Entre o frevo e o compasso: coordenação, impunidade e os riscos do combate à corrupção
No carnaval de Recife e Olinda, tudo parece caos. O frevo acelera, os bonecos gigantes ocupam as ladeiras, o maracatu impõe um ritmo ancestral e, ainda assim, nada acontece por acaso. Por trás da aparente desordem, há coordenação fina: cada nação sabe quando entra, cada orquestra conhece seu compasso, cada bloco respeita o tempo do outro. Sem isso, o que deveria ser festa vira atropelo.
O combate à corrupção em democracias vive um dilema parecido. Quando cada instituição dança sozinha – Ministério Público, Polícia Federal, Judiciário, órgãos de controle – o resultado costuma ser conhecido: processos que se arrastam, decisões que não chegam, elites desviantes que escapam. A falta de coordenação produz um ritmo lento, previsível e funcional à impunidade.

Mas há o outro extremo. Quando a coordenação se transforma em coreografia rígida demais, quando todos passam a dançar colados, no mesmo passo, o risco já não é a ineficiência, mas o abuso. O que parecia harmonia começa a soar como conluio. E o público – atento – percebe.
O problema se exacerba quando o “maestro”, que se espera liderança na condução magistral do processo, se contamina em conflitos explícitos de interesse pessoais e familiares. Ou seja, quando a liderança institucional deixa de inspirar confiança e passa a ser percebida como parte interessada no próprio processo.
É exatamente essa fronteira delicada que o Brasil vem testando nos últimos anos: até que ponto a sociedade aceita ações coordenadas do sistema de justiça para combater a corrupção, mesmo quando isso envolve custos para garantias legais fundamentais?
Os dados mostram algo desconfortável. Em abstrato, a maioria das pessoas apoia a coordenação entre juízes, procuradores e investigadores, mesmo quando alertada de que isso pode enfraquecer direitos dos réus. A percepção dominante é simples: diante de um histórico crônico de corrupção, eficiência importa – e muito.
O problema surge quando a coordenação ganha nome, rosto e memória política. Quando ela é associada ao Mensalão, à Lava Jato ou, mais recentemente, ao Banco Master, a reação deixa de ser técnica e passa a ser ideológica. A mesma engrenagem institucional passa a ser vista, por uns, como virtude; por outros, como ameaça. A polarização não muda apenas a avaliação dos resultados, mas redefine o próprio desenho institucional como objeto de disputa.
É como no carnaval: o frevo, para quem gosta de frevo, é energia e liberdade; para quem não gosta, é barulho e desordem. O mesmo ritmo, sentidos opostos.
Esse é o ponto central. A polarização desloca o debate da pergunta “funciona ou não?” para “quem controla o ritmo?”. A coordenação, que deveria ser um instrumento técnico para reduzir impunidade, vira símbolo político. E símbolos, em ambientes polarizados, raramente sobrevivem à lógica do nós contra eles.
O risco democrático não está em reconhecer que a fragmentação institucional alimenta a impunidade. Tampouco em admitir que ações coordenadas podem ser mais eficazes. O risco está em normalizar a ideia de que eficiência justifica qualquer atalho – ou, no extremo oposto, em rejeitar qualquer coordenação apenas porque ela lembra um passado politicamente indigesto.
O desafio é aprender com o carnaval pernambucano: intensidade sem atropelo, sincronia sem fusão, diversidade sem colapso. Coordenação não é todo mundo no mesmo passo; é saber quando entrar, quando sair e, sobretudo, quando parar.
Democracias que não enfrentam a impunidade apodrecem. Democracias que combatem a corrupção corroendo suas próprias regras também adoecem. Entre o frevo acelerado da justiça punitiva e o passo arrastado da inércia institucional, talvez o mais difícil – e mais urgente – seja aprender a manter o compasso.
