14 de fevereiro de 2026
Politica

O bem cobra sangue

Quem se propõe a empunhar uma bandeira com vistas à realização de um bem, fique certo de que encontrará toda sorte de dificuldades. O mal se instala na consciência e no bolso da maioria e não é tarefa simples desalojá-lo de lá. Que o digam os brasileiros que arrostaram a elite e a riqueza, quando sustentaram a urgência da abolição da escravatura.

De um lado, a legião de proprietários de escravos, acostumados a enriquecer à custa do suor e sangue humano. De gente que não era considerada “pessoa”, mas tinha a categoria se “semovente”, de coisa, de objeto, de suscetível de ser apropriado por quem detivesse o status de ser humano.

Os mais corajosos foram Joaquim Nabuco e André Rebouças. Ambos foram as mais respeitáveis figuras da abolição. Nabuco foi o grande orador, o parlamentar combativo, o conferencista emérito, o batalhador estrênuo, o abolicionista aguerrido e também o grande teórico do tema. Ele considerou André Rebouças, dentre todos, como o que teve o “maior papel”, “o mais belo de todos”, ainda que oculto, movido e calculado por medidas estritamente interiores. As palavras de Nabuco são um hino de exaltação a André. Nelas se expande convicção, reconhecimento, certeza, altitude.

A presença espiritual, cultural e material de Rebouças sentia-se em tudo e em todos. Naquilo que escrevia, como nas providências que articulava. Nas colocações e textos dos trabalhos que mandava para os jornais. Propunha alternativas econômicas, soluções comunitárias, decisões no âmbito municipal. Não contribuiu apenas no agenciamento, coordenação e despesas pessoais, o que já seria muito. Mas era uma inspiração, um guia e um farol. Mesmo depois da abolição, continuou a trabalhar. Apoiou e encaminhou a massa tornada livre, uma tarefa inglória numa fase regressiva para a economia e, consequentemente, para o Erário.

De seu diário se extrai a intensidade da atuação que o converte no principal patrono da libertação do elemento servil.

Em 1884, por exemplo, fez contatos com o Visconde de Paranaguá, para promover a libertação na província do Amazonas. Foi a Petrópolis e Entre-Rios para providências com os emancipados da Condessa Rio Novo. Elaborou a propaganda sobre a nacionalização do solo, com redação de artigos para os jornais, inclusive a Gazeta da Tarde. Assumiu a presidência do Centro Abolicionista da Escola Politécnica.

Anota como circunstância auspiciosa: “Neste ano fui quase cotidianamente injuriado no Senado e na Câmara pelos escravocratas”. É um testemunho gritante: a atuação de Rebouças era tão efetiva e consequente, que perturbava os parlamentares e áulicos do regime.

Em maio, Joaquim Nabuco voltava de Londres. O chefe de polícia impediu “préstito nas ruas” para recepcioná-lo. Rebouças não esmorecia. Intensificou a produção jornalística. Fez publicar na Gazeta de Notícias o Manifesto da Sociedade Central de Imigração, que ele mesmo elaborara. Fez com que Taunay também o apresentasse na Câmara.

Tudo isso sem descuidar de sua amizade com o Imperador Pedro II, que era abolicionista, mas se sentia enredado pelo Conselho e pelo pessoal que em regra regurgita em torno ao detentor do poder.

Rebouças se tornava cada vez mais amargurado. Impressionou-se com um texto de Cristiano Otoni, que observou que “raras crias vingavam nas fazendas”. Nas fazendas, as crias que vingassem eram do administrador. Estamos falando de bebês humanos, filhos das escravas. As que não perdiam suas crias, não eram dispensadas da enxada. As duras fadigas impediam em algumas o regular desenvolvimento do feto. Em outras, minguava a secreção do leite. Este, muitas vezes, era usado para as crianças brancas.

De tudo resultou o saldo trágico de vidas perdidas e a indignação de André Rebouças, também negro, diante do destino de sua raça. Perdeu saúde, perdeu o escasso patrimônio que conseguiu amealhar, perdeu sangue. Mas viu a Redentora assinar a abolição em 13 de maio de 1888. Pouco antes, chegara a admitir: “Os mais sanhudos escravocratas confessam hoje, publicamente: a escravidão é um cancro”.

O cancro persiste sob outras formas: miséria, exclusão, invisibilidade. Quando é que vamos nos livrar dele?

 

 

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