11 de fevereiro de 2026
Politica

Eleição no DF tem estreia de Michelle, Ibaneis no foco, disputa aberta ao governo e esquerda rachada

A disputa eleitoral em 2026 no Distrito Federal marcará o primeiro teste eleitoral da primeira-dama Michelle Bolsonaro, aposta do PL ao Senado, enquanto o governador Ibaneis Rocha é pressionado pelo escândalo do Banco Master e da operação do BRB para salvá-lo.

Enquanto isso, com o PL fora da corrida ao Palácio do Buriti, despontam como candidatos a vice-governadora Celina Leão (PP) e o ex-governador José Roberto Arruda (PSD), em uma disputa hoje considerada aberta. Ambos buscam apoio do bolsonarismo para viabilizar suas candidaturas.

Já a esquerda está atrás tanto na corrida no Senado quanto na disputa pelo governo. Além do cenário desfavorável segundo pesquisas de intenção de voto, o campo está fragmentado.

Michelle deve estrear disputando o Senado

Priorizando a eleição para o Senado e com a decisão de Jair Bolsonaro de indicar o filho Flávio como nome ao Planalto, o PL aposta em Michelle no Distrito Federal. Até então, ela tem viajado o País, enquanto líder do PL Mulher, ala feminina do partido, e, em julho de 2025, alterou seu domicílio eleitoral para a capital federal, um requisito para se candidatar a um cargo eletivo pelo Distrito Federal.

Ao Estadão, a deputada federal Bia Kicis avaliou que o lançamento da pré-candidatura de Flávio à Presidência tornou “natural” que Michelle opte por se candidatar ao Senado do DF.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro sai da superintendência da Polícia Federal em Brasília após visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que estava detido no local, em dezembro de 2025
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro sai da superintendência da Polícia Federal em Brasília após visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que estava detido no local, em dezembro de 2025

“O foco do PL não é a Presidência, mas fazer maioria no Senado e na Câmara. Não queremos deixar nenhum voto que possa eleger senadores de esquerda”, afirmou Kicis.

O próprio PL espera a confirmação da candidatura de Michelle ao Senado, mas a ex-primeira-dama ainda não cravou que pretende disputar o cargo.

Para Joscimar Silva, professor de Ciência Política da UnB, Michelle tem evitado uma exposição que poderia prejudicá-la.

“Ela parece ter uma capacidade de articular nos bastidores, de fazer um trabalho que não aparece tanto e talvez isso irrite os filhos do Bolsonaro, porque assim vai ganhando corpo político e autonomia”, complementa o professor Vladimir Ferrari Puzone, também da UnB.

Ao contrário de Michelle, Bia Kicis expressou que gostaria de disputar o Senado pelo DF na eleição deste ano. A pré-campanha da deputada federal embaralha o cenário da outra vaga em disputa, que também é cobiçada pelo atual governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB). Até então favorito na disputa, sobretudo diante da reeleição ainda no primeiro turno ao governo em 2022, Ibaneis está sob foco de escrutínio em razão das relações do BRB com o Banco Master.

Para Joscimar Silva, Ibaneis mantém interlocução com faixas amplas do eleitorado, o que pode beneficiá-lo na disputa. “Apesar do Ibaneis falar com o eleitor bem bolsonarista, mais radicalizado, ao mesmo tempo ele se apresenta como gestor, não como político, e isso é bem recebido pelo eleitorado do DF”, explicou o professor da UnB. Joscimar Silva, professor de Ciência Política da UnB.

“Ibaneis tem total legitimidade de concorrer, assim como eu e Michelle. Vamos deixar o povo de Brasília decidir”, afirmou Bia Kicis.

Direita domina corrida ao Buriti

Mesmo sem a presença do PL pela sucessão de Ibaneis Rocha, dois nomes de direita despontam na corrida ao Palácio do Buriti: Celina Leão e José Arruda.

Celina é vice-governadora, herdeira do capital político do governador e dispõe do apoio do próprio Ibaneis e de Michelle Bolsonaro. Já Arruda, que se filiou recentemente ao PSD, é figura amplamente conhecida em Brasília, tendo representado a capital federal no Congresso durante as décadas de 1990 e 2000, além de já ter governado o DF.

O pré-candidato ao governo do Distrito Federal, José Roberto Arruda, durante o evento  de filiação ao Partido Social Democrático (PSD)
O pré-candidato ao governo do Distrito Federal, José Roberto Arruda, durante o evento de filiação ao Partido Social Democrático (PSD)

Por um lado, o ex-governador busca apoios de lideranças do DF para consolidar sua candidatura. Por outro, enfrenta um impasse jurídico para confirmar sua presença no pleito. “O apoio a Celina me parece uma escolha pessoal da Michelle e não partidária”, disse Arruda ao Estadão. Por essa razão, o ex-governador antém as esperanças de atrair apoios da sigla.

Porém, pairam problemas jurídicos sobre a possibilidade de Arruda participar do pleito. Ele foi condenado por um esquema de pagamento de propina em 2010. Em outubro de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou um recurso de Arruda que buscava anular a sua condenação por improbidade administrativa, mantendo-o inelegível até 2032.

Porém, com base em uma mudança recente na Lei da Ficha Limpa, o ex-governador acredita que poderá disputar as eleições de 2026. “Não tenho nenhuma dúvida quanto à (minha) elegibilidade”, disse.

Esquerda fragmentada

Na esquerda, despontam como opções ao governo do DF Leandro Grass (PT) e Ricardo Cappelli (PSB).

Grass é o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), responsável por restaurar peças destruídas durante a invasão ao Congresso. Cappelli foi secretário-executivo do Ministério da Justiça e foi interventor do DF após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Embora ambos já tenham lançado suas pré-candidaturas, PT e PSB ainda discutem uma possível aliança.

“Sem a unidade do campo não será possível ganhar as eleições de Brasília, pela força da direita com a máquina. Estamos dialogando com vários partidos: PSOL, Rede, PV, PCdoB, Cidadania, PSB e PDT — com a senadora Leila”, disse Grass.

Cappelli ressalta que busca alianças com todos que não apoiem Bolsonaro ou o governo Ibaneis. “Estamos conversando com PT, PDT, Solidariedade e Cidadania. Com a Paula Belmonte, o José Reguffe e o Cristovam Buarque.”

Ele afirma que será candidato ao governo, ainda que reconheça a importância de estar alinhado com o PT. Já Grass defende que a chapa seja liderada pelo PT, com seu nome para o Palácio do Buriti. As negociações não avançam porque nenhum dos dois pré-candidatos está disposto a abrir mão da cabeça de chapa, travando o processo de unificação.

Grass considera legítima a pré-candidatura de Cappelli, mas insiste que a esquerda precisa de unidade nacional e local para executar o projeto mais viável. Segundo ele, para entrar na disputa o campo progressista terá de ser pragmático, reunindo o maior número de forças políticas.

Já para o Senado a esquerda chegou a um consenso, com a deputada Erika Kokay (PT) e a senadora Leila do Vôlei (PDT), que são os nomes mais competitivos do campo.

Erika Kokay destaca essa aliança: “A perspectiva é que o PT lance apenas o meu nome para a pré-candidatura ao Senado. Mas buscamos compor um campo democrático popular para enfrentar a extrema direita. PSOL, PSB, PDT e Cidadania participam desse processo de diálogo e a pré-candidatura da senadora Leila está inserida nesse campo.”

Questionada pelo Estadão sobre a esquerda estar atrás nas intenções de voto recentes, a deputada diz que pesquisas são apenas retratos de momento e não representam o processo completo.

Erika não diz qual seu plano para vencer as eleições, apenas acredita na reação de sua base: “Brasília não pode ser representada no Senado por uma extrema direita obscurantista. Acreditamos no poder de mobilização da nossa militância e dos movimentos sociais. Estamos na disputa para ganhar, e tenho confiança no eleitorado do Distrito Federal.”

O PT enfrenta dificuldade de mobilização no DF desde as últimas eleições e essa fragmentação do campo reduz a capacidade do campo de concorrer. “A esquerda tem um limite de votos em geral no Brasil, algo cerca de um terço, mas no DF é ainda menor. Brasília é uma cidade rica e moderna, mas seus traços culturais do centro-oeste que votam mais à direita faz com que pareça eleitoralmente com Goiás”, explica o professor da UnB.

 

 

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