Turnê de Flávio na França visa aliança global e expor candidatura robusta ao mercado, dizem aliados
BRASÍLIA — Na viagem que faz à França desde domingo, 8, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem se encontrado com lideranças políticas, empresários e jornalistas conservadores numa tentativa de reforçar uma aliança global e convencer o mercado financeiro e descrentes na direita brasileira de que sua candidatura à Presidência da República é viável e influente, dizem aliados.
No roteiro de três dias há encontros com lideranças políticas como Eric Zemmour (a nova cara da direita francesa), Marion Maréchal (neta de Jean-Marie Le Pen e sobrinha de Marine Le Pen, presidente do partido Reagrupamento Nacional) e François-Xavier Bellamy (vice-presidente do partido Os Republicanos).

Zemmour é considerado um político ainda mais à direita dos Le Pen. Na eleição presidencial de 2022, quando concorreu pelo partido Reconquista, ganhou holofotes e apoiadores ao atacar o multiculturalismo, o feminismo e o islã. Ele chegou a ser condenado a uma multa de 10 mil euros por “incitar o ódio” contra migrantes.
Já Maréchal integra a mais tradicional família da direita do país, os “Bolsonaros da França”. Sua tia Marine chegou ao segundo turno nas duas últimas eleições presidenciais, sendo derrotada pelo atual presidente, Emmanuel Macron, em ambas as vezes. Maréchal é deputada no Parlamento Europeu pelo partido eurocético ECR (Conservadores e Reformistas).
A agenda de Flávio também inclui encontros com Thierry Mariani (ex-ministro e eurodeputado pelo Reagrupamento Nacional de Le Pen) e Sarah Knafo (correligionária de Zemmour, aficionada por criptomoedas e fã de Elon Musk), uma das poucas políticas francesas convidadas para a posse de Donald Trump na Casa Branca.
Flávio foi também recebido no Estúdio 5º Elemento — que preparou um espaço em Paris para entrevistá-lo ao vivo, por Arthur Machado e pelo comunicador Kim Paim, dono de um perfil com 1,7 milhão de seguidores no X e de um canal no Youtube com 835 mil inscritos.
Assim como a viagem ao Oriente Médio, o giro pela França visa inserir Flávio numa rede internacional de direita assim como Eduardo começou a fazer em 2018. Um aliado do senador diz, sob reserva, que ele “está construindo uma aliança global que vai estar de olho nas eleições do Brasil”, numa contraposição à baixa importância dada por Bolsonaro à política externa durante o seu governo.
O senador diz ter conversado sobre “segurança pública, agenda woke e ativismo judicial” com a eurodeputada. As investigações sobre tentativa de golpe de Estado que culminaram na condenação e na prisão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), são um dos assuntos mais presentes nas conversas com os franceses, segundo aliados relataram ao Estadão.
A visão de Flávio sobre o Brasil também foi exposta em público. Em entrevista ao canal de TV CNews, Flávio chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de “um grande violador de direitos humanos” e afirmou que o Brasil “não vive uma democracia plena”.
Ele disse que Bolsonaro foi julgado por ministros que, segundo ele, teriam motivos políticos para condená-lo, como Cristiano Zanin (ex-advogado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva), Alexandre de Moraes (“inimigo declarado” de seu pai) e Flávio Dino (ex-ministro da Justiça no governo Lula).
“O presidente Bolsonaro foi condenado por seus próprios inimigos. Ele foi alvo de uma grande farsa montada ao longo dos anos para tirá-lo de competição e perseguir pessoas de direita”, declarou ele.
A CNews é propriedade do bilionário Vicent Bolloré, magnata da mídia conservadora francesa — e com quem Flávio também teve um encontro, comemorado por aliados como demonstração de força. Além de Bolloré, encontros com Jean Bernadet (Grupo NGE), Benjamin David (XSun) e Stève Gentili (Grupo BPCE) e um encontro de relacionamento com empresários no clube Cercle de l’Interallié estiveram no roteiro.
Outro aliado que acompanha de perto a viagem afirma que Flávio está preocupado em consolidar seu nome no Brasil ao focar nas alianças internacionais, uma vez que alas dentro da direita (que defendem alternativas como Tarcísio de Freitas ou Michelle Bolsonaro à Presidência) travam uma “guerra interna” para desidratar sua pré-candidatura até abril.
Até essa data, desistir da empreitada se torna mais difícil, uma vez que se encerra o prazo para desincompatibilização de cargos públicos visando as eleições, algo que Tarcísio precisaria fazer se fosse concorrer ao Palácio do Planalto, por exemplo.
A leitura é que uma foto com Maréchal, Bolloré, uma das maiores fortunas da França, e outros empresários franceses, passa a mensagem para o mercado e a classe política brasileiros de que o senador “não está sozinho, e não tem só Trump como aliado”
Há a previsão de que Flávio volte a Europa nos próximos meses para visitas a países como Polônia, Hungria, Portugal e Bélgica. Ele também planeja estar na posse do presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, em março.
Embora haja críticas de apoiadores nas redes sociais de que Flávio deveria focar em percorrer o Brasil e não a Europa, o timing da viagem é defendido por seus companheiros. Eles dizem que o senador terá tempo para fazer viagens domésticas, e que vai ficar mais difícil sair do País na medida em que a campanha eleitoral se aproximar.
Flávio se lançou presidenciável sob desconfiança do mercado. O principal índice da Bolsa brasileira despencou após o anúncio, em 5 de dezembro, em meio à leitura de que sua empreitada seria inviável e não competitiva diante de Lula. Desde então, o senador tem marcado conversas com atores da Faria Lima para reforçar que irá até o fim e conseguirá ampliar o leque de apoio até outubro.
