Ando muito esquecido…
À medida que os anos avançam e permanecemos no mundo dos vivos, vamos colecionando algumas perdas. Nem falo daquelas afetivas, que nos machucam tanto: a despedida de seres amados, de referências em nosso trajeto existencial. De nossas paixões, de nossos amores, de nossos padrões. Falo de coisas mais triviais, mas essenciais. Já não enxergamos tão bem, não escutamos com perfeição. Perdemos agilidade nos movimentos.
Mas o pior é aquela ameaça de perda insubstituível. A da consciência, do descortino, da capacidade de participar do espetáculo da vida.
A perspectiva da demência, do mal de Alzheimer e de outras anomalias mentais nos assusta. Pensávamos que pessoas intelectualmente preparadas não seriam vitimadas por esse mal. A experiência nos mostra que não há vacina. Nem ainda remédio para debelar essa verdadeira morte em vida. Morte em pílulas, em capítulos, em graus. Cuja velocidade é imprevisível.
Só que o esquecimento não significa, inevitavelmente, que você tenha início de Alzheimer. Um especialista de Harvard tenta nos confortar. Diz que tropeços de memória são frustrações normais do envelhecimento. Esquece-se porque entrou num cômodo? Está conversando e não se lembra do nome que gostaria de citar? Há algumas estratégias que podem ajudar a reter informações e reduzir o que pode ser chamado de “soluço cognitivo”.
Uma delas é repetir, até em voz alta. A repetição reforça o aprendizado. Garante que o cérebro processe a informação com suficiência para permitir a repetição. A segunda é visualizar algo. Associar uma ideia a uma imagem. Conhece alguém chamado Rosa, imagine-a a carregar um ramalhete de rosas. Quer comprar alguns produtos no supermercado e tem medo de esquecer, procure visualizá-los sobre a mesa da cozinha.
Agrupar as informações em bloco também ajuda. É menos desafiador lembrar listas longas de itens, se as informações forem agrupadas. Em blocos de três ou quatro. Assim como fazemos com os telefones (se bem que hoje, é o celular que nos ajuda nisso: quem é que decora telefone, ainda que seja do filho, do marido, da mulher, dos irmãos ou demais familiares?).
Escrever em um papel. Escrever à mão. Registrar pensamentos, conversas, experiências ou qualquer outra informação. É uma atividade simples, muito mais eficiente do que digitar no teclado. Escrever à mão ativa processos cerebrais complexos que ajudam a memória.
Tenho incentivado as pessoas a reescreverem sua vida. Como hoje é possível publicar um livro “on demand”, o que significa a publicação de apenas um exemplar, se é isso o que você quer, por que não registrar a história de sua família? Essa a verdadeira história que interessa, mais do que a coleção de datas e fatos marcantes que se impõe, sob ameaça de reprovação, aos escolares brasileiros.
Organizar os compromissos é fundamental. Tentar lembrar uma relação plena de tarefas e de compromissos sobrecarrega sua memória e dificulta a lembrança dos detalhes. Revise suas listas em voz alta. Várias vezes. Escrever e revisar, ou seja, repetir, é oportunidade adicional de reforçar a informação.
Dar pistas a si mesmo. Pistas verbais são indícios que enviam o seu cérebro para uma pequena caça ao tesouro, em busca de informação. Se não consegue se lembrar de um nome ou fato, vá dizendo o que você lembra dessa pessoa. São pistas que conduzem a sua memória a responder ao seu desafio.
Acima de tudo, faça um combo saudável: alimentação, exercício e sono. Estilo de vida adequado favorece a memória afiada. No mais, fique tranquilo. Às vezes, esquecer é providencial. Lembre-se apenas dos bons momentos.
Por sinal, na França há relógios antigos que trazem uma inscrição: “marco apenas as horas felizes”. É uma receita para serenar os ânimos, aquietar o espírito e a aceitar a verdade absoluta: é-nos dado permanecer neste planeta por algumas décadas, não mais. Preocupemo-nos só com coisas sérias. Façamos o bem. Perdoemos! E demos, diuturnamente, graças a essa dádiva preciosa e gratuita que é participar da família humana, pelo tempo que nos for concedido.
