e no Minnesota, e ignorado garantias básicas, como a necessidade de ter mandados judiciais para entrar na casa das pessoas.
Na semana passada, desnudou-se mais uma contradição dos ideais supostamente conservadores do presidente americano (e nem vamos falar dos Arquivos Epstein). Organizações do lobby pró-armas repudiaram abertamente as falas de Trump sobre o direito dos cidadãos andarem armados em protestos contra o ICE. Na terça-feira, 27, Trump disse: “Você não pode ter armas. Você não pode andar com armas.” Ele se referia ao fato de que Alex Pretti, o enfermeiro que foi morto a tiros por agentes da patrulha de fronteira durante uma manifestação em Minneapolis, no Minnesota, no último dia 24, portava uma pistola 9 mm (apesar dele não ter sacado a arma em nenhum momento).
Kash Patel, diretor do FBI, a polícia federal americana, reforçou o argumento do presidente: “Você não pode trazer uma arma com vários carregadores de munição para qualquer tipo de protesto. Simples assim.” As falas são totalmente contrárias a tudo o que os defensores do direito do porte de armas sempre afirmaram.
A Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês), o principal grupo pró-armas dos Estados Unidos, publicou em suas redes sociais a seguinte nota: “A NRA acredita inequivocamente que todos os cidadãos cumpridores da lei têm o direito de possuir e portar armas em qualquer lugar em que tenham o direito legal de estar.”
Outra organização, a Donos de Armas da América (GOA, na sigla em inglês), escreveu: “Protestos pacíficos enquanto se está armado não são radicais — são americanos. A Primeira e a Segunda Emendas protegem esses direitos, e sempre protegeram.”
Trump disse certa vez que é “o melhor amigo que os donos de armas poderiam ter na Casa Branca”. De fato, do ponto de vista das leis e regulamentações que ele tem apoiado, sua atuação tem sido contrária ao controle de armas, como querem os lobistas da NRA e da GOA. Mas o teste da vida real está revelando uma postura que confirma os argumentos dos defensores da liberdade no uso de armas como forma de se defender da tirania do Estado.
O ex-presidente Jair Bolsonaro bebeu dessa fonte ideológica ao afirmar, em 2022: “Eu sempre digo a vocês: povo armado jamais será escravizado. Reagirá a qualquer ditador de plantão que queira roubar a liberdade do seu povo.” Mas e se o aspirante a ditador em questão for o próprio preferido dos defensores das armas, como fica? A tirania do ICE está causando dissonância cognitiva nos eleitores de Trump. Ele já está nu, só não vê quem não quer.
