11 de março de 2026
Politica

Planalto tenta drible eleitoral na escala 6×1 para aprovação de projeto a toque de caixa

Embora as duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que tramitam na Câmara sobre o fim da escala 6×1 de trabalho sejam de autoria de aliados do governo, o presidente Lula quer enviar ao Congresso um novo projeto, em regime de urgência. O objetivo é garantir a votação rápida para que a proposta vire bandeira da campanha à reeleição.

Um projeto de lei tramita com mais celeridade, mas não altera a Constituição, o que pode provocar insegurança jurídica. Mesmo assim, integrantes do governo minimizam essa possibilidade. “Quanto mais propostas, melhor: o importante é aprovar o mais rápido possível”, afirmou um assessor de Lula.

O súbito interesse do Palácio do Planalto em enviar um projeto de lei que trate do tema, diante da preocupação de que a PEC não ande na velocidade desejada, provocou estranheza no Congresso. Consultores legislativos ouvidos pela Coluna do Estadão disseram não entender, por exemplo, o benefício técnico da aposta do governo para substituir textos que já estão na Câmara.

Autora da PEC diz que proposta traz mudança profunda

As propostas que tramitam apensadas, e foram enviadas à Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) da Câmara pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), são de autoria dos deputados Erika Hilton (SP), do PSOL, e Reginaldo Lopes (MG), do próprio PT. Reginaldo apresentou o texto em 2019.

Além de mudar a Constituição, a PEC promove debates mais amplos entre parlamentares e também com a sociedade, mitigando o risco de questionamentos futuros no Supremo Tribunal Federal (STF).

“Acho que projeto de lei pode acelerar a discussão e entrega, mas apresentei PEC. Defendo uma mudança profunda e estrutural”, afirmou Erika.

Para advogado, emenda constitucional dá mais segurança

A ideia de maior consenso no governo é reduzir a jornada de trabalho das atuais 44 horas semanais para 40 horas por semana. A Constituição diz que a duração do trabalho não deve ser “superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais”.

Para o advogado trabalhista Daniel Landim, do escritório COSRO, como o projeto que o governo pretende enviar vai dar mais direitos ao trabalhador, e não retirar benefícios já garantidos no artigo 7.º da Carta Magna, a margem de questionamento jurídico é “mínima”. Ele afirma, porém, que o mecanismo mais seguro para ampliar os direitos trabalhistas é uma PEC.

“Embora a Constituição esteja acima na hierarquia das normas, se existe lei que prevê uma condição mais benéfica para o trabalhador, e a Constituição protege o trabalhador, o espaço para questionamentos se reduz muito. Não vou dizer que não existe, mas fica mais limitado”, argumentou Landim.

Governo aposta em negociação com Motta

O governo demonstra preocupação com o trâmite da PEC na Câmara, que, além da admissibilidade na CCJ, envolve também a criação de uma comissão especial para debater o mérito da proposta. Depois, o texto segue para apreciação do plenário, onde precisa ser aprovado por 308 votos, em dois turnos de votação.

Já um projeto de lei que tramita em regime de urgência pedido pelo presidente da República precisa ser votado em até 45 dias na Câmara, e mais 45 dias no Senado, ou passa a travar a pauta do Congresso.

Inicialmente marcada para quinta-feira, 12, a conversa entre Lula, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, e Hugo Motta acabou ficando para depois do carnaval por “incompatibilidade de agendas”.

Auxiliares do presidente observam, porém, que hoje há espaço para negociar com o presidente da Câmara. A avaliação no Planalto é de que existe margem para conversa com Motta sobre o projeto e o importante é garantir “condições de trâmite célere e de aprovação”.

A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) é autora de uma PEC que altera a escala com seis dias de trabalho e um de descanso.
A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) é autora de uma PEC que altera a escala com seis dias de trabalho e um de descanso.

 

 

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