Centrão fatura mais relatorias em segurança pública na Câmara e sai na frente para 2026
BRASÍLIA – Se a segurança pública deve ser o foco do Congresso no primeiro semestre e um dos temas principais da eleição, o centro saiu na dianteira no que tange ao espólio da pauta na Câmara dos Deputados. Partidos desse espectro político – União, PP, PSD, Solidariedade e Avante – assinaram a redação de 20 dos 45 projetos que foram listados pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), como as principais aprovações do tema em 2025. O eixo central das proposições é a alteração do Código Penal, com agravamento de penas.
PL e PT, que prometem uma forte disputa em torno da segurança pública durante o pleito, receberam quase o mesmo número de relatorias sobre o assunto na Câmara: 8 e 7 projetos, respectivamente. Dos 45 projetos, cinco são de autoria do partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Destes, um foi relatado por partido aliado do Executivo, dois pelo Centrão e dois pela direita. Já a legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro foi responsável por apresentar dois textos, que acabaram relatados por partidos do Centrão.
A análise toma como base uma lista de 45 projetos que Motta exaltou ao longo do ano passado, especialmente após o tema esquentar na Câmara, com o rescaldo da operação que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro. O episódio deu tração à disputa política em torno do PL Antifacção, inclusive com antecipação do debate eleitoral.
Na avaliação da criminalista Ana Krasovic, o saldo da Câmara na área de segurança pública no ano passado traduz a aplicação do “puro Direito em sua função teleológico racional” – o legislar sobre “bens jurídicos” de acordo com “os acontecimentos e comportamento da sociedade”. “Não é possível pensarmos num caráter puramente eleitoral a aprovação das diversas leis aprovadas pela Câmara, na medida que a conduta da sociedade tornou necessária sua implementação”, anotou.
Na mesma linha, a coordenadora do curso de Direito da Unifesp, Maíra Zapater, avaliou que os projetos listados por Motta não podem ser classificados como um “pacote” sobre a segurança pública, vez que tratam de temas e problemas muito diversos. “Trata-se de um compilado de um monte de leis, o que é frequente em ano anterior ao ano eleitoral. Porque isso se conecta com as possibilidades de campanha política que esses membros do Legislativo podem vir a fazer no ano seguinte”, ressalta.
Projeto Antifacção é exemplo
O projeto de lei (PL) antifacção é um dos principais exemplos de como a relatoria de projetos, no Legislativo, pode reforçar discursos e embates políticos. Membro do Fórum Nacional de Segurança Pública, Rodrigo Azevedo considera que o texto representa uma das três dimensões predominantes nos projetos aprovados pela Câmara em 2025, de combate ao crime organizado, mas avalia que houve equívoco na escolha do presidente da Câmara para a relatoria.
Para o especialista, a designação do deputado e ex-secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo Guilherme Derrite (PP-SP) representou um confronto ao projeto inicial encaminhado pelo governo, devido à sua ligação política ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), adversário do presidente da República. “Não foi uma condução adequada para uma temática que tem sido prioridade no debate de política criminal”, avalia. “A atuação da Câmara acabou atrapalhando um avanço mais consensual em torno do tema.”
Centro é predominante nas relatorias
Partidos de centro somam o maior número de relatorias, por espectro político, não só quando se toma os 45 projetos listados por Motta, mas também quando se avalia o recorte de projetos que tratam do aumento de penas – eixo que é carro-chefe das aprovações no Legislativo. De 14 projetos que tratam, por exemplo, de alterações no código penal, 10 foram relatados por partidos do centro, três pelo PL e um pelo PT.
Dos 20 projetos que ficaram com o grupo, sete foram relatados pelo União Brasil, cinco com o PSD e quatro com o PP – principais expoentes do Centrão. O grupo não só ficou com a relatoria da maioria de projetos que trata de aumento de penas, mas também com projetos que alteraram o Código de Processo Penal e a Lei de Execução Penal, a Lei de Crimes Hediondos e o Estatuto da Criança e Adolescente – além de ficar responsável pelas propostas mais visadas sobre o tema, como o PL Antifacção.
Governo é autor de cinco propostas aprovadas
Dos projetos aprovados na Câmara sobre segurança pública em 2025, cinco são de autoria do governo. Dois destes têm alterações no Código Penal – um para tratar de qualificadoras de furto, que acabou relatado pelo PL, e o projeto de lei antifacção, cuja relatoria ficou com Derrite. Também há propostas relacionadas à tramitação de investigações, criação de carreiras no sistema de justiça e uma Medida Provisória com crédito extraordinário direcionado para o Ministério da Justiça.
Enquanto isso, o PT ficou com a relatoria de projetos relacionados a tramitação de processos e investigações – em casos de estupro de vulnerável, ou que envolvam agentes públicos e – e a crimes ambientais. O partido também relatou propostas que estabeleceram o sistema de garantia de direitos da criança e procedimentos para atendimento de mulher indígenas vítimas de violência.
PL conseguiu oito relatorias
Um dos projetos apresentados pelo partido do ex-presidente Jair Bolsonaro versou sobre medidas de segurança na identificação de chamadas e na ativação de chips de telefonia móvel para prevenir fraudes e golpes. O outro tipificou os crimes de extorsão por crime organizado e escudo humano, além de tratar de situações de flagrante e sobre investigações de crimes patrimoniais que envolvam o Pix.
Se a legenda apresentou duas proposições das 45 aprovadas na Câmara, recebeu a relatoria de oito projetos que versavam sobre: criação de qualificadoras de crimes de furto; tipificação de assédio sexual no Código Penal Militar; regras de progressão de regime de cumprimento de pena; atividades em presídios; destinação de bens imóveis de origem ilícita; protocolos de atendimento de crianças vítimas de violência em ambientes virtuais.
