6 de maio de 2026
Politica

Lula usa STF como palanque, ignora teia da crise do Master e faz Congresso de trampolim eleitoral

Não é praxe, mas o presidente da República pode falar na abertura do ano do Judiciário. Foi o que Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta segunda-feira, 2. O petista aceitou o convite da cúpula do Supremo Tribunal Federal (STF), que está em meio a um fogo cruzado em razão do escândalo do Banco Master, e usou os holofotes voltados à Corte para usar o STF como palanque eleitoral.

Como antecipou a Coluna do Estadão, havia uma expectativa entre os magistrados de que Lula se pronunciasse em defesa das instituições democráticas. Ele aproveitou o gancho, mas não para ressaltar que o Supremo precisa resgatar credibilidade e fazer autocontenção para garantir uma democracia plena no País. Em vez disso, Lula centrou o discurso nos motes de sua campanha de 2026, preso às críticas aos atos golpistas do 8 de janeiro e na retórica da defesa da soberania, para engajar a esquerda.

Lula ignorou a crise reputacional que o caso Master provoca no STF e impacta nos demais poderes. Seu discurso ficou até dissonante do que foi adotado pelo presidente do Supremo. Enquanto Edson Fachin usou tom contundente para defender um código de ética, autocorreção e ressaltar que os magistrados precisam prestar contas de seus atos, Lula preocupou-se em distanciar seu governo do caso Master e “bateu bumbo” sobre a operação Carbono Oculto e o trabalho da Polícia Federal na investigação dos crimes envolvendo gente grande da Faria Lima.

A ordem no Planalto é fazer mais barulho sobre isso para abafar as indagações sobre o encontro de Lula com o banqueiro Daniel Vorcaro e com o ministro relator do caso, Dias Toffoli. Ou sobre as relações de petistas baianos com o sócio do dono do Master, Augusto Lima.

A defesa mais direta que Lula fez para afastar o STF de críticas foi ao afirmar que o Judiciário não busca protagonismo ou toma para si atributos de outros poderes. Uma vez mais, porém, a declaração reflete muito mais os interesses do Planalto, pois há uma leitura recorrente no Congresso de que Lula e o STF atuam num 2×1 para a Corte legislar.

Mudança no TSE também foi alvo de Lula

O foco nas eleições contido no discurso do presidente Lula também revelou uma preocupação do presidente com a mudança de comando no Tribunal Superior Eleitoral. Pela primeira vez, no pleito de 2026 o TSE estará sob a presidência e vice de dois ministros indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro: Nunes Marques e André Mendonça.

A expectativa é de a atuação do TSE seja menos intervencionista. Além disso, Marques e Mendonça não têm o perfil de embate que marcou as eleições de 2022 e foi comemorado pelos petistas.

Lula aproveita mensagem ao Congresso como trampolim para as eleições

Na abertura do ano Legislativo, o presidente Lula seguiu a tradição. Enviou mensagem pelo ministro da Casa Civil, para ser lida no plenário. E também avançou com seu costume de transformar tudo em pauta eleitoral.

Lula enviou ao Congresso um calhamaço com 914 páginas. Foi o maior de todos no governo Lula 3, justamente a gestão que recebe mais críticas por falta de marcas.

O documento não sinalizou soluções para a crise que enfrenta com Câmara e Senado, mas faz um balanço de todas as ações que deseja fazer propaganda, sob o ponto de vista exclusivamente palaciano. Também reforçou o tema que quer levar para o palanque este ano: o fim da escala de trabalho 6×1. É o assunto que anima a militância, mas que ainda não encontra base econômica para ser aprovado, em razão do impacto que pode ter nos custos de produção e no emprego.

Mas quem se importa com a argumentação real em ano de eleições?

Lula sabe que o ano do Legislativo de 2026 começa com uma série de embates que o Planalto deverá enfrentar com Câmara e Senado. Nas pautas com foco de atrito há, por exemplo, a votação do veto do PL da Dosimetria, a indicação de Jorge Messias para a vaga no Supremo Tribunal Federal, e os textos da PEC da Segurança e PL Antifacção. E é um período curto, pois a partir do segundo semestre, os políticos estarão nas bases na corrida final pelos votos.

Além disso, está em meio aos desconfortos provocados pelas CPI do INSS, ainda em funcionamento, e os pedidos de comissão do Caso Master.

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura do ano do Judiciário 2026
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura do ano do Judiciário 2026

 

 

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