2026: o carnaval dos camaleônicos
A Imperatriz Leopoldinense entrou em cena na Marquês de Sapucaí com um desfile campeão. Porque Camaleônico é o nome do seu enredo e camaleão é o que nós precisamos ser para vingar e viver. Quem não muda de pele não resiste às cambalhotas que a vida dá–intempéries, guerras… Mais do que nunca a ordem hoje é se adaptar.
O Carnaval é a festa de que o planeta não prescinde não só pela alegria que ele difunde mas porque a festa exalta como Ney Matogrosso – brasileiro mesopotâmico, intergalático – a transfiguração. Nada é tão necessário quanto ela e o Carnaval mostra todo ano que nós somos mais do que capazes de nos transfigurar. Através dele, o país rememora a sua história e se reinventa, apropriando-se da cultura que tem e do que o progresso tecnológico oferece. No desfile há espaço para benzedeiras, babalaôs, mães de santo, mas também os drones. Por que não? Se o drone existe porque a escola de samba não se valeria dele para fazer o homem voar e o espectador deslumbrado ver o céu? Tudo é possível e é por isso que a festa se perpetua.
Joãosinho Trinta dizia que o Carnaval é o milagre brasileiro e Jorge Amado exaltava o samba dizendo que ele é o nosso denominador comum. Os dois não são nordestinos por acaso. Pode o nordeste não ter os recursos básicos necessárias, mas ele tem uma cultura de que o Brasil não pode prescindir.
A alegria que o Carnaval propicia é tão importante quanto a esperança que ele dá, mostrando o quão solidários e inclusivos nós podemos ser. Nos dias da festa, a brincadeira é para todos e a contracultura de massa que nos caracteriza flui através dela. A cultura do Carnaval, como dizia Joãosinho Trinta, é a do brincar que deixa estar a ambivalência, a exemplo da letra de samba da Imperatriz Leopoldinense: Sou meio homem, meio bicho/O silêncio e o grito/ Pássaro, Mulher. Ney Matogrosso, o grande homenageado, encarna uma cultura que faz pouco do gênero, realiza o desejo de ser mulher sem deixar de ser homem, faz a sátira da alternativa implícita na diferença sexual, a de ser necessariamente isto ou aquilo.
Escrevi Os Bastidores do Carnaval há três décadas por ter tido a sorte de ser interlocutora de Joãosinho. Para escrever fui aos barracões escutar os carnavalescos, cujo saber é precioso e até hoje não foi devidamente valorizado, como se não precisasse ser. Felizmente a televisão transmite o desfile, mas a transmissão não está à altura da realização das escolas de samba. Verdade que as mulheres que rebolam a bola são maravilhosas e os passistas são de deixar o queixo caído, porém a concepção que sustenta o desfile é negligenciada. Tudo se passa como se ela não existisse.
Já está mais do que na hora de fazer o making of do desfile que é uma ópera de rua, como dizia Joãosinho: “O diretor é o carnavalesco. O maestro é o mestre da bateria. A orquestra é a bateria. O libreto é o enredo. O corpo de baile são os passistas. Os personagens principais da ópera são os destaques. A cenografia são os carros alegóricos.”
