O que se sabe e o que falta Toffoli responder sobre ligação com Master e Vorcaro
O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), confirmou nesta quinta-feira, 12, que é sócio e recebeu dividendos da empresa que negociou com um fundo de investimentos ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Toffoli, no entanto, afirmou que não tem “relação de amizade” com Vorcaro e que “jamais recebeu qualquer valor” pago pelo banqueiro.
A declaração foi feita em nota divulgada após a Polícia Federal (PF) pedir, na quarta-feira, 11, a suspeição do ministro no caso envolvendo o Master, depois de encontrar menções ao nome do magistrado no celular de Vorcaro.
Além de citações ao nome de Toffoli em mensagens localizadas no aparelho de Vorcaro, a PF também identificou conversas entre o banqueiro e o ministro. A informação foi noticiada pelo site UOL e confirmada ao Estadão por pessoas com acesso aos resultados da investigação.
O gabinete do ministro confirmou, em nota, que a PF apresentou um pedido de declaração de suspeição para afastá-lo do caso e afirmou que a solicitação se baseia em “ilações”. A defesa de Vorcaro, por sua vez, disse que houve “vazamento seletivo de informações”.
Por que Toffoli assumiu o caso Master?
A PF investiga fraudes financeiras relacionadas ao Master desde 2024. A liquidação extrajudicial da instituição foi decretada pelo Banco Central (BC) em 18 de novembro, após a prisão de Vorcaro, que tentava deixar o País.
Dez dias depois, Toffoli foi escolhido, por sorteio, para ser o relator da Operação Compliance Zero no STF. O ministro acolheu, em 3 de dezembro, um pedido da defesa do banqueiro para que a investigação passasse a tramitar sob a gestão do STF, após a apreensão de documentos relativos a um negócio entre Vorcaro e o deputado federal João Carlos Bacelar(PL-BA), que tem foro privilegiado.
O ministro não determinou a suspensão das investigações, mas ordenou que a PF submetesse à sua avaliação todos os pedidos futuros de diligências ou atos investigativos. Na prática, ele passou a conduzir o andamento do caso.
A decisão, no entanto, contrariou o entendimento dos investigadores da PF, que sustentaram que, como não havia suspeitas em torno do negócio, não existiam elementos para manter a investigação no STF.

Qual a relação de Toffoli com Master e Vorcaro?
Toffoli negou ser amigo de Vorcaro, mas admitiu ser sócio e ter recebido dividendos da empresa Maridt Participações S.A., que foi sócia no resort Tayayá, em Ribeirão Claro, no Paraná, na divisa com São Paulo. O ministro disse que a empresa é de caráter familiar e que, embora integre o quadro societário, a administração fica a cargo de seus familiares.
O Estadão mostrou que os irmãos de Toffoli, José Carlos Dias Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli, são administradores da empresa e venderam uma participação milionária no empreendimento ao Arleen Fundo de Investimentos, da Reag Investimentos, investigada por abrigar estruturas de fundos ligados ao Master e suspeitos de sonegação bilionária no mercado de combustíveis.
O único cotista do Arleen era o fundo de investimentos Leal, que, por sua vez, tinha como único cotista o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.
Além dos irmãos de Toffoli, Mario Umberto Degani, primo do ministro, também já teve participação no Tayayá. Enquanto José Carlos e José Eugênio foram incluídos no empreendimento em 2021, Degani já era sócio do Tayayá desde a sua fundação, em 1999. Ele também fundou a DGEP Empreendimentos e Participações, que recebeu investimentos do Arleen.
Com que recursos o resort foi construído?
O Tayayá está situado às margens da represa de Chavantes, em uma área com mais de 400 quilômetros de águas cristalinas, cachoeiras e dezenas de ilhas. O resort conta com uma pequena praia artificial, onde se pode andar de caiaque, duas piscinas aquecidas, duas saunas, toboágua, duas marinas, onde é possível fazer passeios de lanchas, e diversos bares e restaurantes.
A casa em que Toffoli fica hospedado no resort custa R$ 750 mil por cota – cada casa tem 13 cotas, e cada cota dá direito a quatro semanas de estadia por ano. Os custos para levantar uma estrutura desse nível, no entanto, nunca foram revelados, nem a origem do dinheiro investido.
Os valores e o luxo da propriedade contrastam com a casa em Marília, no interior de São Paulo, registrada como sede da Maridt. O imóvel, que apresenta sinais de deterioração, é onde moram José Eugênio e sua esposa, Cássia Pires Toffoli. O Estadão foi até o local. Questionada, Cássia negou que o local fosse sede da empresa e que seu marido fosse sócio do resort.
Com que dinheiro Toffoli e os irmãos entraram na sociedade?
Documentos da Junta Comercial do Paraná mostram que a Maridt chegou a ter uma parcela de R$ 1,37 milhão na Tayayá Administração e outros R$ 5,4 milhões na DGEP Empreendimentos. A origem do dinheiro utilizado para bancar o investimento, porém, não foi esclarecida até o momento.
José Carlos Dias Toffoli é padre em Marília. Já José Eugênio é engenheiro e chegou a prestar serviços para a Queiroz Galvão, empreiteira envolvida na Operação Lava Jato, entre 2008 e 2015. Ele não foi denunciado na operação.
Em 2021, ano em que a Maridt se tornou sócia do Tayayá, a remuneração bruta de Toffoli era de R$ 39.293,32, de acordo com dados disponíveis no Portal da Transparência do STF.
Por que Fabiano Zettel comprou a participação de Toffoli?
Ainda segundo documentos da Junta Comercial do Paraná, o Arleen comprou metade da participação societária da Maridt na Tayayá e na DGEP, que era de R$ 6,6 milhões, em setembro de 2021. O que motivou a venda para Zettel é outra questão que ainda deve ser esclarecida por Toffoli.
Em fevereiro do ano passado, os Toffoli alienaram o saldo remanescente que ainda tinham na Tayayá à empresa PHD Holding. Em nota, o ministro afirmou que “tudo foi devidamente declarado à Receita Federal do Brasil e que todas as vendas foram realizadas dentro de valor de mercado”. Ele disse ainda que desconhecia o gestor do Arleen.
Atualmente, nem o Arleen nem a família de Toffoli permanecem formalmente na sociedade. Todas as quotas foram cedidas para o advogado goiano Paulo Humberto Barbosa – que hoje é único sócio das empresas.
