27 de fevereiro de 2026
Politica

Caso Marielle: ministros do STF votam nesta quarta se condenam ou não acusados de planejar atentado

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal concluiu nesta terça, 24, a etapa inicial do julgamento dos réus acusados de ordenar e planejar o assassinato da ex-vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018. A fase decisiva está prevista para a manhã desta quarta, 25, a partir das 9h, quando terá início a votação dos ministros.

O primeiro a votar será o relator do caso, ministro Alexandre de Moraes. Em seguida, votarão Cármen Lúcia, Cristiano Zanin e, por último, o presidente da Turma, Flávio Dino.

Nesta terça, durante nove horas de julgamento, acusação e defesas sustentaram seus argumentos perante os ministros.

São réus no caso o ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, Domingos Brazão, e o ex-deputado federal Chiquinho Brazão, apontados como mandantes do crime.

Também respondem ao processo o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa, o major da Polícia Militar Ronald Alves de Paula e o ex-policial militar Robson Calixto, assessor de Domingos. Segundo a Procuradoria, eles teriam atuado como organizadores do assassinato. Todos estão presos preventivamente e negam as acusações.

Domingos Brazão e Chiquinho Brazão estão presos preventivamente
Domingos Brazão e Chiquinho Brazão estão presos preventivamente
Passo a passo do julgamento

O ministro Alexandre de Moraes encerrou por volta das 10h30 a leitura do relatório com base na denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República, na qual descreveu o crime, resumiu as teses da acusação e das defesas e listou os delitos atribuídos aos réus.

Moraes afirmou que, segundo a denúncia, Marielle Franco era o “mais ativo símbolo da resistência aos interesses econômicos” de seus algozes.

O ministro Alexandre de Moraes é o relator da ação penal no Supremo
O ministro Alexandre de Moraes é o relator da ação penal no Supremo

O vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand, encerrou por volta das 11h30 a exposição dos argumentos que sustentam o pedido de condenação dos réus.

Os assistentes de acusação, que representam as vítimas ou seus familiares e atuam ao lado do Ministério Público, encerraram as sustentações às 12h10.

Após pausa para o almoço, a sessão foi retomada às 13h30 com as sustentações das defesas dos acusados. Essa etapa pode se estender por até cinco horas.

Autoridades acompanham a sessão no Supremo

A sessão é acompanhada por parlamentares do PSOL, entre eles Talíria Petrone, Tarcísio Motta, Pastor Henrique Vieira e Chico Alencar. Também estão presentes o presidente da Embratur, Marcelo Freixo, a deputada federal Erika Kokay (PT-DF) e a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, irmã de Marielle.

Familiares posam para foto antes do Inicio do julgamento no STF dos mandantes do assassinato da ex-vereadora, Marielle Franco
Familiares posam para foto antes do Inicio do julgamento no STF dos mandantes do assassinato da ex-vereadora, Marielle Franco

Freixo foi o mentor da Marielle na política. Ela foi sua assessora na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, quando exercia o cargo de deputado estadual. Mais tarde, já como deputado federal, Freixo apoiou e mobilizou a campanha que levou Marielle à eleição para a Câmara Municipal do Rio no pleito de 2016.

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, irmã de Marielle, aparece ao centro da imagem e acompanha o julgamento nesta terça, 24
A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, irmã de Marielle, aparece ao centro da imagem e acompanha o julgamento nesta terça, 24
Veja o que disse a PGR sobre a investigação

A denúncia apresentada pela PGR sustenta que o assassinato de Marielle atendia a dois objetivos: eliminar a oposição política que ela representava aos acusados e dissuadir outros parlamentares oposicionistas a seguirem os seus passos.

A PGR sustenta que a atuação de Marielle nas áreas de milícia tinha “elevada probabilidade de prejudicar os loteamentos irregulares que faziam parte dos planos futuros” da família Brazão. Segundo a denúncia, “Marielle ameaçou os currais eleitorais dos irmãos”.

“Fartos dos confrontos com o PSOL e, depois com as intervenções de Marielle, eles, os irmãos Brazão, decidiram pelo homicídio da vereadora. A princípio cogitaram pelo assassinato de Marcelo Freixo, mas o atirador dissuadiu os mandantes apresentando dificuldades operacionais para o cometimento desse crime. Com a intensificação da atuação de Marielle nas áreas de milícia, especialmente em Vargem, sub região de Jacarepaguá, a vereadora se tornou o alvo alternativo da organização criminosa”, afirmou Chateaubriand.

Confira os argumentos de defesa dos acusados

A defesa do ex-deputado federal Chiquinho Brazão alega que não havia antagonismo com a parlamentar, tampouco disputa do mesmo reduto eleitoral, que justificasse a motivação para cometimento do crime. Os advogados também acusam o policial aposentado Ronnie Lessa, autor dos disparos que assassinaram Marielle e Anderson, de ter mentido em sua colaboração premiada.

A defesa de Chiquinho, conduzida pelo advogado Cleber Lopes, criticou a delação premiada de Ronnie Lessa e afirmou ser “angustiante não saber quem mandou matar Marielle”.

O advogado acrescentou que “não podemos, apesar disso, sacrificar a liberdade de pessoas ao arrepio da prova dos autos”, ao sustentar que não há elementos suficientes para condenar o ex-deputado.

Chiquinho Brazão nega envolvimento no assassinato da vereadora
Chiquinho Brazão nega envolvimento no assassinato da vereadora

Os depoimentos de Lessa foram decisivos para que as investigações fossem deslocadas do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) para o STF. O autor do assassinato acusou Brazão, que há época possuía foro por prerrogativa de função, o que obrigou o caso a ser julgado pelo Supremo. O ministro Alexandre de Moraes assumiu a relatoria do caso em março de 2024.

O inquérito tramitou por seis anos sob a alçada da Justiça do Rio sem elucidação. Semanas após a designação do caso ao STF, a Polícia Federal (PF) concluiu as investigações e afirmou em seu relatório que a motivação do crime está ligada à grilagem de terras na Zona Oeste da capital fluminense e que houve obstrução do trabalho da Polícia Civil pelo delegado e ex-chefe da corporação Rivaldo Barbosa.

Na retomada do julgamento, o primeiro a se manifestar foi o advogado Felipe Dalleprane, representante de Barbosa.

Em sua sustentação, ele afirmou que não existem elementos que liguem seu cliente ao crime e sustentou que a acusação carece de provas. Logo no início, indagou: “Qual a motivação de Rivaldo Barbosa?” e acrescentou que esse é “um elemento que a investigação não soube responder”.

Na sequência das sustentações, após a defesa de Chiquinho Brazão, o advogado Igor de Carvalho foi à tribuna para representar o PM Ronald Alves de Paula. Ele afirmou que seu cliente era um conhecido desafeto do delator Ronnie Lessa e que a investigação vasculhou minuciosamente os dados telefônicos do policial e, ainda assim, “nada” foi encontrado que o vinculasse ao crime.

A defesa do ‘Major Ronald’ também mencionou a chamada “investigação da investigação”, que identificou uma tentativa de obstrução com testemunhas falsas. Para Igor, ao longo do processo, o “canhão” foi apontado para diferentes direções, mas seu cliente permaneceu como alvo constante.

O quarto a falar foi o advogado Marcio Palma, que atua na defesa de Domingos Brazão ao lado do criminalista Roberto Brzezinski Neto. Na sustentação, Palma afirmou que a denúncia apresentada pela Procuradoria não reúne elementos suficientes para condenar o ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio.

Segundo Palma, Ronnie Lessa – delator do caso – “utiliza fatos verídicos que vivenciou, mas troca personagens dessa história para se prevalecer, se beneficiar”.

O último a se manifestar pelas defesas, foi o advogado Gabriel Habib, defensor de Robson Calixto, conhecido como ‘Peixe’ e assessor de Domingos Brazão na Assembleia Legislativa do Rio.

Ele afirmou que o perfil do cliente é “incompatível” com o de um miliciano. Segundo ele, ‘Peixe’ é casado há 19 anos, tem dois filhos, sempre viveu com a família e possui curso superior.

O defensor pediu a absolvição e também a concessão de prisão domiciliar ao ex-assessor. De acordo com Habib, o cliente precisa realizar exames de próstata e o médico “já sabe que é câncer”, faltando apenas a confirmação por laudos. Ele acrescentou que o órgão teria triplicado de tamanho em menos de um ano.

Reelembre o assassinato de Marielle em março de 2018
A vereadora Marielle Franco (PSOL) foi assassinada a tiros no bairro do Estácio, no Centro do Rio
A vereadora Marielle Franco (PSOL) foi assassinada a tiros no bairro do Estácio, no Centro do Rio

Marielle foi assassinada na noite de 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro. Ela voltava de carro para a sua casa, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio, depois de participar de uma reunião na Lapa. A vereadora tinha 38 anos e estava acompanhada pelo motorista Anderson Gomes, de 39, e pela assessora parlamentar Fernanda Chaves, de 43.

Na altura da Praça da Bandeira, na rua Joaquim Palhares, um Chevrolet Cobalt prata emparelhou à direita do veículo no qual estava Marielle. Um dos ocupantes disparou nove vezes contra a parlamentar, atingindo o vidro e parte da porta traseira direita do veículo. O carro andou mais alguns metros e os assassinos fugiram. Marielle foi atingida por três tiros na cabeça e um no pescoço, enquanto Gomes foi alvejado três vezes nas costas. Ambos morreram no local. A assessora foi ferida por estilhaços.

 

 

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