Falta um Joaquim Nabuco
O Brasil já teve lideranças excepcionalmente qualificadas. Estadistas comparáveis aos mais respeitados do planeta. Dom Pedro II foi um deles. E homens públicos paradigmáticos. Aqueles que conseguiam colocar o país e seu povo como os verdadeiros destinatários do seu talento e trabalho. Não os interesses pessoais, mesquinhos e egoísticos.
Um deles foi Joaquim Nabuco. Como sempre, quem é bom nem sempre consegue alcançar seus objetivos. Em 1882, ele perdeu a eleição para Deputado e foi para um ano sabático em Londres. Ali redigiu “O Abolicionista”, livro de meditação e doutrina, mas com passagens polêmicas. Era erudito, perspicaz e cáustico.
Já no prefácio, dava o tom do livro:
“Já existe, felizmente, em nosso país, uma consciência nacional – em formação, é certo – que vai introduzindo o elemento da dignidade humana em nossa legislação, e para qual a escravidão, apesar de hereditária, é uma verdadeira mancha de Caim, que o Brasil tem na fronte”.
Tinha razão ao afirmar: “A pátria, como a mãe, quando não existe para os filhos mais infelizes, não existe para os mais dignos”. Não se acanhava de clamar: “A escravidão é infame e infamante, devendo, pois, inexistir”.
Se fizermos um exercício de substituir “escravidão” por “exclusão”, veremos que a situação calamitosa, terrível e vergonhosa em que se encontra o Brasil, campeão da desigualdade, precisa de um Joaquim Nabuco para lutar contra esta ignomínia.
A obra de Nabuco nos dá infinitos argumentos para a luta ferrenha contra a miséria e a pobreza indigna. Cito suas falas, substituindo “escravidão” por “exclusão”, como já adiantei. “A exclusão corrompe a sociedade, a moral, o país. Nos países onde há a exclusão, ela é causa de atraso, pobreza e ruína. Todas as transações e domínios sobre entes humanos são crimes que só diferem no grau de crueldade”.
Ao se conformar com a exclusão, o Brasil assentiu em continuar responsável por um crime. Consagra a ilegitimidade dos direitos de posse. É escândalo sua existência em país civilizado. Impede o desenvolvimento do país e a elevação das classes. Traz a corrupção social. Promove a dissolução social. Acarreta lucros cessantes por falta de progresso. Conserva populações pretensamente livres em andrajos, indiferentes à sua condição moral e social.
A exclusão frustra a democracia. Não há equanimidade na condição do eleitorado. Transforma o sistema representativo, já em decadência, num governo assistencialista e patriarca. Pois com exclusão não há opinião pública esclarecida, moralizada, honesta e patriótica. Não há influxo de ideias novas. Não há progresso material, inovação, nem invenções.
Já à época em que ele escreveu “O Abolicionista”, se dizia que ali, cada palavra era um dardo contra os escravocratas. Hoje, não deve ser considerada reminiscência histórica. Tudo o que havia de negativo na análise de Nabuco, no que concernia ao escravo, prolonga-se hoje na legião de desvalidos favelados, moradores de rua, em palafitas, nos casebres nas periferias.
A inclusão dos excluídos precisaria ser uma política estatal concreta e consistente, levada a efeito em todos os níveis da federação. Encarada por toda a sociedade, igualmente responsável por um processo de formação de gerações mais prontas à renovação do Brasil. É urgente despertar nos excluídos a vontade de aprimorar suas habilitações naturais, adaptabilidade às novas demandas de uma sociedade digital, seu papel na família, na comunidade e na sociedade, sua participação na política. Não cabe esperar erradicação espontânea de condições físico-somáticas que trazem, em seu bojo, séculos de consolidação.
A legião dos excluídos é massa de manobra para partidos que são instrumentos de empolgação do poder, de partilha dos Fundos Partidário e Eleitoral, de utilização de emendas para uma atuação paroquial e politiqueira, que só por acaso pode tangenciar o bem comum.
Assim como o negro, na fase anterior à abolição não podia defender-se, pois achavam-se nas mãos dos inimigos, seus “proprietários”, os excluídos também estão subjugados por uma política incapaz de lhes conferir conhecimento, lucidez e capacidade de exigir a fruição dos direitos formalmente assegurados na “Constituição Cidadã”.
Quem seria o brasileiro em condições de realizar, no século XXI, o que Joaquim Nabuco fez no Século XIX?
