18 de fevereiro de 2026
Politica

Empresa de PM investigada por proteção a empresário ligado ao PCC atuou em campanha de Russomanno

A empresa AM3 Segurança e Vigilância atuou na campanha do deputado federal Celso Russomanno (Republicanos) à prefeitura de São Paulo em 2016 e recebeu R$ 375 mil pelo serviço, oferecendo, segundo o parlamentar, segurança feita por policiais militares, o que é ilegal. A empresa está em nome da mãe do tenente-coronel José Henrique Martins Flores, que foi alvo de buscas na Operação Kratos, deflagrada no último dia 4.

O tenente-coronel José Henrique Martins Flores é um dos PMs que foram alvo de busca e apreensão em razão do esquema de segurança mantido por policiais para empresários acusados de ligação com o PCC
O tenente-coronel José Henrique Martins Flores é um dos PMs que foram alvo de busca e apreensão em razão do esquema de segurança mantido por policiais para empresários acusados de ligação com o PCC

A empresa emitiu notas fiscais para justificar o pagamento de PMs que cuidavam da segurança de empresários acusados de ligação com o Primeiro Comando da capital (PCC), o que levou à Corregedoria da PM a investigar a participação do coronel no esquema. A AM3 teve seus sigilos bancário e fiscal quebrados por ordem da Justiça Militar. E sua sede, em Santana, também foi alvo de buscas. A informação sobre a prestação de serviço a políticos consta de relatório do centro de Inteligência da PM ao qual o Estadão teve acesso.

O documento trata da campanha de 2016 do deputado Russomanno. Ao Estadão, o deputado afirmou ter conversado com a direção do partido e que ninguém na legenda se lembra como é que foi o processo de escolha, se alguém indicou a empresa à sigla, mas acreditava que a AM3 vencera uma espécie de concorrência. “Eles ofereceram policiais para trabalhar para a gente que faziam bico no horário de folga”, afirmou o deputado.

Russomanno disse que sofria ameaças constantes, inclusive de criminosos ligados à facção, daí a necessidade do serviço durante a campanha. O deputado lembrou que, na época, não havia nada que desabonasse a empresa e afirmou que todas as certidões de regularidade com a Receita e a previdência foram apresentadas pela companhia. É justamente sobre o uso de policiais militares em atividade ilegal de segurança que o documento do CIPM se detém a maior parte do tempo.

Celso Russomanno foi candidato a prefeito e disse que a responsabilidade pela contratação da empresa foi de seu partido.
Celso Russomanno foi candidato a prefeito e disse que a responsabilidade pela contratação da empresa foi de seu partido.

Além de Russomanno, também é citada uma suposta relação de proximidade entre o tenente-coronel e o ex-deputado federal Gabriel Chalita. De acordo com o documento do centro, o oficial teria participado da campanha do então deputado à Prefeitura de São Paulo em 2012. A reportagem também procurou Chalita, mas não obteve resposta. Também procurou o tenente-coronel, mas não conseguiu localizá-lo. O espaço permanece aberto.

O documento do CIPM mostra que deve 24 de janeiro de 2006 o então tenente Martim já era suspeito de fazer serviço ilegal de segurança, conforme consta de anotação na ficha do oficial no centro. Entre os eventos que ele teria participado como segurança estava o Carnafacul, quando foi surpreendido por um major. O oficial alegou que estava ali com uma camiseta escrito Grupo Nobre Segurança apenas para entregar convites a pedido de um coronel.

Em 2012, o centro registrou outra denúncia contra o oficial em razão da suposta atividade como segurança, em um evento no Anhembi, na zona norte de São Paulo. O documento lista duas empresas de segurança para as quais o oficial prestaria então serviços. Em maio daquele ano, foi registrada a suposta participação na campanha de Chalita.

“Trabalha na campanha eleitoral de Gabriel Chalita à prefeitura de São Paulo e há comentários de que está aliciando policiais militares da Assessoria policial do Tribunal de Justiça para auxiliarem na campanha pagando R$ 300. É amigo particular de Chalita e do padre Fábio de Mello”, afirma o documento.

A sede da AM3, na Rua da Força Pública, em Santana: empresas do grupo estão registradas em nome da mãe e do cônjuge do tenente-coronel Martins
A sede da AM3, na Rua da Força Pública, em Santana: empresas do grupo estão registradas em nome da mãe e do cônjuge do tenente-coronel Martins

Só em 2021, o centro registrou na ficha do oficial que haveria indícios de que Martins exercia “atividade extra corporação na AM3 Segurança e Vigilância”. Também naquele ano, sua ficha registra contatos com políticos do então PSC que pretendiam se candidatar em 2022. “Ele (Martins) comenta no ambiente de trabalho que já trabalhou em campanhas eleitorais e que já recebeu grandes quantias de dinheiro pelos serviços prestados aos candidatos”, registrou o centro, mostrando que os passos do oficial eram vigiados pela corporação.

O centro levantou na época o patrimônio do oficial e registrou um apartamento avaliado em R$ 3 milhões, onde ele viveria com o marido, Rafael Freire Bezerra da Silva, em nome de quem está registrada a empresa Pro Mais Facilities, também investigada pela Corregedoria da PM – ela também foi alvo de buscas e teve o sigilo quebrado na Operação Kratos. Martins é casado com Silva em comunhão universal de bens, conforme certidão do registro civil de Santana. A certidão foi incluída na investigação para demonstrar a ligação entre o dono da empresa e o oficial.

O fato de o coronel manter uma empresa de segurança e usar policiais na segurança contraria a lei que veda aos policiais trabalhar como segurança particular. No caso atual, a Operação Kratos levou para cadeia o chefe da Assessoria Militar da Câmara dos vereadores de São Paulo, capitão Alexandre Paulino da Silveira, e dois sargentos – um da ativa e outro da reserva.

Eles são acusados de envolvimento com um esquema que forneceu proteção aos empresários Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, e Cícero de Oliveira, o Té. Os dois são diretores da empresa de ônibus Transwolff, que teve seu contrato com a Prefeitura de São Paulo cancelado em razão da acusação de que servia para lavar dinheiro do PCC. A empresa e seus diretores foram alvos da Operação Fim da Linha, do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), em 2024.

O organograma feito pela Corregedoria da Polícia Militar no qual são listados sets PMs investigados, entre os quais o tenente-coronel Martins Flores e o capitão Alexandre, além de Pandora e de Té, dois diretores da empresa Transwolff que eram protegidos pelos PMs
O organograma feito pela Corregedoria da Polícia Militar no qual são listados sets PMs investigados, entre os quais o tenente-coronel Martins Flores e o capitão Alexandre, além de Pandora e de Té, dois diretores da empresa Transwolff que eram protegidos pelos PMs

Uma nota fiscal da AM3 foi dada pelo capitão à Transwolff para justificar o pagamento aos policiais. Além disso, a Corregedoria constatou que funcionários com uniforme da empresa de segurança continuavam prestando serviços para a Transwolff até janeiro deste anos, dois anos depois de a relação de diretores da empresa com o PCC ser alvo da operação Fim da Linha.

A Corregedoria apurou ainda a ligação dos policiais com o ex-presidente da câmara dos vereadores, Milton Leite (União Brasil). Em conversas gravadas, os PMs que dariam proteção aos empresários se referem ao “chefe Milton”, que, segundo a Corregedoria, sé uma menção ao ex-vereador. Ao Estadão, Milton Leite negou conhecer os policiais ou usá-los como segurança enquanto era presidente da Câmara.

 

 

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