Governo e PT batem cabeça sobre crise com evangélicos após pesquisas mostrarem avanço de Flávio
Nove dias após o desfile da Acadêmicos de Niterói que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Rio, o governo e o PT batem cabeça sobre como conter a crise com os evangélicos por causa da ala intitulada “Neoconservadores em conserva”. Nos bastidores, há uma caça às bruxas em curso: dirigentes do PT e ministros buscam culpados pela queda da aprovação do presidente em pesquisas de intenção de voto enquanto o senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PL e seu desafiante, ganha terreno.
O Palácio do Planalto recebeu informações de que levantamentos feitos depois do carnaval mostram revés para o presidente. Com o enredo “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a escola de samba de Niterói acabou rebaixada para a segunda divisão do carnaval carioca.
“Não adianta o governo apenas sinalizar com vídeos para os evangélicos. É preciso ter foto. A imagem é tudo: o presidente tem de se reunir com bispo e com pastor”, disse o deputado Jilmar Tatto (SP), vice-presidente do PT.

Desde o desfile na Marquês de Sapucaí, no dia 15, o Palácio do Planalto e a cúpula do PT tentam amenizar o mal-estar com grupos religiosos que se sentiram ofendidos com a ala que mostrou famílias conservadoras dentro de latas.
Nos últimos dias, a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e a deputada Benedita da Silva (PT-RJ), que é evangélica, postaram vídeos nas redes sociais para jogar água na fervura. Gleisi viu “oportunismo e hipocrisia” nas críticas feitas por bolsonaristas e Benedita afirmou que “Deus não pode ser instrumento de campanha política”.
Irritado com a polêmica, Lula fez questão de avisar que, no retorno ao Brasil, visitará a Acadêmicos de Niterói para agradecer a homenagem. “Eu, sinceramente, acho que a escola fez uma coisa extraordinária e não cabe ao presidente dar palpite nos carros alegóricos”, argumentou ele no domingo, 22, quando estava na Índia. A partir daí, a polêmica só aumentou.
Em conversas reservadas, dois ministros disseram à Coluna que a culpa pela queda ou mesmo estagnação de Lula não pode ser debitada na conta da escola de samba. Há um sentimento nas fileiras do PT de que o governo continua errando na comunicação e encontrou no desfile um “bode expiatório” para esconder os problemas que levaram a esse cenário.
Por esse diagnóstico, o principal vilão de Lula é a falta de discurso e de ações consistentes para enfrentar os problemas na segurança pública. Até agora, o Ministério da Justiça não conseguiu emplacar a PEC da Segurança e viu o adversário Guilherme Derrite (PL-SP) – ex-secretário da Segurança do governo Tarcíso de Freitas – ganhar novamente a relatoria do projeto de lei antifacção.
Além disso, para interlocutores do presidente, os aliados de Bolsonaro ocuparam as redes sociais “com mais competência” do que o Planalto. O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, nunca responde a esse tipo de crítica. “Eu não faço o vento. Eu estendo a vela e posiciono a direção”, costuma dizer ele.
Integrante da Assembleia de Deus, o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ), afirmou estar “inconformado” com tanta narrativa falsa. “Eu tento ajudar, mas o governo não se ajuda”, insistiu Otoni.
Na sua avaliação, mais importante do que Lula se reunir com evangélicos e católicos seria ele dizer que, apesar de se sentir honrado com a homenagem da Acadêmicos de Niterói, não concorda com as críticas feitas aos conservadores.
“Se ele fizesse isso, teria calado a boca dos bolsonaristas”, observou Otoni, que rompeu com o ex-presidente Jair Bolsonaro. “O governo não pode achar que nada aconteceu. Mesmo que tudo tenha sido supervalorizado, há conservadores que votam em Lula e essas pessoas ficaram magoadas. Gravar vídeos não resolve: é o mesmo que pai de santo conversar com pastor”.
Na prática, a ala do desfile que exibiu imagens de pai, mãe e filhos em latas de conserva não desagradou apenas aos evangélicos. A Arquidiocese do Rio também expressou preocupação com o uso de “símbolos da fé cristã e da instituição familiar em manifestações culturais” de maneira vista como “ofensiva”. A Frente Parlamentar Católica, por sua vez, sustentou haver indícios de que a escola de samba ultrapassou os limites estabelecidos pela lei ao tratar de convicções religiosas.
Foi a reação dos evangélicos, porém, que fez acender o sinal vermelho no Planalto. Motivo: o governo nunca conseguiu se aproximar desse segmento religioso, que representa cerca de 30% do eleitorado e, hoje, é o que mais desaprova Lula. Até agora, no entanto, o Planalto e PT divergem sobre como dissipar a nuvem de chuva no horizonte.
