Tarcísio articulou contra aliado de Eduardo Bolsonaro em São Paulo
A relação entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o bolsonarismo não enfrenta desgaste apenas no plano nacional. Na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), o governador tem sido criticado por atuar contra a indicação do deputado estadual Gil Diniz (PL), um dos principais aliados de Eduardo Bolsonaro no Estado, à liderança do Partido Liberal na Casa. Procurado, Tarcísio não respondeu.
Conhecido como “Carteiro Reaça”, Diniz é um dos principais nomes da bancada bolsonarista na Alesp e foi apontado por Eduardo Bolsonaro como seu substituto na disputa pelo Senado em São Paulo. A movimentação do governador contra um aliado da família incomodou Eduardo, segundo pessoas próximas ao filho do ex-presidente.
A troca no comando da bancada do Partido Liberal na Assembleia ocorreu após o então líder, Carlos Cezar, ser indicado para o Tribunal de Contas do Estado (TCE). Segundo deputados do PL ouvidos reservadamente pelo Estadão, Tarcísio manifestou de forma explícita sua preferência por Alex Madureira a alguns parlamentares e, em outros casos, recorreu a auxiliares para deixar claro à bancada que o deputado era o seu escolhido. O movimento abriu caminho para que o deputado reunisse apoio suficiente e assumisse a liderança no fim do ano passado.

O principal argumento de Tarcísio, segundo esses deputados, foi político: o governador avalia que precisa de um aliado próximo e moderado à frente da maior bancada da Alesp e que a escolha de um nome independente e bolsonarista poderia dificultar a articulação do governo no Legislativo paulista em pleno ano eleitoral.
Apesar de integrar a base e votar com o governo, Diniz mantém uma postura crítica em relação a Tarcísio e já entrou em rota de colisão com o governador em mais de uma ocasião. Ao longo do mandato, fez críticas públicas, por exemplo, à manutenção de um integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) na vice-liderança do governo, ao pagamento de emendas parlamentares ao PT e à instalação de câmeras em uniformes de policiais. Segundo relatos, o governador já se queixou da atuação do deputado a pessoas próximas.
Ingratidão!
Por indicação da Deputada do PT, Thainara Faria, o Governador Tarcísio envia R$ 500 mil reais para município do inteiror e não recebe nem “Muito obrigado”.
A Deputada é forte opositora ao Governador, é contra a privatização da Sabesp, votou tudo contra o governo,… pic.twitter.com/01p9rbiMAu
— Gil Diniz (@carteiroreaca) December 1, 2023
Diniz contou a correligionários ter reunido 11 assinaturas para se tornar líder do PL no fim do ano passado. Ao protocolar o pedido, porém, foi informado de que dois deputados haviam retirado o apoio após pressão do Palácio dos Bandeirantes, o que inviabilizou a liderança do bolsonarista.
Críticos de Tarcísio dentro do partido acusam o governador de ingerência em outra bancada e dizem que o governador busca alguém “subserviente” a ele na liderança. Já aliados do chefe do Executivo paulista negam qualquer ingerência e afirmam que não há nada de errado em manifestar preferência por um deputado.
Bruno Zambelli é um dos que retiraram o apoio a Gil Diniz. Ele negou ter recebido qualquer pedido do governador e afirmou que houve um equívoco no momento da assinatura: disse ter entendido que o apoio era para Diniz suceder Alex, e não para substituí-lo. “Não tem nada a ver com o governador, ele não se meteu em nenhuma vez, sequer falou comigo.”
Com a retomada dos trabalhos na Assembleia, Diniz deve voltar a articular pela liderança. A escolha do líder é feita internamente pela bancada, com o apoio da maioria dos deputados do partido, e o cargo pode ser alterado a qualquer momento ao longo da legislatura, mediante nova indicação formal. A bancada do PL conta hoje com 20 parlamentares.
O líder de um partido é responsável, entre outras atribuições, por indicar os integrantes das comissões da Casa e participar do Colégio de Líderes, reunião em que se define quais matérias serão votadas nos próximos dias.
Madureira é visto no PL como um nome não ideológico. Bolsonaristas dizem que o parlamentar é ligado à agenda ESG, amplamente rejeitada pelo grupo de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O termo refere-se a ativos que, além de aspectos financeiros, consideram os impactos ambientais, sociais e de governança.
Ao Estadão, Madureira disse que pretende, à frente da liderança, atuar para manter a bancada unida. “Farei um trabalho para atender às demandas dos deputados independentemente de questões ideológicas. Pretendo ser líder de todos.”
Já Gil Diniz classificou como “absurda” qualquer “tentativa de interferência externa” em uma decisão de bancada. “Sou bolsonarista, faço parte da base do governador e tenho todas as condições de assumir a liderança da bancada do partido do presidente Bolsonaro na Alesp.”
Eduardo defende nome de Gil Diniz para o Senado
Diniz é o nome defendido por Eduardo Bolsonaro para disputar a vaga no Senado em seu lugar. O ex-deputado federal chegou a enviar uma carta ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, indicando o parlamentar paulista como seu sucessor.
Aliados de Diniz relatam, sob reserva, que o PL tem resistido a incluir o nome do deputado em pesquisas de intenção de voto.
Além dele, outros políticos do campo ideológico bolsonarista são cotados para a disputa, como o vice-prefeito de São Paulo, Coronel Mello Araújo, o deputado federal Mario Frias e o deputado federal Pastor Marco Feliciano.
