19 de fevereiro de 2026
Politica

Solução do caso Master empurra STF para crise sobre vazamento de dados de ministros

A intenção de Edson Fachin era retirar o Supremo Tribunal Federal (STF) do centro do escândalo do Banco Master. De forma pouco usual, convocou uma reunião a portas fechadas. Dias Toffoli foi convencido a deixar a relatoria do caso, mas a solução não neutralizou a crise interna do tribunal. Ao contrário, alimentou outra guerra.

A tática de Fachin contrariou interesses do grupo de Toffoli, que tem entre os componentes Alexandre de Moraes. Quatro dias depois da reunião secreta, estourou a notícia de que Moraes havia mandado a Receita Federal rastrear a origem de supostos vazamentos de dados sigilosos de ministros do Supremo e seus parentes.

Edson Fachin e Alexandre de Moraes pertencem a grupos diferentes no STF
Edson Fachin e Alexandre de Moraes pertencem a grupos diferentes no STF

Nos bastidores, três aliados de Fachin ficaram incomodados. Para eles, caberia ao presidente da Corte tomar decisão desse tipo. Moraes já havia polemizado em janeiro, quando inseriu a apuração que mira a Receita e o Controle de Atividades Financeiras (Coaf) no inquérito das fake news, do qual já era relator, sem consultar a Procuradoria-Geral da República (PGR).

O enredo e os personagens repetem a gênese do inquérito das fake news, em 2019. Dias Toffoli era presidente do Supremo e, sem ouvir a PGR, abriu uma investigação para apurar ataques a integrantes da Corte. Preferiu não sortear o relator e deu a tarefa a Moraes.

Na época, ministros do Supremo criticaram a forma como o inquérito foi aberto. Quase um ano e meio depois, mudaram de ideia. Por dez votos a um, o plenário decidiu manter a apuração aberta. O aumento dos ataques aos integrantes da Corte e a chance de punição aos culpados motivaram a virada de chave.

A investigação sobre sobre os órgãos de fiscalização do governo federal também pode parar no plenário do STF se ela tiver a legitimidade contestada. Foi o que aconteceu com o inquérito das fake news.

A ação julgada em 2020 foi proposta pela Rede Sustentabilidade. No voto, Fachin observou que o inquérito era atípico, mas ponderou que a excepcionalidade era aceitável diante da omissão da Polícia Federal e da PGR para investigar crimes contra ministros do Supremo.

Duas diferenças em relação ao inquérito das fake news podem comprometer o caso da Receita e do Coaf. Primeiro, quem abriu a investigação atual foi o próprio relator, não o presidente do tribunal. Segundo, o tribunal estava sendo atacado como um todo em 2019. Até agora, os vazamentos detectados referem-se à esposa de Moraes e a uma enteada de Gilmar Mendes – que, por sua vez, é aliado do relator.

No voto de seis anos atrás, Fachin deixou uma recomendação útil ao STF de hoje, que se habituou a tomar decisões pouco usuais para justificar os fins: “É preciso precatar-se para que a dose do remédio não o torne um veneno”.

 

 

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