Nikolas faz dobradinha com candidato de Zema em Minas enquanto Flávio segue sem palanque no Estado
Nome dos sonhos de Flávio Bolsonaro (PL) para o palanque em Minas Gerais, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) não apenas resiste à pressão para ser candidato como tem ajudado uma candidatura a governador cujo principal compromisso político é apoiar a candidatura presidencial de Romeu Zema (Novo).
Desde o final do ano passado, Nikolas faz uma dobradinha com Mateus Simões (PSD), vice-governador que na prática governa o Estado nos últimos meses. Ele tem liberado recursos para atender a demandas por obras e outras ações apresentadas pelo parlamentar bolsonarista.
O movimento mais explícito ocorreu nesta semana. Nikolas convidou o vice-governador para acompanhá-lo na quinta-feira, 19, em anúncios de investimentos que totalizaram R$ 54 milhões em Juiz de Fora (MG) e Ponte Nova (MG).

Embora os recursos sejam do governo estadual, os eventos são tratados pelos próprios aliados de Simões como agendas organizadas pelo deputado federal. A viagem termina nesta sexta-feira, 20, em São João del Rei (MG), município governado por um prefeito do PL eleito com apoio de Nikolas. O valor do investimento na cidade ainda não foi divulgado.
A aproximação entre os dois ocorre no cenário em que Flávio ainda não tem um palanque em Minas. Segundo aliados ouvidos pelo Estadão, o senador ainda tenta convencer Nikolas a aceitar uma candidatura, mas o deputado federal já negou publicamente a possibilidade em diversas ocasiões.
A previsão é que o parlamentar visite Jair Bolsonaro na prisão no próximo sábado, 21, justamente para discutir seu futuro político e o posicionamento do PL mineiro na eleição.
Se Nikolas ficar mesmo fora do tabuleiro, o PL terá dificuldade para apresentar nomes competitivos para disputar o Palácio Tiradentes e impulsionar Flávio no segundo maior colégio eleitoral do País.
Um caminho alternativo seria uma aliança com o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). Líder nas pesquisas, ele suspendeu as tratativas eleitorais para se dedicar aos cuidados de um irmão diagnosticado com leucemia, o que aumentou a incerteza sobre se de fato estará nas urnas.
Ao Estadão, Mateus Simões sinalizou com a possibilidade de ter um palanque “múltiplo”, isto é, com Zema e Flávio como candidatos a presidente – ele ainda precisaria equilibrar no palanque a candidatura presidencial do PSD. A nível estadual, o vice-governador afirma ter fechado um acordo com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o PL indicar um dos senadores em sua chapa.
O acerto, contudo, ocorreu antes da prisão do ex-presidente e também do lançamento da candidatura de Flávio. “Eu continuo acreditando na unificação do palanque em Minas Gerais, independentemente do cenário nacional. O cenário dividido nacionalmente foi um pedido do próprio presidente Bolsonaro, que disse que acreditava que vários candidatos à Presidência eram a melhor forma de chegar ao segundo turno. Parte disso vai significar que em alguns Estados a direita estará unificada mesmo com um palanque nacional múltiplo”, afirmou Simões.
Eleições à parte, Nikolas passa por atritos na relação com o núcleo mais próximo de Bolsonaro. O mais recente deles é sobre a pauta de um protesto marcado para o dia 1º de março na Avenida Paulista.
Uma ala do bolsonarismo busca emplacar como pauta principal a anistia, a derrubada do veto à dosimetria e da liberdade do que chamam de presos políticos. Já o parlamentar fez a convocação priorizando os desdobramentos do caso Master e pedindo “Fora Lula, Toffoli e Moraes”.
Ele chegou a escrever para seus seguidores não acreditarem em ninguém que os chame para o ato sem pedir o impeachment dos ministros do STF e a saída do presidente da República.
Se impeachment de ministros não é válido agora, porque estão há 3 anos pedindo o do Moraes? O Lula não indicaria da mesma forma. Percebe? Até pra criar narrativa, precisa de um mínimo de coerência. Patético a tentativa de esconder isso das pessoas.
Ademais: Fora Lula, Moraes e…
— Nikolas Ferreira (@nikolas_dm) February 15, 2026
Nikolas também foi cobrado por bolsonaristas nas redes sociais por uma suposta falta de engajamento na candidatura de Flávio. Ele respondeu dizendo que apoia o filho do ex-presidente, mas que não participará da coordenação ou planejamento da campanha porque sua prioridade é a reeleição em Minas.
O paramentar tem dito a aliados que seu plano é se candidatar a governador somente em 2030. A ideia dele é utilizar essa eleição para consolidar uma bancada de deputados federais e estaduais aliados que, espalhados pelo Estado, funcionariam como alicerces na eleição seguinte – em Juiz de Fora, por exemplo, Nikolas disse que a demanda foi inicialmente apresentada pela vereadora Roberta Lopes (PL), pré-candidata a deputada estadual.
Ao Estadão, Simões cortejou o aliado bolsonarista, mas negou que as agendas conjuntas representem um apoio do deputado à sua pré-candidatura. “Quem não gostaria de ter o apoio de Nikolas Ferreira? Se perguntar pro Lula, acho que até ele gostaria. Mas não é por isso que essas agendas estão sendo feitas. Elas não são uma sinalização, é só trabalho mesmo”, desconversou Simões.
A dobradinha com Nikolas ajuda Simões no principal desafio de sua pré-candidatura: tornar-se conhecido do eleitorado mineiro. O bolsonarista tem feito publicações conjuntas com o vice-governador em seus perfis nas redes sociais, colaborando para divulgar a imagem do aliado. Enquanto o deputado tem mais de 20 milhões de seguidores apenas no Instagram, Simões não chega a 100 mil na plataforma.
O vice-governador, que assume oficialmente o governo mineiro em abril com a saída de Zema, tem feito uma série de acenos à direita. No início do mês, ele afirmou que iria descumprir uma decisão do Tribunal de Justiça que suspendeu o programa de escolas cívico-militares, projeto lançado originalmente pelo governo Bolsonaro, em Minas Gerais. “Podem preparar para mandar me prender, porque eu vou abrir colégios cívico-militares assim que eu assumir como governador do Estado”, disse na ocasião.
Simões foi um dos primeiros integrantes do Novo a vencer uma eleição. Ele foi eleito vereador de Belo Horizonte em 2016. Depois, foi coordenador das duas campanhas de Zema, sendo primeiro secretário e depois vice. No final do ano passado, trocou o Novo pelo PSD de Gilberto Kassab de olho na estrutura partidária – a sigla lidera o Estado em número de prefeitos – e musculatura política.
