17 de fevereiro de 2026
Politica

É positivo para o País que o carnaval seja capturado pela retórica ‘dura’ da política?

O tema da semana foi o desfile pró-Lula no Rio de Janeiro, no carnaval carioca. São duas questões que me parecem muito distintas sobre este tema. Uma questão diz respeito à crítica cultural. E a partir da seguinte pergunta: é desejável para o País que o carnaval, uma festa popular por excelência, da espontaneidade popular, seja capturada pela política? Ou seja, que um partido, um candidato, um pré-candidato, seja ele no Estado, no município, na União, não importa, tenha lá a sua escola de samba que faça o proselitismo a seu próprio favor?

Na minha interpretação, isto é um tanto grosseiro. Foi um pouco do que se viu lá na Sapucaí. Não é um problema de você ter a crítica, a irreverência política, que sempre fez parte do carnaval. É a captura. É o discurso grosseiro, duro da política subordinando o samba-enredo. Subordinando, inclusive, a lógica toda da própria crítica política. Que passa a ser uma espécie de correia de transmissão da ideologia política.

Desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que decidiu homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na avenida
Desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que decidiu homenagear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na avenida

Mas isto é apenas uma opinião. Isso vale para a esquerda, vale para a direita. Seria tão grosseiro como foi no caso do Lula se fosse para o Bolsonaro. Ou se fosse para o ex-presidente Fernando Henrique. Ou se fosse para o ex-presidente Temer. Ou se fosse para algum candidato ao governo dos Estados. Imagina uma peça pró-Tarcísio, uma peça pró-Eduardo Paes, uma peça pró-Ratinho Júnior, uma peça pró-qualquer um. João Campos lá em Recife. Então a gente teria um carnaval pré-campanha eleitoral. Poderia ter cada escola de samba a favor de um candidato, assim por diante. E aí não faz nenhuma diferença que é o Lula.

Eu vi uma advogada dizendo: “Olha, mas o Lula é muito importante. É um político muito importante”. Olha, as leis de um País não podem ser feitas a partir da opinião. Da opinião que a gente tenha a favor ou contra qualquer político. Pelo menos não deveria isto acontecer.

Outra coisa é o padrão que se cria. Se o País aceitar este procedimento, ou seja, que está tudo ok com desfiles carnavalescos politizados ou pré-campanha política, significa o seguinte: daqui a dois anos a gente vai estar numa pré-campanha eleitoral para os municípios. São 5.500 municípios no Brasil. Significa que qualquer prefeito, qualquer vereador, qualquer deputado na sua base eleitoral está autorizado, ou estaria autorizado, a ter o seu desfile, a sua escola de samba fazendo lá uma hora de samba enredo, de desfile a seu favor. Contando a sua história, as suas obras, a sua realização, as suas magníficas ideias, o seu jingle eleitoral. O seu número de campanha. Esculachando os seus adversários com dinheiro público e com dinheiro da própria prefeitura.

Isso é legal para o País? Isso fere o princípio da impessoalidade na Constituição? Isso é um tipo de abuso de poder político, de poder econômico? Isso configura a pré-campanha eleitoral? (Com) jingle de campanha, número do candidato, o candidato descendo lá, abraçando todo mundo, transmitindo pela televisão, pelo rádio? Enfim, são perguntas que o País precisa fazer. Agora, seja qual for a resposta que a gente dá, a gente dê para essa questão, tem uma questão que na minha visão é inadmissível em qualquer democracia republicana: uma coisa chamada dois pesos e duas medidas.

 

 

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